Em 2005, cerca de 21 famílias indígenas deram início à retomada de um território em Miranda, município localizado a cerca de 200 quilômetros de Campo Grande. Da luta nasceu a Aldeia Mãe Terra, comunidade da etnia Terena que, duas décadas depois, precisou encontrar novas formas de resistência diante das recorrente queimadas no Pantanal.
Agora, a história dessas famílias, suas memórias e a relação construída com o território são contadas no documentário “Chamas da Tradição”, produzido pela jovem cineasta sul-mato-grossense Thauanny Maíra. A obra parte de uma ideia que atravessa toda a narrativa: “Não tem povo sem terra, nem terra sem povo”.
Financiado pela Lei Paulo Gustavo, o documentário transforma a Aldeia Mãe Terra em protagonista. Mais do que registrar os incêndios que ameaçam a comunidade, o filme mostra como o fogo interfere no cultivo, na rotina e na própria sobrevivência das famílias. Diante disso, os moradores encontraram caminhos para se reinventar.
Fogo deixou de ser protagonista
A história da retomada abre o documentário e ajuda a explicar a profunda ligação entre os indígenas e o território onde vivem. Mas, em determinado momento, as chamas passam a ocupar a paisagem e a ameaçar aquilo que foi construído.
“No segundo ato do filme focamos no fogo, como ele chega e acaba com tudo, deixando frágil e complicada a relação do povo com a terra, deixando mais difícil conseguir recursos”, explica a diretora.
A proposta inicial era produzir um documentário sobre os incêndios no Pantanal. Mas, durante as pesquisas e a primeira visita à comunidade, a equipe percebeu que não seria possível contar essa história sem compreender, primeiro, as marcas deixadas pelas queimadas na vida dos povos indígenas.
“Começou a surgir o argumento baseado em como essas queimadas influenciavam direta e indiretamente na terra indígena Mãe Terra, no cultivo, no dia a dia, em tudo. Mas na visita que fizemos, ficou muito claro que o fogo não era o protagonista, a Mãe Terra, com todos os seus personagens, virou a protagonista, então virou um filme sobre essa luta deles contra as queimadas, mas também sobre a retomada e sobre a aldeia em si”, resume.
Brigadas voluntárias
Foi justamente da ameaça que surgiu uma das principais transformações retratadas no filme. Desde 2020, moradores da Aldeia Mãe Terra passaram a formar brigadas voluntárias para impedir que as chamas avancem enquanto aguardam a chegada do Corpo de Bombeiros e das equipes do Prevfogo (Centro Nacional de Prevenção e Combate aos Incêndios Florestais).
Mas as iniciativas da comunidade vão além do combate às queimadas. Outra experiência destacada no documentário é a Escola Quintal, criada com o objetivo de recuperar e fortalecer a cultura Terena.
Semanalmente, moradores se reúnem para praticar costumes que haviam sido perdidos ao longo do tempo ou que sequer chegaram a ser conhecidos pelas novas gerações.
Entre o território, a natureza e os saberes ancestrais, a aldeia tenta preservar aquilo que as chamas não podem consumir.
Histórias para contar
Antes das câmeras serem ligadas, a equipe passou por um processo de pesquisa e aproximação com a comunidade. Em uma visita anterior às gravações, os profissionais conheceram as famílias, a culinária, as músicas, as tradições religiosas e os desejos dos moradores.
As imagens que deram origem ao documentário foram registradas em apenas dois dias. Contudo, a equipe precisou ter paciência diante das condições climáticas, como a chuva.
“A gente teve que se virar do jeito que dava para a chuva não estragar o áudio, para a gente conseguir gravar, não molhar os equipamentos… Mas quando você está fazendo o que ama, qualquer perrengue vira história para contar”, lembra Thauanny.
Parceria no roteiro
Aos 26 anos, Thauanny já acumula experiências no audiovisual. Atualmente morando em São Paulo, onde trabalha como diretora, roteirista e diretora de pós-produção, ela dirigiu o primeiro documentário aos 20 anos: “A Margem é o Centro”, obra sobre o bairro Moreninhas, em Campo Grande.
“Minha ligação com o documentário é conhecer outros pontos de vista, entender mais sobre as histórias, mas também apresentar para outras pessoas, para quebrar um pouco do estigma que elas criam sobre assuntos que não conhecem. O preconceito muitas vezes vem do desconhecimento, e trabalhos como esse ajudam a gente a entender o lado do outro”, afirma.
A experiência na Aldeia Mãe Terra também deixou aprendizados para a equipe. A relação com o território, o cuidado com a natureza e a necessidade de manter vivos os ensinamentos ancestrais estão entre as principais trocas construídas durante a produção.
Exibição
O documentário foi exibido no IFMS (Instituto Federal de Mato Grosso do Sul), no dia 21, no dia 22 na aldeia e na UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul), no dia 24, para alunos da disciplina de Análise Fílmica.
Para o vice-cacique João Leôncio, conhecido como Kambu, o registro audiovisual pode ajudar a preservar uma história que, sem iniciativas como essa, corre o risco de não chegar às futuras gerações.
“A importância desse documentário é que fica registrado para as crianças, que não vão conhecer mais [a história da comunidade], né? Para a preservação da nossa identidade, da língua, dos artesãos, da espiritualidade. Então, isso vale muito para a gente. Espero que grupos vejam e queiram apoiar esse trabalho de resgate da língua, revitalização das nascentes, recuperação das florestas para equilíbrio do meio ambiente”, comenta.
A equipe ainda prevê uma exibição aberta ao público em Campo Grande, com data a ser divulgada. Também estão nos planos sessões em escolas públicas e a inscrição do documentário em festivais no Brasil e no exterior.
O documentário “Chamas da Tradição” foi financiado com recursos da Lei Complementar nº 195/2022 – Lei Paulo Gustavo, do Ministério da Cultura, por meio da Fundação de Cultura de Mato Grosso do Sul (FCMS) – Edital nº 09/2023, órgão do Governo do Estado.
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