Para garantir renda à família, caminhoneiros vivem na estrada e deixam vazio no Dia dos Pais Pular para o conteúdo
Cotidiano

Para garantir renda à família, caminhoneiros vivem na estrada e deixam vazio no Dia dos Pais

A data costuma ser sinônimo de almoço em família, mas nem todos podem ficar em casa
Murilo Medeiros -
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Caminhões de carga em Campo Grande. (Foto: Marcos Ermínio/Jornal Midiamax)

Dia dos Pais costuma ser sinônimo de almoço em família, churrasco e casa cheia. No entanto, para quem vive na estrada, o segundo domingo de agosto pode ser apenas mais um dia de trabalho pelas rodovias de Mato Grosso do Sul. Caminhoneiros atravessam cidades e estados transportando cargas para garantir justamente o sustento de quem fica em casa.

Para o caminhoneiro campo-grandense Marcos Euclides da Rocha, de 51 anos, o almoço deste domingo (9) será na casa da avó dos três filhos dele. Eles vão se reunir, mas o lugar à mesa da figura mais importante neste domingo ficará vazio. Após passar dois dias com a família, Marcos seguiu para Vilhena, em Rondônia, na quinta-feira (6), e só espera retornar na quinta (13) ou sexta-feira (14).

“Minha filha já cobrou, mas não vou poder estar aqui, tenho compromisso”, conta Marcos. A ausência já deixou de ser novidade para quem atravessa o país todos os dias. “Eles se juntam de qualquer jeito, só a gente que não, porque tem que trabalhar. Dá vontade de estar com eles”, lamenta o caminhoneiro.

Marcos Euclides da Rocha, caminhoneiro de 51 anos. (Leo de França, Jornal Midiamax)

‘Perde muito e ganha pouco’

A conta é difícil de equilibrar. Quanto mais tempo dedicado aos fretes, maior a renda, mas menor a participação na vida da família. Francisco Antônio de Oliveira, de 62 anos, resume o peso dessa troca: “Acaba perdendo muito e ganhando pouco, porque você perde o afeto da família. Junto é junto”, diz o morador de Vargem Grande do Sul (SP).

Em 35 anos na boleia — mais que a metade da vida —, Francisco aprendeu que as épocas de confraternização também representam oportunidade de aumentar a renda. “Não tenho uma foto de aniversário, só para ter ideia. Não tenho foto de final de ano, que é a época em que o frete é melhor. Então, a gente se propõe a deixar a família para ganhar mais.”

Morador de Bento Gonçalves (RS), Alex Dendena trabalha como caminhoneiro há 25 anos e transporta diferentes tipos de carga. Depois de passar por e chegar a , ele aguarda um novo frete para o . No entanto, não sabe quando conseguirá voltar para casa. “Só Deus sabe quando vai sair a carga”, resume.

Casado e pai de duas filhas, de 20 e 13 anos, Alex já chegou a passar oito meses longe da família. Ao ser questionado sobre o que perdeu ao longo dos anos na profissão, responde sem hesitar: “Tudo”. Assim como Francisco, a lista é longa. “Natal, fim de ano, aniversário, festas, Dia dos Pais, Dia das Mães… Eu já superei pelo tempo de estrada que tenho, acabei me acostumando, mas sempre fica um vazio”, lamenta.

Nas três décadas de trabalho, Francisco, com cinco filhos, aprendeu a evitar olhar para o que ficou atrás para conseguir seguir viagem. “Depois que você fecha a porta, levanta os vidros, tem que se virar, porque precisa continuar. Não pode olhar no retrovisor, senão você não vai”, afirma o caminhoneiro.

De pai para filho…

A profissão faz parte da história familiar de Alex Dendena, porque o pai dele era caminhoneiro, e ele admirou a vida nas estradas desde a infância. Seguir o mesmo caminho foi uma escolha motivada pelo desejo de se espelhar no pai. “Acho que é a ilusão de seguir os passos do pai, de ser uma pessoa correta. É um trabalho digno”, afirma.

