Ao longo da história, os cemitérios têm desempenhado um papel importante na preservação da memória de um povo, revelando não apenas aspectos de sua cultura e organização social, mas também de suas crenças e formas de compreender e lidar com a morte. E isso não é de agora.
Durante a Idade Média, com a expansão do cristianismo, as práticas funerárias passaram a ser fortemente influenciadas pela religião. Foi nesta época, por exemplo, que se tornou comum realizar sepultamentos no interior ou nos arredores das igrejas, pois acreditava-se que a proximidade com esses locais sagrados favoreceria a passagem da alma para o reino dos céus.
A partir do século XVIII, entretanto, o crescimento populacional e as crescentes preocupações com a saúde pública impulsionaram mudanças nas práticas de sepultamento. Nesse contexto, começaram a surgir cemitérios públicos afastados dos centros urbanos, estabelecendo um novo modelo de organização dos espaços funerários.
Durante o século XIX e o início do século XX, os cemitérios adquiriram também uma dimensão artística e simbólica, passando a ser considerados museus a céu aberto. Grandes mausoléus, esculturas em mármore e monumentos ornamentados tornaram-se elementos marcantes desses espaços, refletindo o poder econômico, o prestígio e as distinções sociais das famílias que ali sepultavam seus entes queridos.
Mas, em algum momento, isso começou a mudar. O desejo de integrar os cemitérios à natureza e de suavizar o tom fúnebre dos imponentes mausoléus fez com que muitas famílias optassem por uma forma diferente de sepultar um ente querido. Foi assim que, ainda no século XX, surgiram os cemitérios-parque, como hoje os conhecemos.

Cemitérios-parque são favorecidos por transformações sociais
Os cemitérios-parque começaram a se consolidar na Europa, especialmente a partir da década de 1950, chegando ao Brasil na década de 1960. O surgimento desse modelo está relacionado às transformações sociais e culturais do período pós-Segunda Guerra Mundial, quando a urbanização, a valorização da natureza e a busca por ambientes mais tranquilos influenciaram a concepção dos espaços funerários.
Com uma proposta mais naturalizada, caracterizada pela presença de áreas verdes, paisagismo e menor utilização de monumentos verticais, os cemitérios-parque passaram a oferecer uma nova forma de vivenciar o luto e uma ressignificação da relação com a morte.
“Historicamente, a gente observa essas mudanças. No passado, as famílias buscavam eternizar a memória e, de certa forma, o luto também, através dessa materialidade, das construções. Então, quando a família, no passado, perdia um ente, uma forma de ela homenagear era justamente através dos túmulos […] E, através desses túmulos, é possível a gente identificar os valores, as crenças, os costumes daquela família, a origem e tudo mais. Então, é uma forma de expressar a perda, o luto, o sentimento, a memória, a saudade”, afirma o geógrafo e mestrando em Antropologia Social da UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul), Lilsson Souza.
“A sociedade muda e os cemitérios também acompanham essas mudanças, conforme a gente vai desenvolvendo […]. Se a gente observar o surgimento, por exemplo, dos cemitérios-parque, é uma outra forma de se sepultar e de se homenagear”, acrescenta.

Evoluções não apagam o tradicional
Embora haja diferentes formas de seputar, não existe certo ou errado; o novo não anula o tradicional. As histórias continuam sendo eternizadas e contadas, porém, por meios diferentes. Segundo Lilsson, estudos sobre o tema são importantes justamente para evoluir a forma com que as histórias de quem já partiu serão preservadas.
“A leitura de um túmulo permite você identificar a origem daquela família, se ela veio de outro país, qual era a crença, quais são os valores”, explica o pesquisador.
“No cemitério-parque, por exemplo, você tem uma padronização. Só que isso também não impede a gente de conseguir obter informações sobre a história daquela família. Por mais que seja uma placa simples, só com o nome, com a localização, a data de nascimento e falecimento, ali você consegue obter algumas informações, através do sobrenome, a origem daquela família — só que diferente dos cemitérios tradicionais, que são monumentais, onde os túmulos têm muito mais detalhes, muito mais informações. [Nos tradicionais], numa cruz, você identifica a crença; isso vale pra um detalhe de anjo, de uma pedra esculpida. Então, a gente consegue ter muito mais informações a respeito daquela família, daquele indivíduo e do período histórico em que ele viveu na sociedade. Então, tem essa diferença. Eu penso muito que essa mudança está relacionada à própria mudança da sociedade, de costumes e tudo mais”, explica.

Se no passado isso era observado pela estrutura física do túmulo, hoje, existem novas ferramentas.
“Hoje a memória também é digital. Vamos supor: você tem um familiar e ele tem um Instagram. Ele faleceu. Aquele Instagram está contando a história da vida dele, as coisas que ele gostava, os passeios, as vivências, estão todas ali. E aí o familiar pode gerar um QR Code e colocar lá no túmulo onde ele foi sepultado. E quando um neto, um bisneto vier visitar, ele poderá acessar aquilo lá e ter aquela memória registrada, digitalizada. Ou seja, existem muitas formas de se preservar a memória”, pontua.
A ferramenta, inclusive, permite registrar e eternizar a memória de figuras importantes para a história de Campo Grande sepultadas nos cemitérios tradicionais de Campo Grande. No Santo Antônio, por exemplo, está sepultado Amando de Oliveira, político que doou o terreno onde hoje fica o cemitério. Por ironia, ele foi a primeira pessoa a ser sepultada ali, após ser vítima de um assassinato. Hoje, os visitantes conseguem escanear um QR code colocado em seu túmulo para conferir um resumo de sua história e jornada.

Os cemitérios tradicionais estão esquecidos?
De maneira alguma. Os cemitérios-parque, embora em expansão em Campo Grande, não são uma novidade, apenas mais uma opção. Ou seja, não excluem a relevância e a busca pelos cemitérios tradicionais. Além disso, Lilsson explica que muitas pessoas, por terem entes queridos sepultados nos cemitérios mais antigos, criam um sentimento de pertencimento com o local.
“No cotidiano, a gente percebe muito essa movimentação. A gente tem, por exemplo, famílias que têm jazigo aqui e têm jazigo no cemitério-parque. E algumas famílias preferem exumar daqui [cemitério tradicional] e levar para o cemitério-parque. Outras [famílias] têm [jazigo no] cemitério-parque e trazem para cá [tradicional]. Então, tem essa mudança”, afirma.
“O cemitério cria um vínculo com a comunidade. As pessoas têm vínculo, porque ali foi sepultado o seu ente. Então, tem um sentimento de pertencimento com o local. […] O cemitério, dentro desse contexto de patrimônio, é como se fosse um patrimônio vivo, porque ele é vivenciado pelas pessoas. Então, as pessoas vêm, visitam, acendem velas, fazem homenagens. No dia do aniversário da pessoa, vêm ao cemitério. Então, tem as datas específicas e tem a resiliência adaptativa. Mesmo diante da depredação ou da degradação por conta do clima, do tempo, as famílias vêm, reconstroem, recolocam o material”, finaliza.






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(Revisão: Dáfini Lisboa)









