A crise financeira que atinge o Paraguai e provocou insegurança entre correntistas também preocupa comerciantes de Pedro Juan Caballero, cidade paraguaia que faz fronteira com Ponta Porã, em Mato Grosso do Sul. Apesar do cenário de incertezas, vendedores da região afirmam que o movimento de consumidores brasileiros ajuda a amenizar os impactos sobre o comércio fronteiriço.
A situação se agravou nesta semana, após a intervenção no Ueno Bank, uma das principais instituições financeiras do país. Como boa parte das vendas na fronteira é realizada em reais, os comerciantes acreditam que o setor local pode sentir menos os efeitos da crise do que estabelecimentos de outras regiões do Paraguai, mais dependentes da circulação financeira interna.
Vendedora, Tamara Herrera, de 23 anos, conta que também mantinha dinheiro no Ueno Bank e agora espera conseguir recuperar o valor. “É ruim perder dinheiro, muito triste. Tenho esperança de receber, mas não sei quando”, afirma.
‘Alívio’ aos comerciantes

Apesar da preocupação, ela acredita que o comércio de Pedro Juan Caballero não deve sofrer os mesmos efeitos que outras regiões do país. Segundo ela, a clientela brasileira representa uma parcela importante das vendas.
“Pode ser que as pessoas comprem menos, mas nós vendemos muito para brasileiros, muitíssimo movimento, sempre. Vendemos mais em real do que em guarani”, afirma.
O clima de incerteza afeta, ainda, os clientes e a movimentação nas lojas. Marina Benitez, de 34 anos, relata que muitos consumidores estão receosos de movimentar dinheiro, o que acaba prejudicando as vendas. “Todo mundo está com medo de depositar. Para falar a verdade, está uma loucura”, resume.
Alice Romero, de 34 anos, também relata prejuízos entre comerciantes e clientes. Embora a maioria dos consumidores do estabelecimento seja brasileira, ela afirma que as vendas estão paradas, principalmente nas operações que dependem de entregas.
“Fica difícil tanto para a gente quanto para os clientes”, diz. Segundo Alice, até brasileiros que utilizavam o Ueno Bank — entre eles, estudantes — foram prejudicados pela restrição de acesso às contas.

Já o vendedor Alan Ramires, de 25 anos, teme que a crise interrompa a recuperação econômica que, na avaliação dele, vinha ocorrendo no Paraguai.
“O país estava indo bem, estava melhorando a cada dia, mas isso que aconteceu nesta semana afundou o país de novo. A gente ia sair do poço, mas estamos voltando”, avalia.
Ele destaca que muitos trabalhadores recebiam salários pelo Ueno Bank e agora podem reduzir o consumo por não terem acesso ao dinheiro.
Para Alan, os efeitos devem ser mais intensos em outras regiões do país, já que Pedro Juan Caballero conta com o movimento de brasileiros e as vendas em reais.
Intervenção no Ueno Bank

A intervenção no Ueno Bank foi determinada pelo Banco Central do Paraguai na terça-feira (3), com o objetivo de “proteger os depositantes e preservar a estabilidade do sistema financeiro”.
A instituição, que possui mais de 3 milhões de clientes, passou a ser alvo de medidas dos órgãos reguladores em meio à crise financeira. A decisão provocou restrições de acesso aos recursos dos correntistas e ampliou a pressão política sobre o governo paraguaio.
Na Justiça, foi determinada a prisão de oito diretores do banco, entre eles, o presidente da instituição, Miguel Vázquez.
O episódio também desencadeou uma crise política envolvendo o presidente Santiago Peña, que já havia sido associado ao grupo empresarial controlador do banco. A repercussão aumentou a pressão sobre o governo e abriu caminho para uma tentativa de afastamento do mandatário.
Crise política e impeachment de Peña
Santiago Peña possuía participação acionária na Ueno Holding, grupo que controlava o Ueno Bank, mas se desvinculou da empresa em 2025. A relação societária passou a ser questionada pela oposição, que aponta possível conflito de interesses.
O senador oposicionista Rafael Filizzola confirmou que atuava para buscar o impeachment do presidente. Em entrevista à agência AFP, ele afirmou que Peña teria participação direta no escândalo.
“Flexibilizou os mecanismos das leis anticorrupção, criou-se o banco [Ueno], do qual ele era acionista, e depois renunciou à participação diante das pressões”, declarou Filizzola.

Na quarta-feira (4), um grupo de 35 deputados apresentou formalmente um pedido de impeachment contra Peña na Câmara dos Deputados. A acusação apontava conflito de interesses em razão da antiga participação societária do presidente na Ueno Holding. O pedido também incluía o vice-presidente, Pedro Alliana.
Na quinta-feira (5), Peña anunciou que deixaria o cargo, em meio ao agravamento da crise política. A decisão foi comunicada por meio de um vídeo publicado nas redes sociais, no qual afirmou que pretendia garantir a paz social e preservar as instituições.
O anúncio, porém, não encerrou a movimentação pelo afastamento. O pedido de impeachment foi aprovado pela Câmara dos Deputados no mesmo dia, mesmo após a manifestação do presidente.
A pressão também ganhou força dentro do próprio grupo político de Peña. Parlamentares governistas declararam apoio ao processo de destituição, enquanto Horacio Cartes, presidente do Partido Colorado e aliado político do mandatário, também anunciou apoio à cassação.
Após receber a notificação do Senado, às 22h15 (horário de Brasília) de quinta-feira, Peña pediu a ampliação do prazo para apresentar sua defesa. Ele alegou que as 12 horas concedidas seriam insuficientes para analisar a acusação, composta por 15 folhas e mais de 300 páginas de anexos.
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(Revisão: Dáfini Lisboa)







