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Cotidiano

Espaços de memória, cemitérios-parque e tradicionais contam como a sociedade ressignificou a morte

Grandes mausoléus 'disputam' com os gramados verdes dos cemitérios-parque? Entenda como esses locais evoluíram com o passar dos anos
Jennifer Ribeiro -
Cemitério Santo Antônio (27)
Cemitério Santo Antônio. (Madu Livramento, Jornal Midiamax)

Ao longo da história, os cemitérios têm desempenhado um papel importante na preservação da memória de um povo, revelando não apenas aspectos de sua cultura e organização social, mas também de suas crenças e formas de compreender e lidar com a morte. E isso não é de agora.

Durante a Idade Média, com a expansão do cristianismo, as práticas funerárias passaram a ser fortemente influenciadas pela religião. Foi nesta época, por exemplo, que se tornou comum realizar sepultamentos no interior ou nos arredores das igrejas, pois acreditava-se que a proximidade com esses locais sagrados favoreceria a passagem da alma para o reino dos céus.

A partir do século XVIII, entretanto, o crescimento populacional e as crescentes preocupações com a saúde pública impulsionaram mudanças nas práticas de sepultamento. Nesse contexto, começaram a surgir cemitérios públicos afastados dos centros urbanos, estabelecendo um novo modelo de organização dos espaços funerários.

Durante o século XIX e o início do século XX, os cemitérios adquiriram também uma dimensão artística e simbólica, passando a ser considerados museus a céu aberto. Grandes mausoléus, esculturas em mármore e monumentos ornamentados tornaram-se elementos marcantes desses espaços, refletindo o poder econômico, o prestígio e as distinções sociais das famílias que ali sepultavam seus entes queridos.

Mas, em algum momento, isso começou a mudar. O desejo de integrar os cemitérios à natureza e de suavizar o tom fúnebre dos imponentes mausoléus fez com que muitas famílias optassem por uma forma diferente de sepultar um ente querido. Foi assim que, ainda no século XX, surgiram os cemitérios-parque, como hoje os conhecemos.

Cemitério Santo Antônio. (Madu Livramento, Jornal Midiamax)

Cemitérios-parque são favorecidos por transformações sociais

Os cemitérios-parque começaram a se consolidar na Europa, especialmente a partir da década de 1950, chegando ao Brasil na década de 1960. O surgimento desse modelo está relacionado às transformações sociais e culturais do período pós-Segunda Guerra Mundial, quando a urbanização, a valorização da natureza e a busca por ambientes mais tranquilos influenciaram a concepção dos espaços funerários.

Com uma proposta mais naturalizada, caracterizada pela presença de áreas verdes, paisagismo e menor utilização de monumentos verticais, os cemitérios-parque passaram a oferecer uma nova forma de vivenciar o luto e uma ressignificação da relação com a morte.

“Historicamente, a gente observa essas mudanças. No passado, as famílias buscavam eternizar a memória e, de certa forma, o luto também, através dessa materialidade, das construções. Então, quando a família, no passado, perdia um ente, uma forma de ela homenagear era justamente através dos túmulos […] E, através desses túmulos, é possível a gente identificar os valores, as crenças, os costumes daquela família, a origem e tudo mais. Então, é uma forma de expressar a perda, o luto, o sentimento, a memória, a saudade”, afirma o geógrafo e mestrando em Antropologia Social da UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul), Lilsson Souza.

“A sociedade muda e os cemitérios também acompanham essas mudanças, conforme a gente vai desenvolvendo […]. Se a gente observar o surgimento, por exemplo, dos cemitérios-parque, é uma outra forma de se sepultar e de se homenagear”, acrescenta.

Arte tumular
Cemitério particular em . (Reprodução, Redes Sociais)

Evoluções não apagam o tradicional

Embora haja diferentes formas de seputar, não existe certo ou errado; o novo não anula o tradicional. As histórias continuam sendo eternizadas e contadas, porém, por meios diferentes. Segundo Lilsson, estudos sobre o tema são importantes justamente para evoluir a forma com que as histórias de quem já partiu serão preservadas.

