Como um efeito em cascata, as denúncias reveladas pelo Jornal Midiamax sobre a Santa Casa de Campo Grande fizeram novos relatos chegarem à reportagem. Em meio aos escândalos que envolvem o maior hospital da Capital, pacientes, familiares e funcionários passaram a compartilhar histórias de quem conhece a instituição por dentro e decidiu falar sobre o que acontece nos bastidores.
Enquanto avançavam as investigações que resultaram na prisão da então presidente da instituição, Alir Terra, os novos relatos ampliaram o retrato dos problemas enfrentados pela população. As denúncias vão desde dificuldades no atendimento e problemas estruturais até condições de trabalho, cancelamento de cirurgias e redução da capacidade assistencial que ajudam a dimensionar os desafios vividos no hospital.
Pacientes ‘amarrados e sem alimentação’

Entre os relatos que chegaram à reportagem, está o de uma ex-funcionária que trabalhou durante três anos na Santa Casa como copeira e afirma ter presenciado situações que, segundo ela, expõem problemas no atendimento e na estrutura do hospital.
“Nesses três anos, vi gente morrendo sozinha no leito, vi paciente psiquiátrico amarrado e passando fome, com a comida a poucos centímetros dele.”
Além das situações envolvendo pacientes, ela relatou problemas na cozinha, como alagamentos frequentes, e afirmou que os trabalhadores eram avisados previamente quando haveria fiscalização.
“A cozinha é totalmente precária. Sempre éramos avisados quando a vigilância vinha. Cozinha alagada o tempo todo, não existe um espaço de descanso para os funcionários.”
Segundo ela, a falta de pessoal também sobrecarregava as equipes. “O quadro de funcionários sempre era desfalcado, tanto na copa como na cozinha. Uma copeira fazendo o trabalho de duas, três pessoas.”
Perseguição e adoecimento
Se, de um lado, pacientes e familiares relatam problemas no atendimento, do outro, trabalhadores descrevem uma rotina marcada por cobranças e conflitos que, segundo eles, também deixaram marcas dentro do hospital.
Funcionária da Santa Casa há oito anos, Claudia* afirma que situações vividas no ambiente de trabalho contribuíram para o agravamento de sua saúde.
A funcionária está afastada pelo INSS (Instituto Nacional do Seguro Social) e move uma ação de rescisão indireta contra a instituição. Segundo ela, uma perícia judicial foi marcada para avaliar seu caso.
Cláudia* relata ter sofrido perseguições, humilhações e ameaças no ambiente de trabalho. Afirma ainda que o INSS reconheceu seu afastamento como acidente de trabalho, por meio do benefício B91.
“Você não pode reclamar, você não pode falar nada, você não pode questionar. Isso é advertência verbal, advertência escrita, suspensão, ameaça. Mas a gente precisa trabalhar. Vai aguentando, vai aguentando, mas uma hora você adoece.”
Vai e vem das cirurgias eletivas

Do lado dos pacientes, o impacto aparece principalmente nas cirurgias eletivas, que deveriam seguir uma programação, mas acabam adiadas ou canceladas. Há relatos de pessoas que passaram horas em jejum, chegaram ao centro cirúrgico ou tiveram o procedimento marcado mais de uma vez, mas terminaram sem cirurgia e sem uma nova previsão.
Em agosto, a família de uma criança de 7 anos procurou o Midiamax para relatar a situação da menina, internada na Santa Casa após sofrer uma fratura no braço. Segundo os familiares, a criança permaneceu em jejum por mais de oito horas, à espera da cirurgia. Depois, foram informados de que o procedimento havia sido desmarcado pelo médico.
A família também questionou a demora e afirmou ter visto outras crianças com fraturas que chegaram depois e já foram encaminhadas para cirurgia.
Na ocasião, o Midiamax questionou a Santa Casa sobre o motivo do adiamento. Em resposta, o hospital afirmou que não estava em greve, mas confirmou a suspensão das cirurgias eletivas desde 29 de julho, em razão da falta de insumos e profissionais.
O caso era apenas mais um entre os relatos que se seguiram…
Em setembro, Felipe* passou por situação semelhante. O paciente aguardava por uma cirurgia no ombro direito e chegou a ter o procedimento marcado três vezes, mas acabou sendo cancelado em todas as ocasiões.
“Me chamaram três vezes e foi cancelado. Estou há dias aguardando uma cirurgia no ombro e não tenho informação nenhuma.”
Na mesma semana, uma paciente chegou a ser encaminhada ao centro cirúrgico por volta das 5h30 para realizar uma abdominoplastia, mas não passou pelo procedimento. Segundo ela, funcionários haviam informado que as cirurgias tinham sido retomadas. Menos de uma semana depois, porém, os anestesistas paralisaram as atividades por falta de pagamentos, e a cirurgia não foi realizada.
“Há anos espero uma cirurgia pelo SUS e marcaram na Santa Casa. Ontem internei e hoje, às 5h30, estava no centro cirúrgico. Saí agora, às 10h da manhã, sem realizar a cirurgia, e me falaram que estão em greve”, disse.
Falta de insumos restringe atendimentos