Se a profissão nasceu da proximidade familiar, ela também deixou marcas na relação com a esposa e as filhas. Alex avalia que todos se acostumaram com a ausência, mas reconhece que o afastamento físico pode enfraquecer os vínculos familiares. Dinheiro é o que o motiva a continuar. “Gostaria de parar de viajar, mas, na situação em que está, tenho que continuar no trecho. Eu sou autônomo, você tem o que ganha”, desabafa.

A trajetória de Marcos Euclides da Rocha também começou em uma família de motoristas. Aos 13 anos, passou a aprender a profissão com colegas e, aos 18, já trabalhava com o primeiro caminhão. Irmãos e dois sobrinhos também seguiram o mesmo caminho. A mãe, no entanto, não aprovou quando mais um filho, o caçula, decidiu entrar na estrada.

Marcos Euclides da Rocha pouco antes de sair em viagem. (Leo de França, Jornal Midiamax)

Ilusão das fotos

Hoje, aos 51 anos, Marcos tem três filhos, de 29, 26 e 19 anos. A mãe de dois deles morreu. Quando eram crianças, as conversas por telefone ajudavam a diminuir a ausência do pai. Atualmente, ligações e chamadas de vídeo continuam sendo o recurso disponível quando uma viagem coincide com uma data importante.

A tecnologia também mudou a rotina de Francisco. Fotografias e videochamadas ajudam a amenizar a saudade, embora não substituam a presença. “Você se ilude com uma foto, uma lembrança. Graças a Deus, hoje a internet ajuda muito, porque você faz uma chamada de vídeo e acaba amenizando a falta. Mas não é igual estar junto”, reconhece.

Neste Dia dos Pais, Francisco acredita que receberá ligações principalmente das filhas. “Eu estou no coração delas e elas estão no meu. Estão junto comigo em todo lugar”, afirma.

Já Alex nem se lembra qual foi o último Dia dos Pais que passou ao lado das filhas. Se conseguisse chegar em casa, gostaria de aproveitar a data com churrasco. No entanto, enquanto aguarda uma carga de retorno, nem sequer sabe o que esperar do domingo. “Acaba ficando sem expectativa depois de tanto tempo afastado”, comenta.

Dos três, Francisco é quem está mais próximo de deixar as viagens. Com os documentos da aposentadoria encaminhados, ele já faz planos para permanecer em casa depois de 35 anos circulando pelo país. “Aí vou começar a viver legal, porque vou ficar em casa, perto de casa. Aí vai ser bom”, projeta.

Aposentadoria é esperança de Francisco. (Leo de França, Jornal Midiamax)

Construção de laços

Para a psicóloga infantojuvenil e neuropsicóloga Emília Luna, a distância provocada pelo trabalho não impede a construção do vínculo entre pai e filho. A tecnologia pode ajudar a minimizar a ausência por meio de chamadas de vídeo, áudios e mensagens enviadas em diferentes momentos do dia.

Em viagens mais longas, outra estratégia é preparar bilhetes para que a criança receba um por dia. No entanto, isso pode ser difícil quando as viagens têm mais frequência que o tempo em casa. A família também pode marcar em um calendário as datas de saída e retorno do pai. “É importante a criança entender que ele vai, mas volta”, explica.

Antes de viajar, o pai deve conversar com o filho e explicar por que ficará distante e quando retornará. Quando estiver em casa, a recomendação é participar ativamente da rotina e reservar momentos exclusivos entre os dois, além das atividades realizadas por toda a família.

Segundo Emília, esses momentos constroem memórias afetivas que permanecem durante a vida. Passeios, brincadeiras ou programas repetidos em família podem se tornar referências importantes na formação da criança. “É importante ter a memória afetiva do pai, da mãe e da família. Isso constrói laços que vão para a vida inteira”, conclui.

Caminhões em posto de combustível de Campo Grande. (Leo de França, Jornal Midiamax)

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(Revisão: Dáfini Lisboa)

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