Frutas do Cerrado e do Pantanal de Mato Grosso do Sul são transformadas em pomadas e géis utilizados na recuperação de animais silvestres. Produtos naturais já foram aplicados no tratamento de uma anta, que poderia ser sacrificada, e de uma onça que fez cirurgia no Cras (Centro de Reabilitação de Animais Silvestres), em Campo Grande.
Professora da Pós-Graduação em Meio Ambiente e Desenvolvimento Regional na Uniderp, Rosemary Matias pesquisa espécies como guavira, bocaiuva, mangaba, jenipapo e pequi. Além do uso medicinal em animais, os estudos avaliam a aplicação dos frutos em produtos como cremes, sabonetes, batons, rímel, gel dental e protetor solar.
Essas pesquisas ainda estão em andamento, mas os produtos já foram utilizados em alguns casos em caráter compassivo e com autorização dos comitês de ética responsáveis.
Pesquisa salva animais silvestres
A guavira é o principal objeto de estudo do grupo, no Laboratório de Química de Produtos Naturais da Uniderp, e já foi utilizada na produção de pomadas e géis cicatrizantes. A ideia era auxiliar os afetados pelo fogo no Pantanal, mas a ideia se expandiu e os produtos chegaram a ser aplicados em animais acidentados em atendimento no Cras.
“A gente acabou utilizando em animais acidentados. Inclusive, quando teve uma anta, que ia ser sacrificada, a gente conseguiu a recuperação. Teve onça aqui, em processo cirúrgico, que a gente também utilizou”, explica a professora Rosemary. Os produtos têm efeito cicatrizante.
Conforme a pesquisadora, a parceria começou depois que tratamentos com produtos sintéticos não apresentaram a resposta esperada em alguns animais. A equipe também chegou a utilizar uma mistura à base de própolis por causa da ação fungicida.
“O veterinário de lá nos procurou e falou: ‘Olha, nós temos aqui animais que provavelmente vão ser sacrificados, que a gente não consegue recuperar. Vocês têm alguma outra opção?’. Aí nós levamos algumas opções e começamos a fazer o tratamento”, relata a cientista.

‘Chiclete pantaneiro’ inspira gel dental
Parte das pesquisas começa a partir da observação de hábitos da população. É o caso da bocaiuva, conhecida como “chiclete pantaneiro”, por ser mastigada durante longos períodos. A prática popular levou pesquisadores das áreas de Química e Odontologia a investigar as propriedades do fruto.
“Se o pantaneiro coloca bocaiuva e fica mastigando o dia todo e tem os dentes bonitos, então, significa que ela tem alguma propriedade. Foi com essa hipótese que nós começamos a trabalhar”, explica Rosemary. Os estudos utilizam a fruta para a produção de um gel dental. Polpa e casca dão origem a um creme hidratante.
Outro fruto pesquisado é o jenipapo, tradicionalmente usado por povos originários e outras comunidades na pintura corporal e em peças artesanais. No laboratório, ele já serviu de base para batom e sabonete e agora é utilizado no desenvolvimento de um rímel.
No caso do pequi, a presença de carotenoides — pigmentos naturais que dão cores vibrantes a frutas, legumes e animais — motivou o desenvolvimento de um produto que, segundo a professora, pode atuar como bronzeador e fotoprotetor. Vale lembrar que as pesquisas ainda estão em andamento.



Conhecimento pode desaparecer com gerações
Os estudos também ajudam a registrar conhecimentos que estão desaparecendo com as gerações mais antigas. Um deles envolve o látex extraído da mangaba, espécie encontrada no Pantanal da Nhecolândia.
Segundo Rosemary Matias, nordestinos que migraram para a região reconheceram as mangabeiras e passaram a utilizar o látex do fruto como uma espécie de verniz nas capas dos pantaneiros, tornando o material mais resistente à chuva e ao calor.
A história foi relatada aos pesquisadores por um morador idoso chamado Sebastião. “Na hora que ele falecer, o pessoal já não conhece mais a história. Está se perdendo com o tempo”, lamenta a professora. Agora, a equipe do Laboratório de Química de Produtos Naturais da Uniderp desenvolve cosméticos à base de mangaba.
O conhecimento popular ajuda a orientar as hipóteses, mas os produtos precisam passar por etapas de pesquisa e avaliação antes de qualquer aplicação. Dessa forma, é necessário passar por processos éticos e burocráticos antes de um resultado comercial ou do uso efetivo.


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(Revisão: Dáfini Lisboa)








