Equipamento comprado por R$ 1 milhão pelo Senai-MS (Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial – Regional de MS), braço da Fiems (Federação das Indústrias de Mato Grosso do Sul), foi flagrado na indústria do próprio presidente da federação, Sérgio Longen, a Semalo Indústria e Comércio de Alimentos, em Campo Grande.
Vídeo postado pela Parisi S.A. – MS Energy (CNPJ 08.075.240/0001-67) mostra o equipamento que armazena energia gerada por placas solares, chamado BESS, com adesivos do Senai/Fiems, sendo instalado na fábrica quatro meses após a homologação da licitação para fornecer o equipamento para a entidade industrial.
O empresário Massimo Parisi também está vinculado à Usina San Vito, que foi desclassificada pela Fiems de licitação de usina solar, de R$ 18 milhões — da qual foi a única participante —, após repercussão de reportagens do Jornal Midiamax sobre suspeitas de direcionamento denunciadas ao Ministério Público. A comissão de licitação utilizou um detalhe que a usina alegou não estar especificado no edital para inabilitar a empresa.
Comprado sob a justificativa oficial de equipar uma unidade móvel, em um caminhão elétrico, o equipamento milionário acabou sendo instalado no pátio da indústria de Longen, conforme denunciado por fornecedores e ex-funcionários do Sistema S.
Vídeo promocional divulgado pela própria Parisi S.A. (MS Energy) em 23 de junho de 2026 — quatro meses após a homologação da licitação —, nas redes sociais, mostra o equipamento com os adesivos do Senai/Fiems instalado na fábrica de Longen.


Edital previa instalação em unidade móvel
O Chamamento Público nº 134/2025 (Processo PRC-CD-2025-00277) previa a “aquisição e instalação por compra única de sistema de armazenamento de energia BESS […] e autotransformadores“.
No Item 1 do Termo de Referência, o Senai informa que a aquisição, com valor superior a R$ 1 milhão, tinha como objetivo “a instalação e utilização no caminhão VW e-Delivery 14 elétrico com guindaste, que atuará como unidade móvel/embarcada para alimentar carretas, contêineres e canteiros de obras que não possuem rede local de energia”.
Entretanto, as imagens divulgadas nas redes sociais da MS Energy mostram uma realidade oposta. Uma representante da empresa caminha pelo pátio da fábrica da Semalo e explica a função real da instalação: “O horário de ponta pode encarecer drasticamente o consumo de uma indústria […]. O BESS entra em ação e abastece a fábrica. É economia real na ponta do lápis”.
O vídeo encerra com a gravação da fachada da indústria Semalo, revelando que a bateria gigante comprada com verba de natureza pública do Sistema S — e adesivada com a logo do Senai e da Fiems — está operando como um “nobreak” industrial para cortar custos operacionais da empresa de Longen.
A reportagem procurou a Parisi S.A. — com mensagem encaminhada ao jurídico da empresa — para esclarecer detalhes das condições negociadas com o Senai e a Semalo para a instalação do equipamento. Em resposta, Massimo Parisi pediu que não fossem mais enviadas mensagens e que trataria do assunto somente na Justiça.
Depois, a empresa apagou as publicações em suas redes sociais que a ligavam à Fiems, mudando nome e até a logo para ‘San Vito Solar’.

‘Não existe infra’: Senai negou informar detalhes
A documentação oficial da licitação, disponibilizada no Portal de Compras da Fiems, traz um documento com dúvidas de empresa interessada em participar do certame.
Os questionamentos trataram da infraestrutura elétrica dos locais, das distâncias de cabeamento e do endereço exato onde os equipamentos seriam instalados.
No entanto, a resposta oficial da comissão de licitação do Senai ocultou detalhes dos licitantes, abrindo margem para levantamento de dúvidas acerca da transparência e credibilidade do processo.
- Pergunta de Licitante: O local possui infraestrutura pronta para receber as baterias? As unidades ficarão no mesmo local? Gostaríamos de solicitar imagens do local de instalação.
- Resposta Oficial do Senai para todas essas perguntas: “Não existe infra ainda. As baterias serão carregadas e descarregadas em diferentes redes. Será feito projeto de adaptação para cada uma delas”.
A comissão também negou a entrega de plantas, esquemas de ligação ou fotos das subestações aos participantes. Sem acesso às informações reais sobre a instalação do equipamento, concorrentes disputaram o certame às cegas, sem conseguir mensurar os custos exatos de engenharia, transporte e integração.
Ao responder ao questionamento da empresa sobre quem iria arcar com os custos com cabeamento para conexão do equipamento, o Senai-MS confirma que a própria entidade iria fazer a instalação: “SENAI irá realizar as instalações nos locais de carregamento e descarregamento”, diz o documento.
A disputa foi homologada em favor da Parisi S.A. pelo valor de R$ 1.030.000,00. Uma empresa da Paraíba enviou uma proposta de R$ 566.751,70 em 28 de novembro — último dia para envio de propostas —, mas, quatro dias depois, pediu a desclassificação no certame “em razão de equívoco operacional ocorrido no momento do cadastramento da proposta na plataforma eletrônica”.

