Paixão nacional, o futebol é identidade e sentimento de pertencimento para milhões de brasileiros. Mas, nos últimos anos, essa relação passou a dividir espaço com as bets, que transformaram a aposta on-line em parte da experiência de acompanhar uma partida. Para muitos torcedores, apostar no próprio time ou no resultado de um jogo se tornou mais uma forma de participar da emoção do futebol.
Em 2025, as bets pagaram R$ 1,143 bilhão em patrocínios aos 20 clubes de maior receita do país, segundo levantamento da Sports Value. O valor representou cerca de 36% das receitas de marketing desses times. No São Paulo, por exemplo, as empresas de apostas responderam por 73% da receita com patrocínios.
Acontece que essa forte presença das bets no futebol pode estar com os dias contados. Na sexta-feira (25), o Governo Federal decidiu encerrar o mercado de apostas de quota fixa por meio da Medida Provisória nº 1.394, que determinou o fim da exploração, oferta, intermediação e publicidade desse tipo de aposta. A categoria inclui tanto as apostas esportivas quanto os jogos on-line.
A partir daí, surge uma questão: por que a paixão pelo futebol pode se tornar uma porta de entrada para as apostas? E como alguém que chega a uma plataforma para apostar em uma partida pode acabar exposto a outros jogos, como os cassinos on-line?
Da torcida à aposta
Para o psicólogo Robson Verão, a resposta passa justamente pelo vínculo emocional que o torcedor estabelece com o futebol. A identificação com o time e a paixão pelo esporte podem fazer com que a aposta seja percebida como uma maneira de participar ainda mais daquele momento.
“O futebol não é apenas um esporte. Para muitas pessoas, existe ali uma identificação e uma paixão. A aposta pode entrar justamente nesse lugar emocional, fazendo com que o torcedor sinta que está participando ainda mais daquele acontecimento quando aposta no time”, explica.
O problema, segundo ele, aparece quando a aposta deixa de ser algo circunstancial e passa a ocupar um espaço importante na relação do torcedor com o futebol. Em vez de acompanhar a partida apenas para torcer, a pessoa começa a pensar no quanto pode ganhar, recuperar ou apostar novamente.
“A própria paixão pelo time pode acabar sendo utilizada como porta de entrada para o comportamento de aposta”, afirma.
A entrada pelo futebol, porém, pode não ser o fim do caminho. Dentro das plataformas, o usuário encontra novas possibilidades de jogos e estímulos constantes, o que pode favorecer a repetição das apostas.
“Existe uma diferença importante entre uma pessoa fazer uma aposta ocasional e estar permanentemente exposta a possibilidades de apostar. Do ponto de vista psicológico, essa disponibilidade permanente pode fazer com que o sujeito entre em um circuito no qual já não está necessariamente buscando diversão”, explica.
Segundo o psicólogo, essa disponibilidade cria uma lógica de repetição: a pessoa aposta, espera, ganha ou perde e imediatamente encontra uma nova possibilidade para jogar. Com isso, o objetivo pode deixar de ser o entretenimento e passar a ser a busca pela próxima aposta.
“Quando a pessoa deixa de apostar para ganhar e começa a apostar para recuperar o que perdeu, ela já foi ‘fisgada’ pelas plataformas”, afirma.
Perda alimenta a próxima aposta

É justamente a tentativa de recuperar o dinheiro perdido que pode aprofundar o problema. Robson explica que a perda deixa de ser encarada apenas como um prejuízo e passa a gerar uma necessidade de reparação imediata.
“A pessoa aposta novamente, perde mais, tenta recuperar e assim sucessivamente. É um circuito em que a própria perda passa a alimentar a próxima aposta”, explica.
Com a sequência de perdas, o prejuízo financeiro e o sofrimento psicológico podem aumentar.
O especialista chama a atenção ainda para situações de crise que podem surgir quando o apostador já não possui recursos para continuar tentando recuperar o dinheiro.
