O músico Caio César Pereira Nascimento vai a júri popular em Campo Grande pelo feminicídio da jornalista Vanessa Ricarte — ocorrido em 12 de fevereiro de 2025. O juiz Carlos Alberto Garcete, da 1ª Vara do Tribunal do Júri, pronunciou o réu por quatro crimes. O julgamento ainda não foi marcado.
A decisão de Garcete reconheceu que há provas de que Caio cometeu feminicídio, perseguição, violência psicológica e cárcere privado contra Vanessa. Ela foi a primeira vítima de feminicídio de 2025 em Campo Grande — morta a facadas pelo músico.
Conforme a defesa de Caio, feita pelos advogados Renato Franco e Rebeca Cafure, a decisão de pronúncia constitui apenas um juízo de admissibilidade da acusação. “É importante esclarecer à sociedade que pronúncia não significa condenação e a impronúncia, não significa impunidade. A sentença, ora publicada, carece de recurso, tanto da Defesa, quanto do próprio Ministério Público, questão técnica que ainda será analisada”, afirma em nota.
Além dos crimes citados, a Promotoria denunciou Caio pela tentativa de homicídio contra o amigo de Vanessa (que a acompanhava no dia do crime) e pela divulgação de cena de nudez envolvendo a jornalista. Entretanto, o juiz o impronunciou por esses itens — ou seja, reconheceu que não há provas suficientes para enviar essas duas últimas acusações ao júri.
Esfaqueada três vezes
Na madrugada do dia 12 de fevereiro, a jornalista havia ido até a Deam (Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher), acompanhada de um amigo, para registrar um boletim de ocorrência por agressão contra o seu ex-noivo, o músico Caio Nascimento.
Assim, no período da tarde, ela foi até a sua própria residência, acompanhada do mesmo amigo, a fim de pegar os seus pertences. Ao chegar, foi esfaqueada por Caio três vezes na região do tórax.
Na época, ela chegou a ser socorrida ainda com vida e encaminhada para a Santa Casa de Campo Grande, em estado gravíssimo, mas não resistiu e foi a óbito durante a noite.

Vizinho tentou socorrer Vanessa
Na data dos fatos, o Jornal Midiamax conversou com um vizinho de Vanessa, que ouviu toda a gritaria e os pedidos de socorro. Ele subiu na grade do portão da casa dela e, pelo vidro de uma janela, viu Caio desferindo golpes de faca na jornalista.
O morador chegou a gritar com ele para que não esfaqueasse a mulher, mas Caio ignorou. O músico ainda teria partido para cima do vizinho, que estava na grade do portão tentando impedir o esfaqueamento. “Ele tentou vir para cima de mim, mas o portão estava fechado. Nisso, ele foi até ela e a esfaqueou”, relatou a testemunha.
Ainda conforme o relato do vizinho, a PM (Polícia Militar) foi acionada e chegou em menos de cinco minutos. Lá, os policiais arrombaram o portão do imóvel e Caio se entregou. Ele foi preso em flagrante.

Onze registros por violência doméstica
No entanto, Vanessa Ricarte não foi a primeira vítima de Caio Nascimento. Isso porque, naquele momento, ele já acumulava onze registros por violência doméstica. Foi aí que muitas informações sobre o histórico criminal do então músico vieram à tona.
Os boletins de ocorrência começaram a ser registrados contra ele em 2020. Em um dos casos, uma ex-namorada foi parar na Santa Casa depois de ser agredida por ele. A mulher teve queimaduras no rosto e nos braços, causadas pelo que parecia ser fricção no asfalto.
Em 2023, ele teve outro registro na Deam por violência psicológica. Em fevereiro, a ex-mulher de Caio procurou a Deam depois de ser sistematicamente perseguida por ele. Na época, ela contou que conviveu com o autor por aproximadamente 11 anos, sendo que terminaram o relacionamento havia cerca de 2 anos e meio.
A vítima ainda disse que o autor não aceitava o término; que, mesmo ela tendo um relacionamento com outra pessoa, o autor ficava querendo saber da sua vida e onde ela estava morando. O autor a agredia verbalmente, dizendo que ela seria uma criminosa, péssima mãe, um ser humano deplorável, doente e manipuladora, além de fazer ameaças contra ela, dizendo que a vítima não imaginava o que a aguardava.
Uma outra ex-companheira de Caio registrou vários boletins de ocorrência contra ele. Um dos registros foi em 2024, após a separação do casal. Na delegacia, ela disse que conviveu maritalmente com Caio por um ano e que sofria violência psicológica. A mulher havia solicitado medidas protetivas contra o músico.

