O traficante Lucas da Silva dos Santos, vulgo ‘LK’, preso no dia 3 deste mês em desdobramentos da Operação Lealdade Corrompida, é apontado pelo Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado) como responsável pela articulação do esquema junto aos policiais investigados na Operação Infiltrados, que prendeu o delegado Hoffman D’Ávila Cândido e Sousa na última semana.
Um áudio teria exposto como ‘LK’ foi aliciado para fazer parte do elo central entre os policiais civis e o tráfico de drogas. Conforme as investigações do Gaeco, ‘LK’ era responsável por fornecer informações sobre carregamentos a serem interceptados, negociando percentuais dos entorpecentes desviados em favor do grupo e gerenciando a venda.
Em 2025, Alan Roberto Martinez Martin Abdalla, conhecido como ‘Scooby’, foi alvo de busca e apreensão durante a Operação Blindspot. A partir daí, com a quebra do sigilo telefônico, um áudio, datado em 21 de outubro de 2024, entregou a forma como ‘LK’ teria sido aliciado pelos policiais.
“O ‘LK’ falou que os caras ‘cantou’ ele um dia que ele tava preso lá. Diz que ele tava preso lá, os caras trocou ideia com ele lá. Aí, desde então, ele trabalha com os caras. Derruba trampo, pega mercadoria para vender, diz que os caras levam na mão dele“, dizia Alan no áudio.
Após o relato de Alan, o setor de operações do Gaeco realizou consultas nos sistemas oficiais para verificar eventuais ocorrências registradas em nome de ‘LK’. Assim, foi descoberto que, em 28 de abril de 2021, nas proximidades da UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul), ele foi preso pelos policiais Nerverson Vieira de Araújo e Adriano Luiz Graeff por desobediência e desacato.
Na ocasião, nada de ilícito havia sido encontrado com ‘LK’, o que teria chamado a atenção nas investigações. Ainda assim, ele foi conduzido até a Denar (Delegacia Especializada de Repressão ao Narcotráfico) por desobediência e desacato, após proferir palavras de baixo calão aos policiais.
Para o Gaeco, nada foi registrado como apreendido na ocasião, sugerindo que a droga que estava em posse do traficante naquela oportunidade já teria entrado no acerto que ‘LK’ fez com os policiais civis, uma vez que, para os investigadores, não convence a versão constante do registro de que foi encaminhado por “desobediência e desacato”.
Conforme o documento do Gaeco, o esquema é tão lucrativo que Alan se mostrou surpreso por nunca ter recebido uma proposta igual.
“Agora eu, mané! Cê é louco, eu fui preso pelo Garras em 2017 por causa de uma maconha véia, os cara me prendeu. Ainda bem que não era minha, era de um parceiro meu e ele, assim, assumiu vinte e pouco quilo. Já fui pego várias vezes pela Denar, nunca me pagaram com nada, mas tinha até investigação em meu nome e o c* a quatro. Mas te juro para você, mano, nunca na minha vida, mano! Nada, nunca esses caras, nunca chegou em mim e falou: ‘Chega aí, vamo trabalhar’“.
A partir disso, Lucas é apontado como responsável por repassar aos policiais civis informações acerca de carregamentos de drogas. Parte da droga apreendida — em alguns casos, até sua totalidade — era desviada pelos policiais civis, que entregavam o entorpecente para ele revender e repassar a parte do dinheiro que lhes cabia no negócio.
Já os policiais civis são apontados por interceptarem carregamentos de entorpecentes, desviarem as drogas apreendidas, muitas das quais já estavam custodiadas na Delegacia de Polícia, e as repassarem para Lucas, que as recolocava no mercado ilícito de entorpecentes. Ou seja, ‘LK’ seria o responsável por vender as drogas apreendidas e desviadas em abordagem da Polícia Civil.
Esquema entre delegado e traficantes
O delegado Hoffman D’Ávila Cândido e Sousa, conhecido como ‘Careca’ entre os membros do esquema, é apontado como comandante do esquema de desvio de entorpecentes, especialmente de cocaína.
Diálogos ocorridos em 2022 entre traficantes, que eram responsáveis por revender os entorpecentes adquiridos por meio dos policiais — em sua maioria civis —, revelam que existia um esquema organizado e uma dinâmica de fornecimento imposta pelos agentes. Conforme as informações, para a liberação de novas cargas de drogas, exigia-se o pagamento integral de remessas anteriores.
Em um dos diálogos, ocorrido em dezembro de 2022, o traficante Lucas da Silva dos Santos, o ‘LK’, admitiu a Edimilson da Silva Santos que não conseguiu retirar uma nova carga de entorpecentes da Denar (Delegacia Especializada de Repressão ao Narcotráfico). ‘LK’ apontou ainda que os policiais tinham drogas à pronta entrega; entretanto, não entregariam para eles antes do pagamento das remessas anteriores.
“E aí, mané, deixa eu falar para você. Oh, viad*, cê não vai mandar o bagulho aí, não? O cara tá me cobrando aqui, mané, tá ligado? Ele quer trazer mais aqui, mas tem que acertar o bagulho, aí eu fico dependendo de você, tá ligado?“, teria dito Lucas.
Em outro momento, Lucas voltou a cobrar Edimilson, ressaltando mais uma vez que, se não fosse pago até o dia seguinte, não conseguiria pegar mais drogas naquele ano. “Amanhã é o último dia para tirar lá. Se não pagar, não conseguimos mais, aí só no ano que vem. Preciso pegar ’30 de branca‘“, afirmou.
Conforme o Gaeco, existia preocupação com a iminente indisponibilidade dos ilícitos. No entanto, os policiais civis mantinham estoque para entrega imediata, e a disponibilidade decorria do próprio acervo de drogas apreendidas, mantido em estoque contínuo e sob custódia estatal.
Operação Infiltrados
A Operação Infiltrados, do Gaeco, investiga um esquema de desvio de drogas apreendidas por agentes de segurança, principalmente cocaína. Segundo o MPMS, parte dos entorpecentes seria omitida dos registros ou retirada de depósitos policiais e depois repassada a traficantes para retornar ao mercado ilegal. A investigação começou em outubro de 2025.
A operação cumpriu 24 mandados de prisão preventiva, dois mandados de prisão temporária e 38 de busca e apreensão nas cidades de Campo Grande, Dourados e Terenos.
As investigações foram iniciadas em outubro de 2025, a partir de provas descobertas nas operações Traquetos e Blindspot, que revelaram, segundo o MPMS, a participação de vários policiais em um esquema de desvio de drogas, especialmente cocaína.
Segundo o MPMS, o modus operandi adotado pela organização criminosa consistia no desvio de drogas apreendidas em ocorrências policiais, seja por meio da omissão — nos registros formais — de parte da droga efetivamente arrecadada, seja pela subtração de entorpecentes diretamente do depósito da delegacia.
A droga desviada seria repassada para traficantes ligados à organização criminosa, que seriam responsáveis por reintroduzir a droga no mercado ilícito.
Segundo a investigação, os policiais suspeitos de integrar a organização criminosa se valiam de suas funções públicas exercidas no combate à criminalidade para atuar como fornecedores para o tráfico.

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(Revisão: Nichole Munaro)






