'Tamagúxi': músico de MS transforma melancolia urbana em som sobre saudade Pular para o conteúdo
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‘Tamagúxi’: músico de MS transforma melancolia urbana em som sobre saudade

Filho de um caminhoneiro e de uma costureira, Dovalle lança single nas plataformas musicais
Karina Campos -
Para Dovalle, a música nasce desse contraste entre o desejo de sentir e a dificuldade de lidar com aquilo que permanece. (Divulgação)

O ator, cantor e compositor sul-mato-grossense Dovalle lança, no próximo domingo (5), o clipe “Tamagúxi”, que chega ao YouTube e às plataformas musicais. A obra é marcada pela melancolia urbana, pela memória afetiva e pela busca por conexão em tempos cada vez mais virtuais.

O som é carregado de memórias afetivas de Dovalle, que é filho de um caminhoneiro e de uma costureira. Ele aprendeu sobre o amor atravessado pela saudade, pelas estradas e pelo som dos pedais de uma Singer, a antiga máquina de costura.

Desde menino, quando escolhia a trilha das viagens com o pai, passou a observar histórias, afetos e desencontros que hoje alimentam sua forma de compor. Em sua trajetória, busca construir um estilo próprio, unindo memórias do imaginário popular às novas sonoridades alternativas latino-americanas.

‘Tamagúxi’

Justamente nesse enredo da vivência que “Tamagúxi” mostra uma narrativa que mistura romantismo, desencanto e estranhamento. Conforme o compositor, a letra fala de um amor ferido, de despedidas incompletas e da tentativa de seguir em frente depois de uma decepção.

Além disso, o título faz referência ao Tamagotchi, brinquedo eletrônico japonês que marcou os anos 1990 e simulava uma vida virtual a ser alimentada, cuidada e mantida pelo usuário. Na canção, a palavra ganha a grafia “Tamagúxi”, em uma adaptação afetiva e abrasileirada, aproximando o objeto do universo sonoro e popular construído por Dovalle.

O verso “no lugar que eu tinha um coração, agora eu carrego um Tamagotchi” sintetiza a força simbólica da música, transformando o brinquedo em metáfora para um coração substituído, cuidado e alimentado artificialmente.

“Tamagúxi fala desse lugar em que a gente tenta cuidar de alguma coisa para não olhar diretamente para o que está doendo. O brinquedo aparece como uma metáfora para esse coração que continua pedindo atenção, mesmo quando a pessoa já não sabe mais como amar ou como se despedir”, diz Dovalle.

Clipe gravado em . (Divulgação)

Campo Grande na cena

O clipe amplia essa metáfora ao transformar Campo Grande em cenário e personagem. No calor da capital sul-mato-grossense, o cantor atravessa ruas, bares, comércios e calçadas carregando um Tamagúxi encontrado abandonado na rua. O pequeno objeto passa a funcionar como companhia e espelho de sua própria existência, enquanto ele perambula por uma cidade onde todos parecem alimentar algum tipo de ausência.

A narrativa acompanha um corpo cansado, marcado pelo peso das próprias escolhas, que caminha sem destino definido em busca de algo que talvez nem saiba nomear. Entre telas, gestos ansiosos, olhares dispersos e a sensação constante de estar diante de uma escolha sem retorno, “Tamagúxi” constrói uma reflexão sobre a forma como os afetos têm sido administrados, mediados e, muitas vezes, substituídos por experiências virtuais.

A relação entre Campo Grande e a cultura japonesa, terra natal do Tamagotchi, também atravessa a obra. Sob a arquitetura, os símbolos e as referências que revelam essa presença na cidade, o filme cria uma atmosfera de deslocamento e pertencimento, acompanhando um personagem dividido entre ficção e realidade. O resultado é um retrato sensível de uma capital latino-americana marcada por misturas culturais, memórias urbanas e solidões contemporâneas.

“Campo Grande tem uma solidão muito particular, uma beleza quente, meio rachada, que conversa com essa história. Eu queria que a cidade não fosse só cenário, mas também sentimento. Tem algo nas ruas, nos encontros, nas ausências e nas misturas culturais daqui que ajuda a contar quem esse personagem é”, completa Dovalle.

Equipe

Musicalmente, “Tamagúxi” reúne vozes de Dovalle, produção musical e arranjo de Gleyton Berbet e Silas Zózimo, mix e master de Buguinha Dub, um dos produtores do BaianaSystem, e captação no Jedi / Estúdio 45. A ficha técnica conta ainda com Gleyton Berbet na guitarra base e solo, baixo, sax alto e flauta transversal; Renan Nonato no acordeon; Jonathan Gonçalves na bateria; e Aly Ladislau na percussão.

O videoclipe tem direção de Gabriel Ribeiro, produção executiva de Ályson Jordan Ladislau Gamarra e produção de Gabriela Lima Ferreira, com realização da Fuga Produtora. O projeto também contou com Felipe de Jesus Sampaio como especialista em acessibilidade cultural. A produção foi executada com recursos da Lei Paulo Gustavo, por meio da Prefeitura de Campo Grande e da Sectur, hoje, Fundac, Fundação Municipal de Cultura.

Durante o processo, a equipe enfrentou a perda de Bruno Lira, responsável pelo tráfego pago do projeto. O clipe é dedicado à sua memória.

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(Revisão: Nichole Munaro)

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