“Não tem vítima, tem escolha. Ela escolheu”. Esse é mais um dos comentários feitos nas redes sociais do Jornal Midiamax. A matéria: mais uma mulher vítima de feminicídio.
Todos os dias, em média, quatro mulheres são mortas no Brasil por razões de gênero. De acordo com o monitor de violência contra a mulher, em Mato Grosso do Sul, 16 feminicídios foram registrados desde o começo de 2026. Por trás desses números, existem histórias marcadas por medo, silêncio e, principalmente, violência.
O último caso foi registrado na tarde dessa segunda-feira (27). Terezinha Nantes de Arruda, de 54 anos, foi encontrada morta ao lado do esposo, Joel Escócia Carvalho, de 59 anos, na Vila Bandeirantes, em Campo Grande. O casal estava junto há cerca de 30 anos e a vítima manifestava que desejava se separar. O caso é investigado como feminicídio seguido de suicídio pela 1ª Deam (Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher).
Josefa, Rosana, Nilza, Beatriz, Liliane, Leise, Ereni, Fátima, Marlene, Vera, Olizandra, Graciane, Paula, Rosenilda, Terezinha: todas mortas por razões de gênero.
De acordo com a Subsecretária de Políticas Públicas para Mulheres no Estado, Manuela Nicodemos, a história da sociedade foi baseada no controle da vida e do corpo das mulheres. Ela explica que, em vários lugares do mundo, as mulheres foram dominadas e tiveram seus direitos negados. O silenciamento fez parte da narrativa histórica. “Não nos foi permitido o lugar do sujeito social de direito. Portanto, éramos o segundo sexo”, expõe a subsecretária.
E é esse tipo de controle que faz com que a vítima seja sempre culpabilizada e o agressor inocentado. Manuela desabafa: “É impressionante. Uma mulher é vítima de violência doméstica, familiar, psicológica, sexual, vítima de feminicídio. E, ainda assim, é culpada pela própria morte.”
“Falta de aviso não foi”
Os comentários não são isolados. Eles aparecem repetidamente em publicações sobre casos de violência doméstica, tentativas de assassinato e até feminicídios. “Falta de aviso não foi”, respondeu um leitor. Em vez de questionar a atitude de quem agride, ameaça ou mata, parte da sociedade direciona o olhar para a vítima. O relacionamento que ela escolheu, o tempo que permaneceu naquela situação, a decisão de voltar para o companheiro ou até mesmo o fato de não ter denunciado antes.
Para Manuela, a violência contra a mulher não começa no tapa ou na morte. Ela começa com sutilezas de desvalorizar, humilhar, amedrontar e ameaçar. E quando os primeiros sinais aparecem, a vítima nem sempre os identifica como violência.
Foi justamente esse processo gradual que marcou a trajetória de uma mulher de Campo Grande que teve a casa incendiada pelo ex-companheiro em novembro de 2025, no bairro Tijuca.
O relacionamento, segundo ela, sempre foi conturbado e, mesmo após o término, o homem continuou perseguindo e ameaçando a vítima por meses. Até que, em um dos episódios, colocou fogo no imóvel, que ficou completamente destruído.
“Tem uma mensagem dele pelo Pix dizendo que ele me dava dez minutos para eu estar aqui [em casa], senão iria queimar tudo. Há uns três dias, ele já tinha mandado uma mensagem dizendo: ‘Se você não vir aqui, vou queimar sua casa’. Aí passou, mas dessa segunda vez aconteceu”, detalhou a mulher, com a voz embargada.
‘Mas então por que essas mulheres entram nesses relacionamentos?’ perguntam, sem pensar na vítima. E a subsecretária tem a resposta: “Nenhuma mulher sonha, quando começa um relacionamento, que vai viver na base do medo, da insegurança ou da violência…Em um relacionamento afetivo, a gente busca amor, prazer, liberdade e alegria”.
