Se você é cronicamente on-line, já percebeu que o uso das câmeras digitais e analógicas voltou a ser tendência entre o público jovem. Apesar da praticidade do celular, a moda busca resgatar a memória nostálgica das fotos sem filtro e espontâneas durante o “rolê”.
Em Mato Grosso do Sul, a Cyber-shot da jornalista Isadora Colete, de 22 anos, virou uma protagonista nas festas e nos encontros entre amigos ou familiares. Aliás, a relação dela com as câmeras começou ainda na infância e, anos depois, acabou sendo resgatada justamente pela nostalgia.
“Meus pais tinham uma Cyber-shot da Sony, de 3,2 megapixels, e eu vivia com ela para cima e para baixo fotografando tudo dentro de casa. Eu era completamente apaixonada por essa câmera. Depois de um tempo, meus pais compraram outra câmera digital, mais moderna e com uma qualidade melhor”, relembra.
“Eu passei a usar essa câmera também, mas acabei estragando ela durante uma viagem da escola. Como ela não tinha conserto e, naquela época, os celulares já estavam ficando cada vez melhores para fotografar, meu pai decidiu não comprar outra. Ele acabou se desfazendo dessa câmera e guardou apenas a Cyber-shot mais antiga, que ficou esquecida em casa por muitos anos.”
Nostalgia
No entanto, a relíquia queridinha da infância estava com o visor danificado. Neste ano, por estar cercada de amigas que mantêm a câmera nos encontros, ela estava decidida a comprar uma câmera digital.
“Perguntei para o meu chefe se ele venderia a dele, mas ele disse que tinha um apego emocional porque trouxe a câmera do Japão e preferia continuar com ela. Então, comecei a procurar modelos usados em sites e também aqui em Campo Grande, mas sempre ficava com receio de comprar uma câmera antiga sem saber se realmente estava funcionando, até porque hoje em dia é difícil encontrar quem faça manutenção”, comentou.
“Meu padrinho soube da história e disse que tinha uma Cyber-shot guardada na casa dele, em São Paulo. Ela estava funcionando e ele não usava mais, então resolveu me dar de presente. Fiquei muito feliz, porque finalmente teria uma câmera minha.”

Filtro único
Desde então, a Cyber-shot passou a acompanhá-la praticamente em todos os eventos. Casamentos, festas juninas, aniversários e encontros entre amigos ganharam um novo ritual: fotografar com a câmera antiga e esperar ansiosamente pelas imagens.
“A câmera que ganhei é uma Sony Cyber-shot de 4,1 megapixels, produzida no Polo Industrial de Manaus. Achei isso uma curiosidade bem legal. Também precisei comprar um adaptador para passar as fotos para o computador e para o celular, porque o cartão de memória dela é diferente dos atuais, mas isso nunca foi um problema.”
O motivo vai além da qualidade da imagem, já que o charme das fotos está na experiência, no filtro único de cara flash e na espontaneidade.
“Elas têm uma cara mais vintage, bem característica, e acho que isso explica por que essas câmeras voltaram a fazer tanto sucesso. Hoje em dia, meus amigos pedem para eu levar a câmera quando a gente vai sair, principalmente em shows e outros rolês. Mas, mesmo quando ninguém pede, eu já gosto de levar, porque gosto do efeito que ela traz para as fotos.”

Paixão que virou profissão
Apesar de a câmera digital estar de volta como o equipamento queridinho dos rolês, a maior parte dos jovens que a utilizam já tinha alguma relação de conexão com o universo da fotografia. É o caso de Dafne Alana, de 24 anos, que ganhou a primeira câmera aos 15 anos. Foi justamente essa paixão pelas fotos que a levou a ingressar na carreira do audiovisual.
Formada em Audiovisual e Cinema pela UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul), a fotógrafa e retratista conta que ter uma Cyber-shot é quase um pré-requisito para estudantes de Cinema. Ela adquiriu a sua em 2020 e foi durante a pandemia que seu acervo pessoal aumentou. O equipamento foi um fiel escudeiro até o fim da vida acadêmica.
“Aceitei que vou passar a minha vida organizando HDs e colecionando cartões de memória SD, tentando fazer álbuns. Já a fotografia analógica entra sorrateiramente na minha vida simplesmente porque a maioria de nós, os nascidos depois de 2000, nunca viu o processo fotográfico da revelação química da película. Essa descoberta de como funciona me deixou tão animada que até hoje tenho meus próprios químicos em casa, fico encantada! Eu não diria que gosto da estética, apesar de amar colocar a bordinha do filme quando digitalizo. Eu digo que é o processo que me ganha.”
“Toda vez é um frio na barriga para ver se as fotos da câmera analógica saíram. E, se saíram, são sempre acompanhadas de um: ‘Nossa, nem lembrava dessa foto!’. Então, acho que a fotografia analógica é um grande exercício do tempo e da nossa memória, e é isso que, em tempos de imediatismo, a torna tão especial, seja o filme colorido ou preto e branco. que a experiência de fotografar em filme ou até mesmo de revelar esse filme pelo menos uma vez na vida.”
Motivo da febre
“Particularmente, acho a febre das câmeras compactas muito legal, pois exalta uma época que simplesmente não vivemos, e esse ar nostálgico me agrada. Mas eu sou formada, então é impossível não colocar o criticismo e lembrar da grande lei da oferta e da demanda. Ou seja, hoje em dia temos preços altíssimos em câmeras que não valem a metade, mas ‘para gravar TikTok, eu dou minha vida’. Espero que nós, amantes de câmeras, encontremos os lugares certos na hora certa para comprá-las”, pontua Dafne.
Por fim, para ela, o entusiasmo pela nostalgia de uma câmera acontece como um ciclo. As futuras gerações tendem a admirar relíquias, como o vinil.
“Sempre tem aquela alma que se sente esquecida no tempo e diz que bom mesmo eram os carros de antigamente ou coisas do tipo. Me incluo nessa frase, pois, mês passado, conversando sobre câmeras analógicas, um colega tinha adquirido uma Olympus Zoom deliciosa, e aí eu soltei que ‘não se fazem mais lentes como antigamente’, porque é o mesmo argumento dos carros para as lentes dos anos 70. Enfim, a fotografia analógica está viva e a nostalgia está ocupando cada vez mais corações”, conclui a profissional.
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(Revisão: Nichole Munaro)







