A combinação de queimadas e ondas de calor durante o El Niño de 2026-2027 pode agravar os desafios do sistema elétrico brasileiro. Em Mato Grosso do Sul, os riscos vão desde incêndios próximos às linhas de transmissão, capazes de provocar desligamentos emergenciais, até ondas de calor, que aumentam o consumo de energia e pressionam a rede elétrica.
O alerta consta no relatório técnico da Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica), que analisa os possíveis impactos do fenômeno El Niño no setor elétrico. Embora o documento não preveja apagões específicos em Mato Grosso do Sul nem identifique municípios ou linhas de transmissão sob risco, o histórico de queimadas no Estado acende o alerta para a região.
Neste ano, dados do Programa Queimadas do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), compilados até 28 de outubro de 2026, apontavam 948 focos de calor em Mato Grosso do Sul. No acumulado de 12 meses, o Estado registrava 1.680 ocorrências.
Corumbá concentrava 229 registros, seguida por Porto Murtinho, com 124, e Bela Vista, com 64. Apesar do total estadual representar uma redução de 35,3% em relação ao mesmo período de 2025, os registros estão distribuídos por diferentes regiões de MS.

Segundo o relatório, as queimadas representam uma ameaça mesmo quando não atingem diretamente torres ou cabos. O calor, os gases da combustão e a fuligem podem alterar as condições do ar ao redor dos condutores elétricos, favorecendo a formação de arcos elétricos e provocando o desligamento emergencial das linhas de transmissão.
O estudo também aponta que 90% dos focos de incêndio têm origem humana, o que reforça a importância de medidas preventivas e da fiscalização, principalmente em áreas próximas à infraestrutura elétrica.
Onda de calor também pressiona a rede
O Centro-Oeste está entre as regiões citadas no estudo como suscetíveis a períodos de estiagem severa e queimadas. As ondas de calor também representam um desafio para as distribuidoras. O aumento do uso de aparelhos de climatização eleva a demanda por energia, principalmente nos horários de pico, enquanto as temperaturas elevadas podem provocar estresse térmico nos equipamentos.
No entanto, para Mato Grosso do Sul, as projeções climáticas dos próximos meses indicam chuvas acima da média em todo o Estado entre novembro de 2026 e janeiro de 2027. A previsão do Censipam (Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia) também aponta temperaturas abaixo da média na porção sul de MS.
O boletim conjunto de órgãos federais aponta que as regiões Sul, Sudeste e parte do Centro-Oeste devem apresentar condições predominantemente menos críticas em relação ao risco de fogo no mesmo trimestre. Conforme o relatório, os níveis mais elevados de alerta estão concentrados principalmente no Norte e em áreas do interior do Nordeste.
Investimentos e modernização da rede elétrica em MS

Em Mato Grosso do Sul, mais da metade da capacidade instalada de geração de energia vem das hidrelétricas. Dados da Semadesc (Secretaria de Meio Ambiente, Desenvolvimento, Ciência, Tecnologia e Inovação de MS) mostram que, em 2024, essa fonte representava 54,5% da capacidade no Estado. A biomassa, produzida a partir de materiais como o bagaço da cana-de-açúcar, correspondia a 24,3%, enquanto a energia solar respondia por 15,3%.
Em maio, a Energisa anunciou um plano de R$ 4,4 bilhões em investimentos em Mato Grosso do Sul nos cinco anos seguintes. O anúncio ocorreu durante a renovação do contrato de concessão por mais 30 anos.
Para 2026, a previsão era aplicar R$ 928 milhões, com recursos destinados à ampliação e modernização da rede elétrica, às obras de infraestrutura e à instalação de subestações.
Aumento na conta de energia

A escassez de água também pode impactar os custos da energia. Quando o volume de água reduz a capacidade de geração das hidrelétricas, pode ser necessário acionar mais termelétricas, que produzem energia a custos mais elevados. Essa diferença pode chegar à conta dos consumidores por meio das bandeiras tarifárias.
Para reduzir os riscos de interrupções no fornecimento, o relatório da Aneel aponta medidas preventivas, como manutenção da vegetação nas faixas de servidão, construção de aceiros e monitoramento de áreas vulneráveis.
O documento também recomenda a automação das redes de distribuição, com sistemas capazes de identificar falhas, isolar trechos danificados e restabelecer o fornecimento nas partes não afetadas, reduzindo o número de consumidores atingidos — além de manter estoques descentralizados de equipamentos e materiais de emergência, para agilizar os reparos em situações críticas.
Entre as ferramentas citadas, está o Sistema Radar da Aneel, pelo qual as distribuidoras devem comunicar interrupções e estimativas de retorno em até 15 minutos. O relatório também menciona a meta de reduzir o tempo médio de restabelecimento do fornecimento para menos de nove horas até 2027.
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(Revisão: Nichole Munaro)