“A leitura de um túmulo permite você identificar a origem daquela família, se ela veio de outro país, qual era a crença, quais são os valores”, explica o pesquisador.

“No cemitério-parque, por exemplo, você tem uma padronização. Só que isso também não impede a gente de conseguir obter informações sobre a história daquela família. Por mais que seja uma placa simples, só com o nome, com a localização, a data de nascimento e falecimento, ali você consegue obter algumas informações, através do sobrenome, a origem daquela família — só que diferente dos cemitérios tradicionais, que são monumentais, onde os túmulos têm muito mais detalhes, muito mais informações. [Nos tradicionais], numa cruz, você identifica a crença; isso vale pra um detalhe de anjo, de uma pedra esculpida. Então, a gente consegue ter muito mais informações a respeito daquela família, daquele indivíduo e do período histórico em que ele viveu na sociedade. Então, tem essa diferença. Eu penso muito que essa mudança está relacionada à própria mudança da sociedade, de costumes e tudo mais”, explica.

Cemitério Santo Antônio. (Madu Livramento, Jornal Midiamax)

Se no passado isso era observado pela estrutura física do túmulo, hoje, existem novas ferramentas.

“Hoje a memória também é digital. Vamos supor: você tem um familiar e ele tem um Instagram. Ele faleceu. Aquele Instagram está contando a história da vida dele, as coisas que ele gostava, os passeios, as vivências, estão todas ali. E aí o familiar pode gerar um QR Code e colocar lá no túmulo onde ele foi sepultado. E quando um neto, um bisneto vier visitar, ele poderá acessar aquilo lá e ter aquela memória registrada, digitalizada. Ou seja, existem muitas formas de se preservar a memória”, pontua.

A ferramenta, inclusive, permite registrar e eternizar a memória de figuras importantes para a história de Campo Grande sepultadas nos cemitérios tradicionais de Campo Grande. No Santo Antônio, por exemplo, está sepultado Amando de Oliveira, político que doou o terreno onde hoje fica o cemitério. Por ironia, ele foi a primeira pessoa a ser sepultada ali, após ser vítima de um assassinato. Hoje, os visitantes conseguem escanear um QR code colocado em seu túmulo para conferir um resumo de sua história e jornada.

Túmulo de Amando de Oliveira. (Madu Livramento, Jornal Midiamax)

Os cemitérios tradicionais estão esquecidos?

De maneira alguma. Os cemitérios-parque, embora em expansão em Campo Grande, não são uma novidade, apenas mais uma opção. Ou seja, não excluem a relevância e a busca pelos cemitérios tradicionais. Além disso, Lilsson explica que muitas pessoas, por terem entes queridos sepultados nos cemitérios mais antigos, criam um sentimento de pertencimento com o local.

“No cotidiano, a gente percebe muito essa movimentação. A gente tem, por exemplo, famílias que têm jazigo aqui e têm jazigo no cemitério-parque. E algumas famílias preferem exumar daqui [cemitério tradicional] e levar para o cemitério-parque. Outras [famílias] têm [jazigo no] cemitério-parque e trazem para cá [tradicional]. Então, tem essa mudança”, afirma.

“O cemitério cria um vínculo com a comunidade. As pessoas têm vínculo, porque ali foi sepultado o seu ente. Então, tem um sentimento de pertencimento com o local. […] O cemitério, dentro desse contexto de patrimônio, é como se fosse um patrimônio vivo, porque ele é vivenciado pelas pessoas. Então, as pessoas vêm, visitam, acendem velas, fazem homenagens. No dia do aniversário da pessoa, vêm ao cemitério. Então, tem as datas específicas e tem a resiliência adaptativa. Mesmo diante da depredação ou da degradação por conta do clima, do tempo, as famílias vêm, reconstroem, recolocam o material”, finaliza.

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(Revisão: Dáfini Lisboa)

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