Cercada de dúvidas e informações equivocadas, a amamentação ainda é um desafio para muitas mães e famílias. Entre os mitos mais comuns, está a ideia de que existe “leite fraco”, de que o tamanho dos seios interfere na produção e de que é preciso interromper a amamentação para voltar ao trabalho.
Em agosto, mês marcado pela campanha Agosto Dourado, ações em todo o país reforçam a importância do aleitamento materno e buscam esclarecer dúvidas que podem contribuir para o desmame precoce. Em Campo Grande, o Banco de Leite Humano do Humap-UFMS (Hospital Universitário Maria Aparecida Pedrossian) atende mães e famílias com orientações sobre as principais dificuldades enfrentadas durante a amamentação.
‘Achei que meu leite não era suficiente’
Aos 22 anos, Rayane Pereira da Silva vive a experiência da amamentação pela primeira vez. A mãe de Isadora, de um mês, relata que enfrentou dificuldades logo nas primeiras semanas, incluindo fissuras no bico do seio.
A jovem também chegou a questionar se a quantidade de leite era suficiente para alimentar a filha, especialmente diante das dificuldades da bebê durante as mamadas. “Eu achei que não era suficiente para ela”, relata.
Para lidar com as dúvidas e inseguranças, Rayane buscou orientação no Humap-UFMS enquanto acompanhava a filha, com quem permanece internada. Segundo ela, o apoio recebido foi importante durante esse período.
“Eu falei com a psicóloga. Foi muito importante; me ajudou a esclarecer várias dúvidas”, conta.
A experiência da jovem reflete algumas das dúvidas mais comuns entre mães que buscam orientação sobre amamentação, como dificuldades na pega, dor, fissuras e a preocupação com a produção de leite. É justamente esse tipo de situação que o Banco de Leite busca acompanhar, com atendimento individualizado às mães e famílias.
Acolhimento individualizado
Nutricionista do Humap, Fabiana Santos Araújo explica que as dúvidas mais frequentes envolvem a pega correta do bebê, a produção de leite, dor durante a amamentação, fissuras mamilares, ingurgitamento mamário, além da extração e do armazenamento do leite.
“Nosso papel é acolher essas famílias e oferecer atendimento individualizado”, afirma.
A profissional explica que também são recorrentes as dúvidas sobre formas de aumentar a produção de leite, se o bebê está sendo alimentado adequadamente e qual deve ser a alimentação da mulher que amamenta.
“Também recebemos muitas perguntas sobre como aumentar a produção de leite; se o bebê está satisfeito com o leite ou como deve ser a alimentação da nutriz. E, quando há excedente, falamos sobre a possibilidade de se tornar uma doadora”, completou.
A amamentação é indicada até os dois anos de idade, mas, até os seis meses, deve ser a única forma de alimentação. “O único alimento que o bebê consegue digerir, como forma de tratamento e fator de proteção, é o leite humano”, explica Fabiana.
Mitos e verdades sobre o aleitamento materno

Para voltar a trabalhar, a mulher deve desmamar o bebê?
MITO. Ela pode ser orientada a ordenhar o leite de forma adequada e armazená-lo sob refrigeração no freezer doméstico, para ser utilizado nos horários em que ela não estiver disponível.
As mamas podem ficar “empedradas” se a mulher não amamentar?
EM PARTE. Ele não “empedra”. Quando o leite acumula, ele forma nódulos que dão esta sensação. Este acúmulo de leite causa desconforto nas mamas, é o que chamamos de ingurgitamento mamário. Normalmente, existe apojadura, o limite máximo de produção de leite, que acontece em média de 3 a 5 dias de vida. O único remédio é a retirada para aliviar e resolver o desconforto mamário.
Cirurgias plásticas nos seios podem afetar a amamentação?
VERDADE. Em alguns casos, onde há lesão dos ductos mamários, isto pode acontecer. Portanto, faz parte da anamnese obter esta informação, com acompanhamento sistemático do recém-nascido quanto à saciedade e ganho de peso, principalmente após a alta hospitalar.
Existe leite fraco?
MITO. O leite materno nunca é fraco. A composição do leite atende às necessidades nutricionais do bebê. Mas este mito é a principal causa de desmame globalmente.
O tamanho dos seios influencia na quantidade de leite produzido?
MITO. O tamanho dos seios se deve à presença da glândula mamária, gorduras e outras estruturas. Portanto, mamas pequenas ou grandes não são fatores determinantes do volume produzido.
Quem fez cesárea deve esperar um tempo para amamentar?
MITO. O recém-nascido em boas condições pode ser levado ao seio logo após o nascimento. Com a sucção, vai determinando a produção.
Mesmo gripada, a mãe deve manter a amamentação?
VERDADE. Quando a mãe é infectada por um vírus respiratório (como o da gripe), seu sistema imunológico produz anticorpos específicos (IgA secretora) que são transferidos diretamente ao bebê pelo leite humano, protegendo-o contra a infecção ou atenuando seus sintomas.
Deve-se manter os seguintes cuidados: a mãe deve praticar a higienização frequente das mãos e, se desejar, utilizar máscara facial durante a mamada, para reduzir o contágio por gotículas respiratórias.
O HIV passa de mãe para filho?
VERDADE. O vírus HIV pode ser transmitido via leite materno (transmissão vertical). Por esse motivo, no Brasil, a infecção pelo HIV na mãe é uma contraindicação absoluta para a amamentação, mesmo que a carga viral esteja indetectável.
Bebê que não engorda deve receber suplementação?
MITO. O ganho de peso insuficiente precisa de avaliação diagnóstica criteriosa antes de qualquer indicação de suplementação com fórmula infantil.
Conforme o Humap-UFMS, deve-se avaliar a técnica de amamentação (pega, posicionamento e frequência das mamadas livre demanda); verificar se o bebê tem língua presa ou se há ingurgitamento mamário na mãe; aumentar o estímulo à mama e garantir que o bebê tome o “leite do final” (rico em gordura).
Caso seja estritamente necessária a complementação temporária, a primeira escolha é o próprio leite materno ordenhado. “Se indisponível, recorre-se ao leite humano pasteurizado de Banco de Leite e, em última instância, à fórmula infantil administrada preferencialmente no copinho ou colher, evitando mamadeiras para prevenir a confusão de bicos.”
Como doar leite ao Humap?
Lactantes que querem doar podem entrar em contato com o hospital pelo telefone (67) 3345-3027 ou WhatsApp (67) 99633-2510. Além de entregar os frascos e itens de proteção, a equipe orienta a lactante sobre a forma correta de extração e conservação, para que o leite chegue aos bebês em perfeito estado.
Só não podem doar pessoas que fumam, tomam bebidas alcoólicas com frequência ou utilizam medicamentos contraindicados. Pessoas em uso de antibióticos ou até alguns remédios, como o ansiolítico sertralina, podem destinar o leite ao Banco sem problemas.
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(Revisão: Dáfini Lisboa)







