Uma fruta de aparência diferente, e que até então era desconhecida. Foi assim, por curiosidade, que Creuza Teixeira de Lima, de 63 anos, conheceu a pitaya, durante uma passagem por Campo Grande. Gostou tanto que quis levar a novidade para casa, sem saber que a fruta mudaria a sorte da família.
O marido, Adão de Lima, de 75 anos, também nunca havia experimentado, mas resolveu ouvir a amada e apostar no cultivo. Eles começaram quase sem experiência, já que nem sequer sabiam como a fruta se adaptava à área rural de Bonito, cidade a 295 quilômetros de Campo Grande.
Adão e Creuza construíram a vida trabalhando com a terra. Durante muito tempo, a principal atividade da propriedade foi a produção de hortaliças e frutas. Mas, com uma horta pequena, a concorrência com produtores maiores começou a pesar no bolso.
“Poucas vendas não compensam as despesas. Sem contar que, em determinados períodos do ano, o clima não é muito favorável para produção de alface. Graças a Deus, nunca faltou nada [em casa], pois sempre plantei variedades de hortaliças. Mas chegou a um ponto em que vi que não compensava mais. Resolvi mudar para as frutas”, explica Adão.
Fruta rosa e ‘pintada por dentro’
Foi exatamente nesse período, procurando um novo norte para sobreviver no campo, que a pitaya entrou na história — primeiro, como uma curiosidade de Creuza, e, depois, como uma aposta dos dois.
“Eu vi vendendo na rua e falei pro meu genro: ‘Passa ali que eu quero ver aquela fruta, quero ver o que é’. Quando chegou lá, eu experimentei, gostei e levei para a chácara”, conta.
Adão gostou da ideia e decidiu experimentar. O problema é que nenhum dos dois sabia direito como cultivar aquela fruta. No começo, recorreram a pesquisas na internet, mas a prática mostrou que seria preciso muito mais do que vontade para fazer a plantação prosperar.
A irrigação, por exemplo, era feita manualmente, molhando as plantas uma por uma. Uma das primeiras grandes frustrações veio quando todas as frutas acabaram abortando por conta do excesso de chuva.
“Era uma por uma no regador, e eu até pensei em desistir uma época, mas falei: ‘Não, não vou desistir’. Foi muito difícil no começo”, recorda.
Quem trabalha no campo tem as mãos calejadas, não desiste. Apesar de se sentir um “iniciante” no ramo com a nova produção, João diz que o lucro é só um bônus de ter dado certo, mas a maior satisfação é ver outras pessoas gostando da fruta curiosa. “A pitaya me ensinou muito”, afirma.

A novidade não convenceu todo mundo de imediato, pois as filhas, Tatiane e Adriane Teixeira de Lima Ribeiro, ficaram desconfiadas com a produção; afinal, o que era uma pitaya?
Tatiane, a mais nova, nem sequer conhecia a fruta e lembra que chegou a dizer ao pai que preferia uva. Já Adriane achou a iniciativa uma loucura.
Com o tempo, porém, as primeiras colheitas começaram a mudar a opinião da família. Tatiane conta que perceberam o potencial da produção quando experimentaram as frutas e viram que, além de bonitas, elas tinham mercado.
Adriane, que mora em Campo Grande, acompanhava as novidades pelas mensagens do grupo da família. No começo, questionava quem compraria uma fruta tão cara. Depois, passou a receber vídeos do pai mostrando os carrinhos cheios de pitayas, sempre orgulhoso da produção.
“É uma honra saber que deu certo. Nós tivemos um dia de campo e foi bem legal, teve bastante gente da cidade”, conta Adriane.
Além disso, a plantação pioneira começou a receber também outros trabalhadores rurais interessados em conhecer o cultivo. A família passou a compartilhar a experiência e descobriu que a pitaya poderia abrir portas para uma nova fonte de renda.
Aprender junto para colher melhor
Foi durante uma visita a uma propriedade vizinha que Adão conheceu o trabalho do Senar-MS. Interessado em melhorar a plantação, procurou a instituição e passou a receber acompanhamento da ATeG (Assistência Técnica e Gerencial) em Horticultura.
Com a orientação, o casal fez mudanças na estrutura do pomar, substituindo postes de madeira por estruturas de cimento, além de adotar técnicas de adubação, poda e irrigação por gotejamento.
“Eu vi um carro diferente e fui me informar para saber como funcionava a assistência, e foi aí que veio o Senar-MS e ajudou a gente. A estrutura melhorou muito; antes, os postes eram de madeira e caíam, às vezes, aí colocamos de cimento e deu certo. Também comecei a plantar no lugar certo”, conta Adão.
“A gente não sabia o que passar nas plantas e quais eram os produtos certos. Eu fico muito feliz, embalo tudo para guardar, e o pessoal vem aqui pegar as polpas”, relata.
Família teve de rever práticas adotadas
A técnica de campo Luana Arruda acompanhou as mudanças e explica que o trabalho foi desenvolvido de acordo com as necessidades da propriedade.
“O seu Adão é uma pessoa muito receptiva, e a gente foi estudando as técnicas de adubações, irrigações e o tipo de poda”, conta.
O próximo passo é continuar reduzindo as perdas provocadas por queimaduras de sol, pragas e doenças. A família também planeja instalar iluminação artificial no pomar, técnica que poderá permitir duas safras de pitaya por ano.

Pitaya é ouro em terra
A história da pitaya também se mistura à história das filhas, que acompanharam de perto as dificuldades e as conquistas dos pais. Tatiane, inclusive, mudou a própria rotina para ficar mais próxima deles. Há dois anos, deixou a casa na cidade e foi morar na chácara, embora continue trabalhando em um hotel de Bonito.
A decisão veio depois que Adão precisou passar por uma cirurgia de hérnia, em 2024. Tatiane quis estar mais presente e passou a ajudar os pais, principalmente nos fins de semana.
Ela brinca que trabalhar na horta virou uma terapia, embora ainda não consiga acompanhar o ritmo do pai. A família também ganhou mais um motivo para comemorar neste mês: no dia 15 de outubro, nasceu Maria Teresa, filha de Mateus e neta de Tatiane, que agora também é bisavó.
No dia 10 de julho deste ano, Adão sofreu um infarto e precisou passar por uma cirurgia cardíaca e uma angioplastia. A família passou praticamente um mês em Campo Grande acompanhando a recuperação.
“Lembro de ter pensado que a homenagem precisa ser feita em vida, enquanto a pessoa está aqui conosco. Imagina que quase perdemos ele, e hoje ele sendo homenageado, com seu trabalho de anos sendo reconhecido, isso é uma grande alegria pra nós”, relata Tatiane.
Mesmo depois de tantos anos de trabalho, Adão continua pensando no que mais pode cultivar. Quando questionado sobre os próximos sonhos para a chácara, não faz planos mirabolantes: quer plantar mais variedades de frutas.
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(Revisão: Dáfini Lisboa)