Na ocasião, o presidente do Sinmed-MS (Sindicato dos Médicos de Mato Grosso do Sul), Marcelo Santana, afirmou que, diante da escassez de materiais, os profissionais precisaram restringir os atendimentos aos casos de urgência e emergência.
“Não é nem uma questão de pagamento, mas sim de insumos. A situação é caótica, segundo os colegas. Inclusive, já estamos organizando uma assembleia para debater essa questão.”
A Santa Casa, por sua vez, argumentou que o cenário econômico-financeiro enfrentado pelo hospital levou à necessidade de adequar temporariamente a capacidade assistencial, priorizando atendimentos de urgência e emergência, especialmente os casos com risco à vida ou necessidade de intervenção imediata.
A instituição afirmou ainda que mantinha o atendimento aos pacientes já internados, dentro de sua capacidade técnica e operacional, e buscava soluções junto às instâncias competentes para superar as dificuldades e retomar integralmente os serviços.
Quatro internações sem um diagnóstico

As dúvidas sobre o atendimento também permanecem para famílias que perderam parentes na Santa Casa. É o caso de Laura*, que acompanhou quatro internações do pai no hospital antes da morte dele e afirma que, a cada passagem pela unidade, recebia uma explicação diferente para o quadro clínico.
Na segunda internação, surgiu a suspeita de um tumor cerebral, e um neurocirurgião teria apontado como possibilidades uma biópsia ou uma ressonância encefálica.
Cerca de dez dias depois, o pai recebeu alta sem que o diagnóstico tivesse sido concluído e sem, de acordo com a família, receber medicamentos necessários para tratar outras condições, como convulsões e infecção urinária.
Em 28 de junho, ele voltou a ser internado pela terceira vez, apresentando novas queixas e complicações. A família chegou a acionar a Ouvidoria da Santa Casa para questionar a ausência de um diagnóstico definido.
Poucos dias depois, o paciente recebeu alta novamente. Na quarta internação, foi encaminhado diretamente para a área vermelha assim que chegou ao hospital. A filha afirma que havia divergências entre as informações registradas no prontuário e as repassadas pela médica responsável pelo atendimento.
Mesmo em estado considerado grave pelos familiares, o pai de Laura foi encaminhado para um quarto. Ele morreu no dia seguinte, sem que a família soubesse ao certo o que havia ocorrido.
Ainda conforme os familiares, quase todos os médicos que acompanharam o paciente seriam residentes. Diante disso, eles questionam se havia supervisão de profissionais experientes durante os atendimentos realizados no hospital.
‘Ala Vermelha’ reúne histórias de quem vive a realidade do hospital
As novas histórias chegaram à reportagem após a repercussão da série “Ala Vermelha, no limite da emergência”, produzida pelo Jornal Midiamax.
Com três episódios e cinco matérias, a produção mergulhou na realidade da Santa Casa a partir de histórias de pacientes, familiares e profissionais, mostrando os impactos da rotina de um dos principais hospitais de Mato Grosso do Sul.
A repercussão abriu espaço para que novas pessoas que conhecem o hospital por dentro procurassem o Midiamax para compartilhar experiências e levantar questionamentos sobre o atendimento, as condições de trabalho e a estrutura da instituição.
Operação Antidotum

Em paralelo, no dia 11 de setembro, o MPMS (Ministério Público do Estado de Mato Grosso do Sul) deflagrou a Operação Antidotum para investigar um suposto esquema de fraude em contratos da Santa Casa de Misericórdia de Campo Grande.
Coordenada pelo Gecoc (Grupo Especial de Combate à Corrupção) e pelo Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado), a operação cumpriu seis mandados de prisão preventiva e 36 mandados de busca e apreensão em Campo Grande, Dourados e Goiânia (GO).
Os alvos foram:
- Alir Terra Lima, presidente da Santa Casa de Misericórdia de Campo Grande;
- Paulo Guilherme Guttierrez Mariosa, diretor-adjunto de finanças do hospital;
- Rinaldo Hakme Romano, ex-diretor financeiro do hospital;
- Alessandro Dias Junqueira, ex-diretor administrativo do hospital;
- Monique Gregório de Oliveira, coordenadora do Serviço de Arquivamento Médico e Estatística do hospital;
- Maurício Aparecido Benites, empresário.
Segundo as investigações, um dos contratos sob suspeita foi firmado pela ABCG (Associação Beneficente Santa Casa de Campo Grande), mantenedora da unidade, para a prestação de serviços de digitalização de prontuários. O acordo previa pagamento de R$ 1,8 milhão por ano, durante três anos, totalizando R$ 5,4 milhões.
Ainda segundo o MPMS, somente no primeiro ano de vigência do contrato, o desvio de recursos teria chegado a R$ 1,4 milhão.
O Gecoc também apontou irregularidades em contratos celebrados pela operadora de plano de saúde Santa Casa Saúde com diversas empresas do mesmo grupo. Conforme a investigação, as empresas, cujo proprietário tinha ligações com a diretoria da Santa Casa, estavam registradas no mesmo endereço, mas o imóvel estaria desocupado.
Somente em 2025, a Santa Casa Saúde pagou R$ 9,6 milhões para essas empresas, gerando um prejuízo de, no mínimo, R$ 3,5 milhões, segundo o apurado até o momento.
Além disso, contratos, pagamentos e prestações de contas teriam sido sonegados dos órgãos de controle, incluindo o Conselho Fiscal da Santa Casa e a CGE-MS (Controladoria-Geral do Estado de Mato Grosso do Sul). O total do prejuízo causado à instituição ainda está sob investigação.
*Nomes fictícios usados para sigilo das fontes, previsto pelo artigo 5º, inciso XIV, da Constituição Federal de 1988.
Confira a série de reportagens
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(Revisão: Nichole Munaro)