Suspeitas na Fiems
O Sistema S é mantido por contribuições parafiscais compulsórias pagas pelas empresas, arrecadadas pela União e repassadas pela Receita Federal. Somente neste ano, a Fiems deve receber cerca de R$ 60 milhões.
Por lidarem com verbas de natureza pública, essas entidades estão submetidas à fiscalização de órgãos de controle federal, como o TCU (Tribunal de Contas da União) e a CGU (Controladoria-Geral da União).
A instalação de um bem de R$ 1 milhão pertencente ao Senai dentro de uma empresa cujo controle está ligado à diretoria e à presidência da Fiems levanta suspeitas de desvio de finalidade, conflito de interesse e possível fraude à isonomia da licitação.
Fiems desclassificou empresa após repercussão
Conforme denúncia encaminhada ao MP, no dia 7 de outubro, um dia antes da abertura das propostas, a San Vito Solar seria a vencedora de licitação de R$ 18 milhões da Fiems, para compra de usina geradora de energia solar.

A empresa foi a única participante do certame. No entanto, após repercussão das reportagens do Jornal Midiamax com as denúncias, a Fiems desclassificou a San Vito.
A San Vito foi criada por Massimo Parisi, em dezembro de 2023, com investimento de R$ 8.422.034,00. Mas, em abril de 2026 — seis meses antes da licitação —, passou o controle da empresa de usina solar para a AP Gestão Patrimonial e Empresarial Ltda., controlada por uma pessoa com quem o empresário mantém vínculo (detalhes societários ocultados por decisão judicial a pedido de Massimo Parisi).
O denunciante afirmou ao MP que teria ouvido conversas entre Massimo e Longen “discutindo divisão de valores oriundos do faturamento da MS ENERGY, o que me causou estranheza, visto que não estão no contrato social do grupo”, diz trecho da manifestação.
A Fiems não respondeu aos questionamentos da reportagem sobre se o edital não estaria muito específico, a ponto de uma única empresa se interessar, e sobre o fato de ser justamente a empresa apontada pela denúncia. O espaço segue aberto para manifestações.
Em julho, após o Jornal Midiamax revelar série de denúncias feitas por ex-funcionários sobre possível rede de CNPJs que seriam, supostamente, controlados pela diretoria da Fiems para manter contratos de tecnologia, a CGU já adiantou que poderá incluir essas denúncias em auditoria na Fiems.
Órgãos de Controle acionados
Diante dos fatos, notificações formais e pedidos de informação foram protocolados junto ao TCU, à Controladoria-Geral da União, ao MPF (Ministério Público Federal) e ao Conselho Nacional do Senai (CN-SENAI) para apurar se há inquéritos ou auditorias abertos contra o Senai Regional de Mato Grosso do Sul.
O TCU informou apenas que “não foram localizados no sistema processos relacionados ao Chamamento Público nº 134/2025 ou à cessão de bens do SENAI/MS”.
Até o fechamento desta reportagem, as demais entidades não haviam encaminhado os esclarecimentos oficiais solicitados.
Silêncio de Longen e Fiems
O Jornal Midiamax tenta, desde o dia 22 de outubro, obter esclarecimentos sobre a instalação do equipamento do Senai e da Fiems através dos canais oficiais de comunicação com a imprensa, bem como da assessoria jurídica. Não houve retorno até esta publicação.
A reportagem também tentou obter o posicionamento da Semalo, em tentativas de contato devidamente registradas por e-mails, números de WhatsApp e perfil nas redes sociais, além da assessoria jurídica da indústria, mas não houve resposta.
Para os devidos esclarecimentos, também procuramos Sérgio Longen. O Jornal Midiamax foi bloqueado em um perfil do empresário nas redes sociais, mas a reportagem enviou os questionamentos para e-mails institucionais e contatos da assessoria jurídica. No entanto, não obtivemos retorno.
O espaço segue aberto para posicionamentos, e manifestações enviadas após a publicação poderão ser incluídas no texto.
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(Revisão: Nichole Munaro)







