“Ser pai é um divisor de águas”. O que pode ser um sonho para alguns, para outros, pode ser também um grande desafio, principalmente quando as coisas não saem exatamente como o planejado. Neste Dia dos Pais, o Jornal Midiamax conta a história de dois pais solo em Campo Grande, que passaram a cuidar de seus filhos sem a presença da mãe, por diferentes motivações.
Para alguns, a mudança acontece aos poucos. Para outros, chega de forma abrupta, obrigando a reorganizar completamente a vida. José Ambrósio precisou criar a filha sozinho depois da morte da mãe dela. Sales Gader entrou na Justiça para obter a guarda do filho. Em comum, ambos descobriram que ser pai em tempo integral vai muito além do que imaginavam.
Apesar das diferenças entre as histórias, há também muitas semelhanças. A principal delas é a maneira como ser pai transformou a vida de José e de Sales, que precisaram reorganizar suas rotinas, aprender novas tarefas e, principalmente, lidar com a responsabilidade e o sentimento da paternidade.
Quando a vida muda de rumo
José Ambrósio Francisco de Souza, advogado de 45 anos, é pai de três filhos de diferentes relacionamentos: Théo, de 10 anos; Maria Júlia, de 9; e Miguel, de 7. No entanto, até cinco anos atrás, não morava com nenhum dos três. Foi apenas em 2021 que ele passou a ter a guarda integral da filha do meio, após o falecimento da mãe.
“Quando aconteceu, claro, foi o sentimento de perda muito grande, independentemente de não ter um relacionamento afetivo com a mãe dela. E, principalmente, o compartilhamento do sofrimento, já que ela tinha convivência com a mãe, morava com a mãe. Se é difícil para o pai ter essa responsabilidade, imagina para a criança de praticamente 5 anos. Então, assim, foi um início um pouco turbulento, não tem como negar isso”, recordou-se José.
Por outro lado, Sales Gader, 35, analista de licitação, é pai apenas de um filho, Samuel, que está prestes a completar 10 anos. Sales foi casado por oito anos com a mãe de seu filho, até se separarem por motivos pessoais, há cerca de cinco anos. “Houve a ruptura do casamento; ele ficou um tempo com ela, uns dois anos, e, por conta de uma situação que ocorreu, eu tive que entrar na Justiça para conseguir a guarda unilateral. Sempre briguei pela guarda unilateral dele, não queria guarda compartilhada”, explica Sales.
Na Justiça, a guarda só foi concedida ao pai há cerca de dois meses, apesar de Samuel já morar com ele desde os seis para os sete anos de idade. Apesar de hoje ser casado com a madrasta de Samuel, por cerca de dois anos Sales foi pai solo.
Pai ‘de verdade’

Os pais passaram a enxergar — e, principalmente, sentir — a responsabilidade de ser pai de uma outra maneira com a qual estavam acostumados. José teve pela primeira vez a experiência de ser “pai de verdade”.
“Eu tinha dois filhos, mas não tinha essa relação ainda de saber o que é ser pai de verdade. A gente brinca que ‘pai de Instagram’ e ‘pai de fim de semana’ são outras coisas. É você pegar o filho, fazer alguma coisa, mas não ter a responsabilidade da criação, do exemplo, das responsabilidades financeiras, afetivas”, conta.
Além de ter que se habituar a obrigações como escolher a escola e realizar a matrícula da filha, levá-la a consultas médicas e acompanhar o desempenho escolar, José viu Maria Júlia crescer sob suas influências e ensinamentos.
“É uma criança de cinco anos que agora vai ter o meu DNA nesse desenvolvimento. Desde a questão de horário, daquilo que você acredita como certo ou errado, como lidar com pessoas. Então, foi um baque”. Foi a primeira vez que José percebeu que seria a principal referência da filha. Cada decisão, conselho ou comportamento passaria a influenciar diretamente a formação da menina.
Dificuldade emocional

Já Sales tinha participação maior na criação de Samuel desde o nascimento do filho, quando ainda mantinha o relacionamento com a mãe. Porém, o pai encontrou o maior desafio no aspecto emocional de enfrentar a responsabilidade da paternidade solo.
“Acho que a parte mais complicada de um pai criar o filho sozinho é a parte emocional. Normalmente, é a mãe que tem esse estereótipo de cuidar mais. Então, para mim, a parte emocional foi bem complicada. Conciliar o trabalho com a parte emocional, chegar em casa e estar disponível para ouvi-lo foi bem difícil”, relata.
Apesar disso, Sales jamais pensou que não daria conta da situação, já que também contou com o apoio de familiares e sempre esteve decidido sobre sua escolha. “Eu sempre busquei essa guarda unilateral, então, eu já estava me preparando para conseguir passar essa situação do emocional para ele. Toda vez que ele chegava: ‘Pai, vamos conversar’, eu estava disposto, disponível para conversar com ele. Ele falava os assuntos que queria falar; eu ouvia com atenção. Nenhum momento pensei nisso [em não dar conta]”, afirma.
