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Economia

‘Perdi até o dinheiro do aluguel’: após perdas, campo-grandenses apoiam proibição das apostas on-line

Moradores da Capital relatam perdas financeiras, vício e impactos nas famílias ao apoiarem a proibição das apostas on-line
Lethycia Anjos, Keyla Santos -
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Bet – imagem ilustrativa. (Léo de França, Midiamax)

O dinheiro que deveria pagar o aluguel virou aposta. Depois de ganhar cerca de R$ 4 mil, Gabriel Santos, de 32 anos, perdeu tudo e precisou de mais dinheiro para tentar recuperar o prejuízo. A experiência fez com que ele passasse a defender a proibição das apostas on-line, decisão que também encontra apoio entre outros moradores de Campo Grande que opinaram sobre o fim das apostas de quota fixa, as chamadas bets.

A decisão do Governo Federal foi tomada por meio de Medida Provisória editada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na sexta-feira (25). A medida acaba com a exploração, oferta, intermediação e publicidade de apostas de quota fixa no país, incluindo apostas esportivas e jogos on-line, tanto em ambientes físicos quanto virtuais. As demais modalidades lotéricas autorizadas em lei não são atingidas.

‘Virou uma bola de neve’

Gabriel Santos. (Léo de França, Midiamax)

Por curiosidade, Gabriel entrou no mundo das apostas on-line e, diante dos ganhos rápidos, continuou apostando. Quando percebeu, já havia usado o dinheiro destinado ao aluguel na tentativa de multiplicar a quantia.

Ele conta que chegou a ganhar R$ 4 mil, mas acabou perdendo o valor e passou a apostar mais dinheiro, em busca de recuperar o prejuízo.

“Eu morava em São Paulo na época e peguei o dinheiro do aluguel achando que ia virar grana, mas deu uma bola de neve. Lembro que estava em R$ 4 mil; perdi tudo e já tinha que pôr mais dinheiro. Aí eu desisti. Graças a Deus, consegui sair disso”, contou.

Segundo Gabriel, deixar as apostas não foi simples. Ele também afirma que a vergonha de admitir as perdas pode levar pessoas a recorrer a empréstimos e até a agiotas para continuar jogando.

“Tem muita gente que é viciada mesmo e não consegue sair disso. Às vezes tem vergonha de contar, é o que mais acontece. Tem muita gente pegando dinheiro com agiota ou fazendo empréstimos só para jogar, achando que vai dobrar a grana. Mas é uma ilusão”, afirmou.

‘Nunca devia nem ter começado’

Andressa Barbosa. (Léo de França, Midiamax )

Assim como Gabriel, Andressa Barbosa Roulon, de 18 anos, é favorável à proibição e acredita que as apostas sequer deveriam ter começado a ser oferecidas. Para ela, os prejuízos provocados pelo jogo podem atingir não apenas quem aposta, mas também as famílias.

“Eu acho que é uma coisa que realmente nunca deveria ter começado. E sobre isso de destruir muitas famílias, eu já tinha visto também. Então, eu acho que a proibição foi uma ótima aposta”, afirmou.

Ela também resumiu a própria experiência com os jogos ao explicar como os ganhos podem ser passageiros. “Eu apostava. Tinha vez que ganhava, né? Mas o Tigrinho é aquela coisa: ganha com uma mão, tira com a outra. É difícil.”

‘Cada um tem que saber o limite’

Apesar dos relatos de perdas e dos impactos associados ao vício, Joel, de 35 anos, tem uma percepção diferente. Ele afirma não ser contra as apostas e defende que cada pessoa deve conhecer os próprios limites. Apesar de não ser contrário à prática, disse que não joga.

“Eu fiquei sabendo e, tipo assim, não sou contra [as bets]. Cada um tem que saber até onde vai o limite, né? Se a pessoa sabe que é um jogo de azar, não joga. Eu, particularmente, não jogo”, disse.

Apostas atingem milhões de brasileiros

A preocupação com o impacto das apostas sobre as famílias aparece também nos números. Dados do Governo Federal apontam que, em 12 meses, mais de 28 milhões de brasileiros haviam apostado on-line. Desse total, 10,9 milhões apresentavam padrão de jogo considerado de risco ou problemático.

Os atendimentos relacionados a problemas com apostas cresceram cerca de 140% entre 2018 e 2025. A exposição também alcança adolescentes. Segundo o Ministério da Saúde, 20,4% dos estudantes de escolas públicas e privadas já haviam apostado on-line, com relatos de contato com as plataformas a partir dos 11 anos.