Sinais de alerta
Não existe, segundo o psicólogo, um momento único que determine quando a relação com a aposta se tornou problemática. O mais importante é observar as mudanças no comportamento e o espaço que o jogo passa a ocupar na vida da pessoa.
Entre os sinais de alerta, estão pensar frequentemente em apostar, aumentar os valores, tentar recuperar perdas com novas apostas, esconder da família quanto está apostando ou perdendo, pedir dinheiro emprestado, comprometer despesas importantes e sentir irritação ou ansiedade quando não consegue apostar.
Foi o que aconteceu com Gabriel, que chegou a comprometer o dinheiro do aluguel e a apostar novamente na tentativa de recuperar o que havia perdido. Ele contou que chegou a ganhar R$ 4 mil, mas perdeu o valor e continuou colocando dinheiro nas apostas.
“Eu morava em São Paulo na época e peguei o dinheiro do aluguel achando que ia virar grana, mas deu uma bola de neve. Lembro que estava em R$ 4 mil, perdi tudo e já tinha que pôr mais dinheiro. Aí eu desisti. Graças a Deus, consegui sair disso”, relata.
Outro indicativo é quando a pessoa começa a organizar a própria vida em função das apostas. “A pergunta deixa de ser ‘quanto eu me divirto com isso?’ e passa a ser ‘quanto espaço isso está ocupando na minha vida?’”, resume o psicólogo.
Segundo o especialista, em alguns casos, o comportamento pode avançar a ponto de a pessoa acreditar que está tomando a decisão certa, mesmo diante dos prejuízos. Ele explica que, nesses casos, o problema pode ser dividido em três estágios, com diferentes necessidades de acompanhamento:
- Leve: nesse estágio inicial, a psicoterapia pode ser uma opção de tratamento, ajudando a pessoa a encontrar outras formas de lidar com frustrações.
- Moderado: no estágio intermediário, pode ser necessário o acompanhamento de um médico psiquiatra e, conforme avaliação profissional, o uso de medicação para estabilização do humor e tratamento de sintomas de ansiedade e depressão.
- Grave: no estágio mais avançado, segundo o especialista, pode haver necessidade de internação para interromper comportamentos de risco que estejam afetando a própria vida ou a de outras pessoas.
A preocupação com o impacto das apostas sobre as famílias aparece também nos números. Dados do Governo Federal apontam que, em 12 meses, mais de 28 milhões de brasileiros haviam apostado on-line. Desse total, 10,9 milhões apresentavam padrão de jogo considerado de risco ou problemático.
Os atendimentos relacionados a problemas com apostas cresceram cerca de 140% entre 2018 e 2025. A exposição também alcança adolescentes. Segundo o Ministério da Saúde, 20,4% dos estudantes de escolas públicas e privadas já haviam apostado on-line, com relatos de contato com as plataformas a partir dos 11 anos.
Afinal, o que está sendo proibido?

A decisão, contudo, ainda gera dúvidas sobre o que, de fato, está sendo proibido. As chamadas bets são plataformas que oferecem apostas de quota fixa, modalidade que passou a abranger, com a regulamentação do setor, tanto as apostas esportivas quanto determinados jogos on-line.
Para operar legalmente no país, as empresas precisavam de autorização da Secretaria de Prêmios e Apostas, enquanto os jogos on-line também deveriam passar por certificação.
A Medida Provisória nº 1.394, editada na sexta-feira (25), proíbe a exploração, a oferta, a intermediação e a publicidade das loterias de apostas de quota fixa. O texto especifica que a medida alcança tanto as apostas sobre eventos esportivos reais quanto os eventos virtuais de jogos on-line. As demais modalidades lotéricas autorizadas por lei não são atingidas.
É nesse ponto que surge a confusão em torno de jogos como o chamado “tigrinho”. Tigrinho é um jogo de azar; “bet” é o termo popular usado para as plataformas de apostas. Os dois não são sinônimos. O jogo de azar tem resultado predominantemente determinado pela sorte e segue regras diferentes das apostas de quota fixa.