A psicóloga Emília Luna explica que, por mais que a maneira como os pais costumam demonstrar carinho e cuidados no aspecto emocional seja diferente em relação às mães, eles têm toda a capacidade de promover uma boa criação dos filhos.
“A afetividade é diferente, o cuidado é diferente, a forma de lidar com as situações é diferente, não tem como a gente comparar. Agora, isso não quer dizer que o homem não dá conta. Ele não vai substituir o papel da mãe, mas ele consegue cuidar da criança, sim, desde que ele queira e ame o filho de forma genuína.”
A rotina invisível
Além das mudanças nos sentimentos, os pais passaram a ter outro estilo de vida com a paternidade solo, com suas rotinas alteradas. Ambos contaram com apoio de suas famílias, principalmente no período de adaptação à nova realidade.
Ainda que a avó materna de Maria Júlia ajudasse bastante, José precisou aprender diversas tarefas simples às quais não estava habituado, como cuidados de higiene pessoal, escolher e comprar roupas, comprar remédios, entre outras coisas que o pai faz até hoje. “Tinha que dar banho, fazer toda a parte de higiene pessoal, escovar os dentes, escolher o uniforme, comprar roupa. Levar e buscar na escola é minha responsabilidade também”, conta.
José lembra que precisou aprender coisas que nunca haviam passado pela sua cabeça. Descobriu como escolher roupas femininas, passou a reconhecer o gosto da filha, organizou uniforme escolar, remédios, higiene pessoal e os horários da casa. “Eu aprendi a ver como é roupa de menina. Hoje é muito difícil ela dizer ‘não’ para uma roupa que eu acho bonita. Porque, no decorrer do tempo, eu fui percebendo o jeito dela, o gosto, você vai aprendendo.”
Sales também passou a ter mais responsabilidades e tentava estar presente na vida de Samuel mesmo trabalhando oito horas por dia. Quanto às tarefas, estava acostumado, já que foi ele quem deu o primeiro banho e trocou as primeiras fraldas do filho.
Sales teve apoio de sua mãe, que ficava com a criança enquanto ele trabalhava. Logo cedo, ele deixava o filho com a avó do garoto, que o levava para a escola. Com a ‘correria’ do dia a dia, não tinha muito tempo pra ficar com o Samuel, mas tentava sempre ‘dar um jeitinho’ de ter algum contato com ele.
“Sempre busquei estar presente na vida do Samuel. Dentro do trabalho, eu buscava ligar pra ele, conversar por chamada de vídeo, estar mais próximo do meu filho”, diz. Quando voltava do trabalho, à noite, após buscar o Samuel, ainda tinha energia pra brincar, fazer um jantar com o filho ou apenas conversar sobre o seu dia.
Sensibilidade e preconceito
José lembra também de sua dificuldade em ter sensibilidade para ensinar sua filha do seu jeito. Além da menina ter que compreender a perda da mãe, o pai precisou adaptar sua comunicação e atenção aos detalhes que antes não eram percebidos.
“Por exemplo, quando a criança tá ‘doentinha’, a mãe tem uma forma diferente de cuidar, um carinho diferenciado. A gente [pais] é um pouco mais objetivo. Às vezes, eu quero tratar ela de uma forma mais tipo: ‘Vamos, agiliza, tal, assim’. E eu: ‘Opa, espera aí. Vamos voltar ao normal, é uma criança, uma menina, então tem que ser mais delicado'”, conta José.
Segundo ele, os próprios pais, por vezes, têm um certo preconceito em ser delicados e estar atentos a esses cuidados necessários, sobretudo com meninas. “Isso foi uma dificuldade muito grande para mim, para eu poder me adequar ao que eu tô tratando com a menina, que vai sempre precisar de carinho de uma mulher, de uma mãe”, afirma.
Já Samuel teve alguns problemas quando questionado sobre a falta da mãe na escola, por exemplo. Uma alternativa encontrada por Sales para dar mais apoio ao filho foi colocá-lo na terapia.
“Teve alguns amigos do Samuel que falaram: ‘Ah, cadê sua mãe?’, quando tinha Dia das Mães e ela não conseguia ir. Ele já chegou em casa chorando, mas conversei com ele e ele entendeu. Até hoje, ele passa pelo psicólogo; ajudou bastante nessa situação”, relata o pai.
Sales também buscou mais conhecimento nos estudos e com sua família pra lidar melhor com o momento. “Eu busquei em livros, mesmo, de psicologia; aprendi bastante. Minha base familiar foi muito forte também; meu pai e minha mãe me ensinaram muita coisa”, completa.
