Manter mais de 50 anos de história preservados exige muito mais do que guardar fotografias em gavetas. É preciso controlar a temperatura do ambiente, conservar cada negativo, corrigir posições tortas e digitalizar imagem por imagem.
Na casa do fotojornalista de 79 anos que eternizou MS, Roberto Higa, em Campo Grande, esse trabalho se tornou uma missão diária para impedir que o tempo apague parte da memória de Mato Grosso do Sul.
Nas redes sociais, a filha do fotógrafo, Mariana Higa, compartilhou um pouco da grandiosidade do acervo e dos desafios enfrentados pela família para conservar o material. Mesmo com todos os cuidados, alguns negativos já apresentam sinais de desgaste.
“É um material que se desfaz com o tempo. Mesmo assim, a gente luta todos os dias para manter tudo isso preservado”, relata.
Museu vivo
Em um dos cômodos da casa, a família montou uma estrutura para digitalizar as imagens manualmente. Contudo, o processo exige paciência, já que cada negativo precisa ser observado, preparado e digitalizado. Com o passar dos anos, o material pode entortar, o que demanda ainda mais atenção durante o trabalho.
“Quando vejo, tem negativo tortinho”, explica Sandra Higa, esposa de Roberto, enquanto trabalha na digitalização dos fotogramas.
Depois de digitalizadas, as imagens precisam ser organizadas e armazenadas na nuvem, com informações como data e evento registrado. O trabalho, porém, está longe de ser rápido. Diante de um acervo que parece não ter fim, a digitalização pode levar dias, e a família precisa conciliar a preservação com os cuidados necessários para evitar que os originais se deteriorem.
“Nós não somos historiadores, não tivemos estudo de arquivo. A gente faz na garra, no instinto, faz por amor”, resume Sandra.
Memória de MS
O esforço para preservar os negativos ajuda a dimensionar o que existe dentro da casa da família Higa. É difícil caminhar pelos ambientes sem encontrar vestígios de uma vida dedicada à fotografia. Quadros, imagens icônicas, presentes de amigos, peças de artesanato e objetos acumulados ao longo das décadas transformam o imóvel em uma espécie de museu particular.
Em dois cômodos, mais de cem câmeras dividem espaço com livros e negativos guardados desde a década de 1970. Cada objeto tem uma história, e as fotografias funcionam como portas para momentos que marcaram a trajetória da Capital e do Estado.
Ao apontar para uma imagem, Higa consegue relembrar o contexto e as pessoas envolvidas. Entre as recordações, estão momentos vividos ao lado da esposa, como quando os dois foram enredo da escola de samba Deixa Falar.
Ao longo de mais de cinco décadas de trabalho, o fotógrafo registrou acontecimentos importantes, entre eles a divisão de Mato Grosso e a criação de Mato Grosso do Sul. Por isso, é considerado um dos arquivos vivos da cidade: seu acervo reúne imagens que ajudam a compreender as transformações da região.

Para quem não sabe ou ficou longe das notícias nos últimos meses, Roberto Higa enfrenta um câncer de garganta sem possibilidade de cura e, agora, está em cuidados paliativos em casa.
Enquanto o fotógrafo atravessa esse momento, a família se dedica a preservar o que ele construiu ao longo de décadas, garantindo que as imagens continuem acessíveis às próximas gerações.
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(Revisão: Nichole Munaro)