Com a regulamentação das apostas de quota fixa, determinados jogos on-line passaram a poder ser oferecidos legalmente pelas plataformas, desde que cumprissem as exigências estabelecidas pelo governo e fossem certificados. Isso não significa, porém, que qualquer jogo de azar disponível na internet tenha sido legalizado.
A nova MP encerra o mercado de apostas de quota fixa e, por isso, atinge tanto as apostas esportivas quanto os jogos on-line que faziam parte dessa modalidade. Já os jogos de azar que não se enquadram nas apostas de quota fixa seguem outra regulamentação. A exploração dessas atividades é tratada pela Lei de Contravenções Penais.
Proibir as bets resolve?
Com a retirada das plataformas, o acesso às apostas também será interrompido. Mas, para quem já desenvolveu uma relação de dependência, bloquear o acesso pode não ser suficiente para romper o comportamento. Segundo o psicólogo, é preciso compreender o que sustentava aquela relação com as apostas.
“Se existe uma relação de dependência, simplesmente fechar a conta ou bloquear a plataforma pode interromper o acesso, mas não necessariamente interrompe o circuito psíquico que estava sustentando aquele comportamento”, explica Robson Verão.
Para ele, nesses casos, é necessário compreender o papel que a aposta passou a ocupar na vida da pessoa e buscar acompanhamento quando houver sofrimento, prejuízo financeiro, conflitos familiares ou perda de controle.
“Não se trata apenas de retirar a aposta, mas de compreender o lugar que ela ocupou na vida daquela pessoa”, afirma.
Onde buscar ajuda?
O primeiro passo para buscar ajuda psicológica é procurar uma UBS (Unidade Básica de Saúde) e agendar uma consulta com a Rede de Saúde Mental. Após essa avaliação inicial, o paciente é direcionado para o tratamento adequado, a depender da gravidade do caso. Podendo receber encaminhamento ao Caps (Centros de Atenção Psicossocial) ou CEM (Centro de Especialidades Médicas).
Além do Caps e das UBSs, o cidadão que precisa de ajuda psicológica em Campo Grande conta com alguns programas de apoio, que possuem diferentes tipos de atendimento. Confira abaixo alguns:
GAV (Grupo Amor Vida): presta serviço gratuito de apoio emocional a pessoas em crise através do telefone: 0800 750 5554 (ligação gratuita) ou pelo e-mail precisodeajuda@grupoamorvida.ong.
Coordenadoria de Atendimento Psicossocial da Polícia Civil (exclusivo para agentes e familiares): conta com equipe multidisciplinar de psicologia, serviço social e capelania. Fazem plantão psicológico e encaminhamentos junto aos planos de saúde. Mais informações pelo telefone (67) 99627-6178.
CVV (Centro de Valorização da Vida): oferece apoio emocional e prevenção do suicídio de forma gratuita, todos os dias, pelo telefone 188, e-mail e chat 24 horas todos os dias.
J.A.: Para participar do Jogadores Anônimos, basta comparecer ao local, situado na Rua Maracaju, n° 249, Centro de Campo Grande. As reuniões ocorrem sempre às terças e quintas-feiras, às 19h. Mais informações podem ser obtidas no site: https://jogadoresanonimos.com.br/ ou pelo telefone: (67) 98473-1321.
Leia também:
💬 Fale com os jornalistas do Midiamax
Tem alguma denúncia, flagrante, reclamação ou sugestão de pauta para o Jornal Midiamax?
🗣️ Envie direto para nossos jornalistas pelo WhatsApp (67) 99207-4330. O sigilo está garantido na lei.
✅ Clique no nome de qualquer uma das plataformas abaixo para nos encontrar nas redes sociais:
Instagram, Facebook, TikTok, YouTube, WhatsApp, Bluesky e Threads.
(Revisão: Nichole Munaro)