Postagens de fotos íntimas de Vanessa
Na delegacia, ainda enquanto buscava ajuda, Vanessa chegou a relatar que o ex-noivo havia feito postagens, sem que ela soubesse e sem sua autorização, de fotos íntimas dela no Instagram.
Nas legendas das fotos publicadas por Caio, ele a injuriou, dizendo que a jornalista seria atriz pornô e que estava em uma plataforma de vídeos adultos com vários codinomes.
Conforme o relato de Vanessa, Caio usou de subterfúgio para que ela permitisse que ele a fotografasse nua. Segundo ela, o músico teria dito que a jornalista estava com o corpo todo cheio de hematomas.
Áudios apontaram descaso
Áudios gravados por Vanessa e enviados a uma amiga após a jornalista sair da Deam (Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher) escancararam problemas relacionados aos atendimentos às vítimas de violência doméstica. A fala da vítima apontou descaso e erros grosseiros no atendimento que ela recebeu quando procurou ajuda.
Na época, a jornalista detalhou, pouco antes de ser assassinada, que esperava “chegar com a polícia” para tirar Caio da casa dela. Ela deixou registrado nas mensagens como se sentiu ao ser atendida por uma delegada “fria e seca” na Deam, criada justamente para acolher as mulheres em situação de vulnerabilidade.
A delegada teria se negado a comentar sobre o histórico de agressões do assassino e falado que a vítima “já sabia, porque ele mesmo havia falado de agressões”. “O jeito que ela me tratou foi bem prolixo. Bem fria e seca”, resumiu Vanessa Ricarte.
“Eu, que tenho instrução, escolaridade, fui tratada desta maneira. Imagina uma mulher vulnerável… essas que são mortas”, disse a jornalista em mensagem a uma amiga. “Tudo protege o cara, o agressor”, resumiu.
Descaso da Deam veio à tona
É impossível falar de Vanessa Ricarte sem relembrar os casos de mulheres vítimas de violência doméstica, em sua maioria, que procuraram ajuda na Deam, mas receberam o mesmo tratamento da jornalista. Isso porque todos eles vieram à tona após a morte da Vanessa.
Na época, as postagens do Jornal Midiamax se encheram de comentários de outras vítimas relatando os atendimentos recebidos. Inclusive, em novembro de 2024, mulheres relataram terem aguardado atendimento na Deam por 14 horas.
“A gente vai lá, passa humilhação contando que apanhou — porque tem umas policiais que parece que têm ódio de estar atendendo as mulheres — e sai de lá de mão abanando, esperando apanhar mais ou ser morta”, disse uma das vítimas para o Jornal Midiamax, durante uma entrevista.
“Vou resumir: esses homens estão c*gando e andando para Deam enquanto nos matam. É isso. Essa Casa da Mulher Brasileira não salva uma sequer. Se eles quiserem, matam mesmo”, revolta-se uma idosa que presenciou o martírio de uma neta ao precisar de ajuda para escapar de um perseguidor.

Audiência
Apesar de já ter passado mais de um ano desde o caso, Caio Nascimento, réu pelo feminicídio da jornalista, ainda não foi interrogado. O TJMS (Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul) justificou a lentidão no processo devido aos recursos apresentados.
Inclusive, em uma nota publicada um dia antes do caso completar um ano, o TJ informou que a audiência de instrução e julgamento, na qual era esperado que Caio fosse ouvido, estava marcada para o dia 9 de março, às 14h.
“O processo passou por diversas etapas previstas em lei, como apresentação de defesa, realização de audiências e análise de pedidos feitos pelas partes. Ao longo desse período, foram interpostos vários recursos, o que acabou prolongando a tramitação do processo”, diz trecho da nota.
No entanto, o interrogatório de Caio acabou adiado por falta de extração de dados dos celulares dos envolvidos. Na época, foi dito que uma nova audiência seria marcada para ouvir o réu.

*Matéria editada às 21h para acréscimo de informações.
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(Revisão: Nichole Munaro)