‘É desses que elas gostam‘
As falas questionam a vítima antes de questionar o agressor e sugerem que, de alguma maneira, essas mulheres mereceram passar pelo sofrimento, além de pressupor que o parceiro romântico é o único capaz de violentar, abusar ou matar uma mulher.
De acordo com os dados do monitor da violência do Sigo, foram 11.419 casos de violência doméstica (última atualização em 19 de julho) registrados até o momento em 2026. Os agressores são cônjuges e namorados, mas também são pais, irmãos e até filhos.
“É muito além do relacionamento afetivo. A gente vem observando um aumento de violência contra as mulheres idosas, praticada por seus filhos, um aumento de feminicídio de filho contra mãe. Então, a violência é de gênero. Ela é misógina”, explica a subsecretária de Políticas Públicas para Mulheres no Estado, Manuela Nicodemos.
Um caso recente acompanhado pelo Midiamax mostra isso. Uma mulher sobreviveu a duas tentativas de homicídio praticadas pelo próprio enteado, de 32 anos, no Jardim Centro Oeste, em Campo Grande. A primeira aconteceu há cerca de dez anos, quando a mulher foi atingida por uma enxadada na cabeça. Mais recentemente, ela sofreu um golpe de facão.
Ao Jornal Midiamax, os familiares revelaram que o homem agrediu outras três parentes anteriormente: ex-companheira, a sogra e a cunhada.
De acordo com a subsecretária, quando uma mulher morre vítima de feminicídio, a falha é de todo mundo. “É uma virada de rosto. É não perguntar se precisa de ajuda. Não ligar para a polícia. É não querer saber como está a vizinha ou por que a professora do seu filho mudou de repente de comportamento.”
‘Comigo vai ser diferente‘
Para sair desse ciclo de violência, é necessário entendê-lo. Embora a polícia seja uma das portas de entrada para a rede de proteção, muitas mulheres procuram ajuda inicialmente com familiares, amigos ou em outros serviços públicos.
Por isso, Manuela defende que profissionais de diferentes áreas, como assistência social, saúde, educação e segurança pública, estejam preparados para acolher e orientar mulheres e meninas em situação de violência.
Uma das iniciativas do Governo de Mato Grosso do Sul voltadas ao enfrentamento da violência contra as mulheres é o Proteja. O programa estadual foi criado por decreto do atual governo e desenvolveu, por inteligência artificial, a assistente virtual “Vitória”, disponível via WhatsApp.
A ferramenta reúne informações sobre políticas públicas e serviços destinados às mulheres, permitindo acesso facilitado em qualquer local com conexão ao aplicativo.
De acordo com a subsecretaria, a assistente virtual orienta sobre programas como o EJA Mulher, para quem deseja retomar os estudos; o Recomeços, voltado ao apoio financeiro para mulheres que deixam casas-abrigo; além de informar sobre a rede de atendimento mais próxima para vítimas de violência ou mulheres com medida protetiva que estejam em situação de risco.
Para ‘conversar’ com Vítória, basta entrar em contato pelo número (67) 3348-6657.
Denuncie
A Central de Atendimento à Mulher – Ligue 180 é um serviço de utilidade pública essencial para o enfrentamento à violência contra as mulheres. O atendimento é gratuito e funciona 24 horas por dia, todos os dias da semana, via telefone ou WhatsApp: (61) 9610-0180.
O Ligue 180 presta os seguintes atendimentos: orientação sobre leis, direitos das mulheres e serviços da rede de atendimento; localidade dos serviços especializados da rede de atendimento; registro e encaminhamento de denúncias aos órgãos competentes.
Vítimas de violência também podem recorrer à Casa da Mulher Brasileira, localizada na Rua Brasília, Jardim Imá, em Campo Grande (MS) – Telefone: (67) 2020-1300. Confira a localização das DAMs, no interior, clicando aqui. Em casos de emergência, deve ser acionada a Polícia Militar, por meio do 190.
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(Revisão: Nichole Munaro)