‘Famílias destruídas’

Tatiane Marques. (Léo de França, Midiamax)

É justamente para esse impacto dentro de casa que Tatiane Marques, de 43 anos, chama a atenção. Para ela, muitas pessoas recorrem às apostas na expectativa de conseguir dinheiro e acabam entrando em um ciclo de perdas que afeta toda a família.

“Muitas famílias estão sendo destruídas pelo vício das apostas. Pelo desespero, as pessoas apostam porque querem dinheiro. O vício está levando ao suicídio, à destruição”, afirmou.

Para Tatiane, embora a proibição seja uma medida drástica, ela pode ajudar a interromper esse ciclo.

“É uma forma muito drástica, porém foi um meio encontrado para que a gente pare essa destruição que se formou no meio das pessoas, pela falta de domínio próprio em relação aos jogos e às apostas”, disse.

Afinal, o que está sendo proibido?

A mudança, contudo, ainda tem gerado dúvidas sobre o que, de fato, está sendo proibido. As chamadas bets são apostas de quota fixa, modalidade que, desde a regulamentação do setor, passou a abranger tanto as apostas esportivas quanto os jogos on-line. Para funcionar legalmente no país, as empresas precisavam de autorização da Secretaria de Prêmios e Apostas, e os jogos on-line também deveriam passar por certificação.

A Medida Provisória nº 1.394, editada na sexta-feira (25), agora proíbe a exploração, a oferta, a intermediação e a publicidade das loterias de apostas de quota fixa. O texto especifica que a proibição alcança tanto apostas sobre eventos esportivos reais quanto eventos virtuais de jogos on-line. As demais modalidades lotéricas autorizadas por lei não são atingidas.

É nesse ponto que surge a confusão em torno de jogos como o chamado Tigrinho. Antes da MP, jogos on-line poderiam integrar o mercado regulado de apostas de quota fixa, mas não eram automaticamente legais. O Ministério da Fazenda estabelecia que os jogos deveriam ser submetidos à certificação e que aqueles que não passassem pelo procedimento não poderiam ser considerados legais.

Ou seja, “Tigrinho” e “bet” não são sinônimos. “Bet” é o termo popular usado para as plataformas de apostas, enquanto a legislação trata das apostas de quota fixa, categoria que inclui tanto as apostas esportivas quanto os jogos on-line. É essa modalidade que passa a ser proibida pela nova MP.

Já os jogos de azar que não se enquadram nas apostas de quota fixa seguem uma regra diferente. A exploração dessas atividades é tratada pela Lei de Contravenções Penais.

Prazo para retirar dinheiro

Bet – imagem ilustrativa. (Foto: Léo de França, Midiamax)

A MP estabelece ainda que os apostadores têm até 5 de outubro para retirar voluntariamente os valores mantidos nas plataformas. A partir de 6 de outubro, os sites e aplicativos de apostas deverão sair do ar.

Entre 7 e 8 de outubro, as empresas deverão informar às instituições financeiras os saldos remanescentes, discriminados por CPF. De 9 a 14 de outubro, os bancos deverão devolver os valores aos apostadores. Caso haja algum obstáculo, a partir de 14 de outubro, a Caixa Econômica Federal deverá receber os recursos e providenciar a devolução.

Já a fiscalização das plataformas ilegais ficará a cargo do Ministério da Fazenda e do Ministério da Justiça, com medidas para bloquear sites, aplicativos e meios de pagamento utilizados pelos operadores. As empresas que descumprirem as determinações poderão sofrer sanções, incluindo multas de até R$ 2 bilhões.

Onde buscar ajuda?

GAV (Grupo Amor Vida): presta serviço gratuito de apoio emocional a pessoas em crise através do telefone: 0800 750 5554 (ligação gratuita) ou pelo e-mail precisodeajuda@grupoamorvida.ong.

Coordenadoria de Atendimento Psicossocial da Polícia Civil (exclusivo para agentes e familiares): conta com equipe multidisciplinar de psicologia, serviço social e capelania. Fazem plantão psicológico e encaminhamentos junto aos planos de saúde. Mais informações pelo telefone (67) 99627-6178.

CVV (Centro de Valorização da Vida): oferece apoio emocional e prevenção do suicídio de forma gratuita, todos os dias, pelo telefone 188, e-mail e chat 24 horas todos os dias.

J.A.: Para participar do Jogadores Anônimos, basta comparecer ao local, situado na Rua Maracaju, n° 249, Centro de Campo Grande. As reuniões ocorrem sempre às terças e quintas-feiras, às 19h. Mais informações podem ser obtidas no site: https://jogadoresanonimos.com.br/ ou pelo telefone: (67) 98473-1321.

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(Revisão: Nichole Munaro)

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