Sem herói
A responsabilidade do cuidado com os filhos, ilustrada pelo caso dos colegas de Samuel, ainda está fortemente atrelada à figura da mãe. Apesar disso, ambos os pais relataram não ter sofrido preconceito e que a sociedade tem aceitado cada vez mais o pai como responsável.
José até percebeu certo estranhamento de algumas pessoas próximas, mas não pensou em deixar de assumir a responsabilidade, que via como nada mais do que sua obrigação. “Algumas pessoas, até próximas, falaram: ‘Como vai ser agora? Ela vai ficar com a avó?’. Então eu falei: ‘Não, jamais isso’. Jamais passaria pela minha cabeça ter um filho que fosse criado por outra pessoa que não seja a mãe.”
A psicóloga Emília explica que, apesar do cenário estar mudando e mais pais solo estarem surgindo, a sociedade ainda estranha esse tipo de paternidade.
“Pais que assumem esse papel da paternidade solo enfrentam esse olhar desconfiado. ‘Será que esse pai realmente quer ficar com essa criança? O que será que esse pai está querendo por trás disso? Será que esse pai dá conta?’ Então existe esse olhar mais crítico, mais desconfiado em relação a esse pai”, afirma a especialista.
Por isso, muitas vezes, os genitores podem ser vistos como ‘heróis’, ainda que estejam fazendo apenas a sua obrigação. “Existe essa visão de herói porque a sociedade não está acostumada ainda. Quando se vê um pai brincando com uma criança, levando para a escola, caminhando e brincando com ela, ainda se fala: ‘Nossa, que pai legal, que pai participativo, esse é um paizão’. Mas, não, ele só está cumprindo o papel dele”, conclui Emília.
As lembranças que ficam
Os dois pais destacam as pequenas memórias que têm com os filhos, principalmente dos ensinamentos e das atividades que costumam fazer juntos. Sales e Samuel são verdadeiros parceiros de esportes: correm, caminham, pedalam e nadam juntos.
Já José e Maria Júlia possuem uma relação mais delicada, em que ambos aprenderam um com o outro. Enquanto o pai precisou aprender a fazer penteados na filha e escolher as roupas dela, ele também a ensinou a andar de bicicleta e até levou a pequena para uma caminhada de quatro quilômetros. “É a melhor coisa do mundo ter uma pessoa que um dia vai chegar e falar: ‘Olha, isso aqui eu lembro do meu pai. Isso aqui foi meu pai que ensinou'”, afirma José.
“Temos que sempre buscar estar presentes na vida do filho, fazendo um esporte, ajudando na atividade escolar, indo fazer um piquenique em família. Essa é uma emoção que tenho, de estar com o Samuel sempre comigo presente”, diz Sales.
A psicóloga Emília reforça que esses momentos ficam marcados na lembrança dos filhos, chamados de memórias afetivas. “É importante ter a memória afetiva do pai, da mãe e da família, isso constrói laços que vão para a vida inteira. E existem brincadeiras, atividades, que são entre pai e filho, que é o pai que chama, que toma a frente, que comanda. Por exemplo, andar de bicicleta, pescaria, entende? São atividades de pai e filho”.
O legado
“O maior legado de um pai não é deixar patrimônio, e sim a lembrança de que esteve presente na vida do filho”, afirma Sales. Para ele, comemorar o Dia dos Pais neste fim de semana tem um significado ainda maior depois de passar pelo período da paternidade solo. “Eu me sinto muito feliz, alegre, por ter meu filho junto comigo. Então, a gente pode fazer muita coisa juntos agora.”
Hoje casado novamente, Sales ficou muito contente por Samuel ter recebido tão bem sua madrasta. “Melhorou bastante com a chegada da Mayara. Era algo que eu e ele sentíamos falta, chegar em casa e poder sentar em família, trocar ideia, pai, filho e a mãe, falar como foi o dia de cada um. Com a chegada da Mayara, isso foi possível; então, foi algo bacana.”
José também afirma que ter a guarda integral da sua filha foi um verdadeiro divisor de águas. Além de seu foco mudar completamente, sendo a Maria Júlia seu principal ponto de atenção, ele evoluiu em outros aspectos de sua própria vida. “Quando um filho entra na tua vida, a maioria das coisas que você faz não é mais para você, é para o teu filho. Então, aonde você vai, o teu filho tem que ir. A programação gira em torno deles. Para mim, hoje, é um privilégio ser pai”, afirma José.
“É a melhor coisa que aconteceu na minha vida. Tudo o que eu consegui em termos de melhorar minha vida, como ser humano, foi depois que, de fato, comecei a viver como um pai”, completa.
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(Revisão: Dáfini Lisboa)







