Pelas redes sociais, a jornalista sul-mato-grossense Glaura Villalba decidiu desabafar sobre uma parte dolorosa da própria história. Em uma série de vídeos, ela compartilha o testemunho dos sete anos em que esteve em um relacionamento abusivo e explica por que, quase três anos depois do rompimento, decidiu revisitar as lembranças.
“Faz pouco tempo que consegui sair do ciclo. Tudo ainda é muito recente. Porém, de fato, algumas questões estão mais estabilizadas para mim, principalmente o medo de falar sobre isso, a vergonha e a culpa em assumir que não consegui identificar os sinais no início e que tive realmente muita dificuldade para me libertar — isso já aos 39 anos e me considerando uma mulher esclarecida.”
“Escrever sobre o que vivi estava nos meus planos já há algum tempo, mas saber que eu teria de revisitar esses lugares de dor me manteve afastada desse projeto por anos. Hoje, estou mais fortalecida e sinto-me mais segura, além do que, enxergo com mais clareza tudo o que passei.”
A decisão de começar a publicar os relatos também teve um gatilho. Glaura cita a morte da estudante de Direito do Ceará Isabelle Caracristi, caso que ainda é investigado, como o acontecimento que a fez entender que era hora de falar.
Logo, ao decidir expor a própria experiência, Glaura afirma que não pretende atacar ou identificar o ex-companheiro. O objetivo, segundo ela, é chamar atenção para sinais que podem passar despercebidos e para os efeitos da violência sobre quem está dentro desse tipo de relação.
Visitando a dor
“Decidi compartilhar porque pensei: ‘Não é possível que todo esse horror que eu vivi não sirva para mais nada, além de traumatizar. Deve haver alguma forma de transformar isso em força para outras mulheres’. Me enchi de coragem e fiz a minha primeira visita às lembranças de dor. Às vezes, choro e sofro, porque, quando nos dispomos a voltar, tudo parece muito vivo ainda; mas, agora, com consciência e amadurecimento emocional diante do trauma, não encaro o processo de confecção dos meus textos sobre essas experiências como revitimização, e sim como produção de um conteúdo com capacidade para, de alguma forma, alcançar as pessoas que precisa alcançar.”
“Se a minha experiência alcançar uma mulher que ainda não conseguiu dar nome ao que está vivendo ou ajudar alguém a acolher uma vítima sem julgamento, então parte dessa dor terá sido transformada em informação capaz de proteger. Essa é a minha missão: romper o silêncio com responsabilidade, acolher sem culpabilizar e contribuir para a prevenção da violência contra a mulher”, pontua.
Controle na rotina
Em um dos vídeos, a jornalista relembra um episódio ocorrido no início do relacionamento. Ela conta que o ex-companheiro ficou furioso depois que ela se atrasou para um compromisso.
“Me recordo que ele ficou bravo; aquela reação me fez sentir culpa e abria caminho para o controle. Era minha autonomia que incomodava.”
Segundo Glaura, situações como cobranças, isolamento e o chamado “tratamento de silêncio”, quando utilizados repetidamente para punir ou desestabilizar, podem fazer parte de uma dinâmica de violência psicológica.
“Eu pensei que ia ser só mais uma etapa dessa bizarra jornada de viver uma relação abusiva. O efeito desse jogo de controle é fazer a vítima ficar completamente dependente, até se tornar incapaz de tomar qualquer atitude sem antes pedir permissão.”
‘A indignação veio de fora’
Glaura também narra que demorou a compreender a dimensão da violência que estava vivendo. O momento decisivo, segundo ela, veio quando pessoas de fora perceberam marcas de agressão em seu corpo.
“No meu caso, eu só entendi que estava correndo risco de morte quando pessoas de fora viram marcas de agressão em meu corpo e me alertaram: ‘Isso não pode acontecer! Está muito errado’. A indignação veio de fora, entende? Mas a situação já estava muito próxima de ter um desfecho trágico.”
Depois do rompimento, Glaura buscou atendimento e passou a estudar o funcionamento da violência de gênero. Ela relata ter lido livros e acompanhado conteúdos sobre o assunto, além de ter tido contato com psicólogas e assistentes sociais do Ceamca (Centro Especializado de Atendimento à Mulher, à Criança e ao Adolescente em Situação de Violência).
A experiência fez com que ela percebesse a importância de levar informações acessíveis para quem está dentro e também para quem está ao redor de uma vítima.
“Meu esforço agora é traduzir tudo o que aprendi em informações que facilitem o acesso das pessoas a essa compreensão, porque acredito demais que a comunicação clara tem o poder de salvar vidas, e que o nosso silêncio protege somente um lado dessa história: o da violência.”
📍 Onde buscar ajuda em MS
Em Campo Grande, a Casa da Mulher Brasileira está localizada na Rua Brasília, s/n, no Jardim Imá, 24 horas por dia, inclusive aos fins de semana.
Além da Deam, funcionam na Casa da Mulher Brasileira a Defensoria Pública; o Ministério Público; a Vara Judicial de Medidas Protetivas; atendimento social e psicológico; alojamento; espaço de cuidado das crianças – brinquedoteca; Patrulha Maria da Penha; e Guarda Municipal. É possível ligar para 153.
☎️ Existem ainda dois números para contato: 180, que garante o anonimato de quem liga, e o 190. Importante lembrar que a Central de Atendimento à Mulher – 180 é um canal de atendimento telefônico, com foco no acolhimento, na orientação e no encaminhamento para os diversos serviços da rede de enfrentamento à violência contra as mulheres em todo o Brasil, mas não serve para emergências.
As ligações para o número 180 podem ser feitas por telefone móvel ou fixo, particular ou público. O serviço funciona 24 horas por dia, 7 dias por semana, inclusive durante os fins de semana e feriados, já que a violência contra a mulher é um problema sério no Brasil.
Já no Promuse, o número de telefone para ligações e mensagens via WhatsApp é o (67) 99180-0542.
📍 Confira a localização das DAMs, no interior, clicando aqui. Elas estão localizadas nos municípios de Aquidauana, Bataguassu, Corumbá, Coxim, Dourados, Fátima do Sul, Jardim, Naviraí, Nova Andradina, Paranaíba, Ponta Porã e Três Lagoas.
⚠️ Quando a Polícia Civil atua com negligência, má vontade ou comete erros, é possível denunciar diretamente na Corregedoria da Polícia Civil de MS pelo telefone: (67) 3314-1896 ou no Gacep (Grupo de Atuação Especial de Controle Externo da Atividade Policial), do MPMS, pelos telefones (67) 3316-2836, (67) 3316-2837 e (67) 9321-3931.
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(Revisão: Dáfini Lisboa)









