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‘Não fazem mal’: sem temer os mortos, coveiro zela pela memória de quem já se foi em Campo Grande

Daniel Januário Filho está prestes a se aposentar, após quase três décadas se dedicando à função
Mariana Piell -
‘Não fazem mal’: sem temer os mortos, coveiro zela pela memória de quem já se foi em Campo Grande
Daniel Januário Filho. (Foto: Pietra Dorneles)

Considerado o cemitério público mais antigo da Capital, fundado em 1914 (com origens históricas que remontam a 1872), o Cemitério Santo Antônio tem como seu coveiro mais antigo Daniel Januário Filho, que trabalha no local desde 2000.

A equipe do Midiamax acompanhou os trabalhos que Daniel faz aos familiares em seus dias de folga. Enquanto coveiro do cemitério, prepara os túmulos para receberem os corpos. Nas horas vagas, é contratado por familiares para fazer a limpeza e manutenção dos sepulcros.

“Ela gosta de um azul bem… Não aquele azulão, né? Bem fraquinho. Esse aqui é um gurizinho, um bebê que foi sepultado aqui na época”, recorda-se o coveiro, enquanto pinta um túmulo de azul, já habituado aos gostos da família.

Antes de ser coveiro, Daniel trabalhava como segurança em uma loja de autopeças próxima ao cemitério. “Tinha um encarregado na época que trabalhava aí, e aí ele me indicou. Se quisesse trabalhar aqui… Falei: ‘Quero, ué’. Porque, na época, eu trabalhava à noite de guarda. Aí gostei e fiquei”, conta.

O domínio do ofício foi conquistado rapidamente. “Uma semana até pegar o jeito. Aí acostumou e pronto”, relata.

O cemitério que abriga os túmulos de figuras históricas, como o fundador José Antônio Pereira, a atriz Glauce Rocha e pioneiros da cidade, tem milhares de corpos sepultados. Mas espíritos? Nenhum jamais foi visto por Daniel.

“Acreditar a gente acredita, né? Mas eu nunca vi, não. Esses daqui não fazem mais nada. Aí é a ilusão do pessoal. Esses já foram, sabia? A gente tem que ter medo é desses da rua aí, os vivos. O morto, coitado, já foi”, pontua.

Daniel, que lembra exatamente do primeiro jazigo em que trabalhou quando era apenas um aprendiz, hoje se tornou o mestre que ensina os novatos na função.

“Depois de mim, é só o Nilson, ali, que deve ter uns 6 anos de história. O resto é tudo 3 anos, 4 anos. É que nem eles falam: ‘Vocês aproveitem para aprender igual o Daniel, porque daqui a uns tempos ele não tá aqui mais, vai aposentar'”, conta o coveiro.

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(Revisão: Dáfini Lisboa)

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