O processo de puberdade, desenvolvimento corporal natural entre os seres humanos, tem se tornado precoce e frequente. Em Mato Grosso do Sul, 789 pacientes tratam a condição; desse total, 303 estão em Campo Grande. O avanço tem sido motivo de atenção médica, uma vez que a puberdade precoce pode prejudicar o crescimento final da criança, causar impactos emocionais e estar ligada a riscos aumentados de doenças crônicas na vida adulta.
De acordo com a SBP (Sociedade Brasileira de Pediatria), a puberdade precoce é um problema que pode atingir crianças muito pequenas, principalmente meninas com idade menor que 8 anos e meninos com idade menor que 9 anos, necessitando de um acompanhamento especializado e informação para a família. O que chama a atenção da CBP é o fato de haver indícios de que o número de casos de crianças entrando na puberdade antes da idade adequada é cada vez maior.
Além da SBP, médicos pediatras têm dado maior atenção a casos cada vez mais frequentes. A médica pediatra Dra. Natacha Dalcolmo tem observado um aumento significativo na procura por avaliação de sinais de puberdade precoce, principalmente entre as meninas.
Para ela, parte desse aumento se deve à maior conscientização dos pais e dos pediatras, mas também temos observado uma tendência mundial de antecipação do desenvolvimento puberal feminino, que vem sendo descrita em diversos estudos científicos. Ela explica que os pais devem estar sempre atentos aos sinais que surgem antes da idade considerada normal para o início da puberdade e que os sintomas são diferentes entre meninos e meninas.
“São duas situações, a puberdade precoce ocorre aos 8 anos nas meninas. O cheiro axilar é geralmente o primeiro sintoma e depois aparecimento das mamas, crescimento muito acelerado, surgimento de pelos pubianos ou axilares, acne e aumento da oleosidade da pele. Já nos meninos, por volta dos 9 anos, o cheiro axilar também aparece primeiro, aumento do volume testicular, crescimento do pênis, surgimento de pelos pubianos, acne e aceleração do crescimento”, explica.
A mãe de um menino de 9 anos, que preferiu não ser identificada nem identificar o filho, conversou com o Jornal Midiamax. Em relato, ela conta sobre como começou a perceber as mudanças no corpo do filho muito cedo e entendeu que a criança poderia estar entrando na puberdade, mesmo que a idade ainda não seja a adequada.
“Primeiro, eu senti um cheiro forte vindo dele; perguntei se ele também estava sentindo, e ele disse que as axilas estavam com cheiro fedido. O corpo dele está mais ‘adulto’, nascendo pelos nas axilas, no rosto e na virilha. Estão finos, mas nascendo. Ele sempre foi muito calmo, porém agora ele está com a resposta na ponta da língua, uma fome fora do comum, engordou um pouco mais e até perdeu as roupas”, relata.
Apesar do processo de puberdade ser natural no ser humano, ele geralmente começa no início da adolescência. Isso foi o que assustou a mãe, que acredita ser muito cedo para o filho estar passando pelo processo.
“Eu fiquei surpresa, com medo, porque acho que ele ainda é muito criança pra ter chegado na puberdade, ele não é maduro ainda”, conta.
Preocupada com o filho, ela decidiu buscar ajuda e conhecimento médico para entender o que pode ser feito em relação a esse processo precoce. “Eu decidi marcar pediatra pra ele, para ver o que o médico diz. Se puder retardar esse processo, farei isso com o acompanhamento médico, mas, agora, se disserem que está na idade correta, não farei nada e deixarei o curso da vida seguir”, finaliza.
A médica explica que, quando a puberdade precoce é confirmada e há indicação médica, existem tratamentos seguros e eficazes que podem bloquear temporariamente a progressão puberal. Além disso, existe uma discussão maior sobre o papel dos chamados disruptores endócrinos, substâncias químicas capazes de interferir no funcionamento hormonal do organismo.
“Algumas medidas que podem ajudar a reduzir a exposição incluem: reduzir o consumo de ultraprocessados; evitar aquecer alimentos em recipientes plásticos; evitar o uso de produtos cosméticos (tais como xampus, condicionadores, maquiagens e sabonetes) com ingredientes como parabenos, triclosan, bisfenóis e ftalatos.
É importante ressaltar que não é porque o produto vem escrito ‘Infantil ou Kids’ que ele é seguro. A recomendação é sempre ler a embalagem”, diz a pediatra.
Alteração hormonal
De acordo com a SBP, uma das hipóteses para a antecipação da puberdade diz respeito ao contato com os chamados desreguladores endócrinos, substâncias com capacidade para alterar o funcionamento do sistema endócrino-hormonal presentes nos agrotóxicos e nos plásticos. Um dos desreguladores suspeitos é o bisfenol A, presente em diversos plásticos e embalagens.
Na visão da pediatra, uma das influências em casos de puberdade precoce é resultado da interação entre fatores genéticos, ambientais, nutricionais e hormonais. “Sabemos que crianças com excesso de peso apresentam maior risco de iniciar a puberdade mais cedo, especialmente as meninas.
Além disso, fatores ambientais, incluindo a exposição a substâncias com potencial ação hormonal, vêm sendo estudados como possíveis influenciadores; eles são chamados de disruptores endócrinos”, explica.
Ainda, com a alteração hormonal, a criança pode enfrentar desafios emocionais e sociais importantes. Muitas vezes, de acordo com a médica, ela possui aparência física mais madura, mas continua tendo o desenvolvimento emocional compatível com sua idade cronológica. Isso pode gerar insegurança, baixa autoestima, dificuldade de interação com colegas, maior exposição ao bullying e ansiedade.
Do ponto de vista físico, a principal preocupação é a perda de potencial de crescimento, já que o amadurecimento ósseo acelerado pode levar ao fechamento precoce das cartilagens de crescimento, o que mostra a importância do diagnóstico precoce.
“Puberdade precoce não deve ser encarada como uma simples antecipação do crescimento. Trata-se de uma condição médica que pode impactar a saúde física, emocional e a estatura final da criança. Quanto mais cedo o diagnóstico, maiores as chances de um acompanhamento adequado e de melhores resultados”, finaliza a pediatra.
Tratamento na rede pública
Em Mato Grosso do Sul, o tratamento para a puberdade precoce está disponível na rede pública por meio da SES (Secretaria de Estado de Saúde), que disponibiliza a medicação por meio do Ceaf (Componente Especializado da Assistência Farmacêutica), sendo totalmente financiado pelo SUS (Sistema Único de Saúde).
Para ter acesso ao tratamento, é necessário que o paciente apresente a documentação exigida
pelo PCDT (Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas) da puberdade precoce. O pedido deve
ser protocolado na Farmácia Especializada do município de residência ou, em Campo Grande,
na Casa da Saúde.
Todos os formulários, documentos e exames necessários para a solicitação estão disponíveis
na aba “Puberdade Precoce” da página de Orientações por Patologia da Assistência
Farmacêutica da SES.
Em nota, a SES reforça que “o cumprimento dos critérios estabelecidos no PCDT é fundamental para a avaliação e autorização do tratamento, garantindo o acesso adequado e seguro aos pacientes
que necessitam de terapia.”
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(Revisão: Dáfini Lisboa)







