Muitos gateiros têm o costume de escolher a cor do animalzinho a ser adotado, com a ideia de que o tom da pelagem definiria o temperamento do pet. Mas será que isso faz sentido?
Conforme explica Celisse Garcia, especialista em medicina felina, a resposta é complexa: não dá para afirmar que a pelagem influencie a personalidade dos gatos, mas a possibilidade também não é completamente descartada.
“Existem estudos que identificaram associações entre determinadas cores e comportamentos percebidos pelos tutores, mas as evidências ainda são insuficientes para afirmar que a cor da pelagem determina a personalidade de um gato”, afirma a médica-veterinária.
Os estudos realizados até o momento não podem ser totalmente considerados porque dependem da percepção dos tutores dos animais, que é enviesada.
“A maioria das associações encontradas em estudos desse tipo depende de comportamentos relatados por humanos. Isso é diferente de demonstrar diferenças comportamentais por meio de testes padronizados, observações independentes e estudos genéticos”, explica.
Aos gateiros, Celisse garante que, independentemente da cor dos gatinhos, o amor que eles têm a oferecer é garantido.
“Não é a cor dos pelos que define o tamanho do amor que um gato pode oferecer, nem a personalidade que ele vai desenvolver. Cada felino tem seu próprio jeito de confiar, brincar e demonstrar carinho. Quando aprendemos a respeitar suas particularidades e a compreender suas necessidades, descobrimos que a verdadeira beleza dos gatos está muito além da pelagem: está na singularidade de cada um deles”, pontua.
O que de fato influencia o ‘mood’ dos gatinhos?
Celisse pontua que a personalidade felina é multifatorial. Ela resulta da interação entre predisposição genética, desenvolvimento inicial, experiências de socialização, ambiente e aprendizagem. Não existe um único fator que explique todo o comportamento de um gato.
“Imagine dois gatos da mesma ninhada, com pelagem semelhante. Um foi acostumado gradualmente ao toque, à caixa de transporte e às consultas veterinárias. O outro teve pouco contato com humanos e passou por manipulações assustadoras. Mesmo com genética semelhante, eles podem apresentar respostas muito diferentes durante a vida”, exemplifica a especialista.
1. Genética e características individuais
Os gatos apresentam diferenças individuais de temperamento, incluindo tendência à exploração, medo, sociabilidade e reatividade. Parte dessas diferenças pode ter componente hereditário.
A genética também pode influenciar a resposta a estímulos e a capacidade de adaptação, mas não permite prever integralmente como um indivíduo se comportará.
2. Socialização na infância
Segundo médicos-veterinários comportamentalistas, o fator mais importante para a socialização do felino é o período sensível de desenvolvimento (ou janela de socialização precoce), que ocorre em geral entre a 2ª e a 7ª (ou até a 9ª) semana de vida do gatinho.
Durante essa fase crucial, o cérebro do filhote possui uma altíssima plasticidade neural. É nesse intervalo que o gato define o que é “seguro” e o que é “ameaçador” para o resto da vida.
Estudos comportamentais demonstram que gatinhos que são manuseados de forma gentil por humanos, diariamente (idealmente por mais de uma pessoa diferente), durante essas primeiras semanas, desenvolvem muito mais afabilidade e se tornam adultos confiantes e menos medrosos.
3. Influência materna e experiências com a ninhada
O comportamento da mãe, o ambiente em que os filhotes crescem, as interações com irmãos e a qualidade dos cuidados podem influenciar o desenvolvimento social e a resposta ao estresse.
A observação e a interação com outros gatos também contribuem para a aprendizagem de comportamentos e sinais de comunicação.
4. Ambiente e bem-estar
Um ambiente previsível, com esconderijos, locais elevados, brincadeiras, recursos suficientes e áreas de descanso, favorece a sensação de segurança.
Competição por alimento, água ou caixas sanitárias, conflitos entre gatos, mudanças bruscas e falta de controle sobre as interações podem aumentar o estresse e favorecer comportamentos defensivos.
5. Saúde, idade e experiências ao longo da vida
Dor, doenças, alterações sensoriais e desconforto podem modificar o comportamento. Um gato que passa a evitar o toque ou apresenta agressividade repentina deve ser avaliado clinicamente, em vez de ser rotulado como temperamental.
A personalidade também pode se expressar de maneiras diferentes conforme o animal amadurece e suas necessidades mudam.
A cor ‘manda’ em algo?
Diferentemente da personalidade, dá para associar a cor da pelagem (ou melhor, a ausência de cor) dos bichanos a determinadas características.
Conforme explica Celisse, algumas características genéticas associadas à pigmentação estão relacionadas a condições de saúde específicas, que são manifestadas principalmente em gatos que possuem a coloração branca.
Gatos brancos de olhos azuis, por exemplo, são frequentemente associados à surdez congênita.
“Essa é uma das associações mais bem estabelecidas na medicina felina. Determinadas variantes genéticas associadas à pelagem branca podem interferir no desenvolvimento dos melanócitos e das estruturas do ouvido interno, aumentando o risco de surdez congênita”, destaca.
Além disso, a pelagem branca e a pele pouco pigmentada podem deixar os felinos mais vulneráveis à ação dos raios solares.
“A exposição crônica ao sol pode contribuir para o desenvolvimento de carcinoma de células escamosas cutâneo, particularmente em regiões com pouca cobertura de pelos e pigmentação”, alerta a veterinária.
Curiosidades
Se dá pra afirmar algo com certeza sobre as cores dos gatos, é que laranjas normalmente são machos e tricolores são fêmeas.
Estima-se que cerca de 80% dos felinos que apresentam a coloração laranja sejam machos. Isso ocorre porque o pigmento laranja é atrelado ao cromossomo X. Para que nasça um laranja macho (XY), ele precisa herdar o X laranja de apenas um dos pais. Já para que nasça uma fêmea (XX), a gatinha precisa que tanto o cromossomo X da mãe quanto o do pai tenham o gene laranja. Por isso, as fêmeas laranjas são, estatisticamente, mais raras.
No caso dos tricolores, os genes atrelados aos cromossomos também são o que determina a cor. Os genes responsáveis pelas cores preta e laranja ficam no cromossomo X. Como as fêmeas têm dois cromossomos X (XX), elas podem herdar a cor preta em um e a laranja no outro, formando o padrão tricolor (junto com o branco, que nada mais é que a ausência de qualquer pigmento). Os machos normais têm apenas um cromossomo X e um Y (XY), por isso só conseguem manifestar uma das cores base (ou preto, ou laranja). Para um macho nascer tricolor, ele precisa ter uma alteração genética rara e nascer com três cromossomos sexuais (XXY).
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(Revisão: Dáfini Lisboa)









