*Atenção: conteúdo sensível. Alerta para discussões sobre depressão, automutilação ou suicídio.
A 365 quilômetros de Campo Grande, Naviraí é um município pacato que se consolidou como polo regional. Com cerca de 50 mil habitantes, o município está entre os 15 menos populosos de Mato Grosso do Sul. Pequena em comparação com a maioria das cidades do Estado, a cidade preserva a característica de um lugar onde muitos se conhecem e, por isso, cultivam uma sensação de segurança. Essa tranquilidade, porém, foi abalada pela trágica morte de uma adolescente de 13 anos. O caso chocou a população e acendeu um alerta para os perigos que podem estar por trás das telas e das relações construídas na internet.
A menina teve a morte transmitida em uma live no Discord, plataforma criada para interação entre jogadores, mas que passou a ser usada para diferentes fins, entre eles, correntes manipuladas por rede de criminosos, que induzem os adolescentes a extrapolarem os limites da segurança. No caso da garota de apenas 13 anos, que morava em Naviraí, a situação terminou em uma tragédia irremediável, que resultou em morte.
O caso passou a ser investigado pela Polícia Civil e culminou em uma operação contra um grupo criminoso que usava ambientes virtuais para atrair adolescentes, submetê-los à coerção psicológica e incentivá-los à prática de atos de violência extrema, além de divulgar as imagens produzidas.
Durante a ação, foram cumpridos seis mandados de busca e apreensão e um mandado de prisão preventiva contra um suspeito, de 18 anos, no Pará. As medidas foram cumpridas também no Rio de Janeiro, em Minas Gerais e no Ceará. Conforme apurado pelo Midiamax, um adolescente de Aquidauana foi alvo de mandado de internação.
Induzida e enganada
Para a população de Naviraí, todo o desfecho em torno da morte da adolescente reforça o alerta quanto ao uso da internet, das redes sociais e das plataformas disponíveis no campo virtual.
“É preciso filtrar. Cada um de nós tem que filtrar tudo que vê. É o caso dessa menina. Ela foi induzida, enganada. Quem fez isso, fez premeditadamente, usando da tecnologia para o mal. Hoje, nós temos a facilidade de estar ao mesmo tempo sintonizado, conectado com o mundo inteiro, então, é preciso filtrar”, reforça o professor Valdemiro Araújo de Souza, que mora em Naviraí.

Mãe, Luana Priscila Nogueira, que trabalha como vendedora, fala da reação ao saber da morte da adolescente. “Foi um choque para nós que somos mães, que temos filhos dessa idade. Minha filha estava na casa do pai dela, no Rio de Janeiro, e na hora já liguei pra ele e falei: ‘Olha o celular dela, porque ela também joga’. É complicado. Foi chocante pra todo mundo”, frisa.
Luana também destaca que não imaginava que um caso assim pudesse acontecer em Naviraí. “Hoje em dia, a gente vê tanta coisa acontecendo, mas não imaginava isso. Nós, que somos mãe, pai, temos que ficar mais atentos. As crianças dessa idade vivem muito no mundinho delas, e a gente tem que ficar mais atento, cuidar mais, monitorar. Conversei muito com a minha filha e falei que, se ele notar qualquer coisa de estranha, tem que falar, porque hoje em dia eles vivem ali no mundinho deles”, alerta.

A aposentada Lourdes Silva de Souza lembra da tristeza que sentiu ao saber da tragédia. “Eu fiquei muito triste, muito abatida, e eu fiquei sem saber o que dizer para as pessoas, porque aqui em Naviraí, acontecendo isso, é complicado. Eu achei muito triste e ainda mais por saber por que aconteceu. A gente tem que verificar mais certinho os filhos da gente pra não chegar a esse ponto. Essa coisa tão trágica. Sou mãe e eu tenho netos, e a gente fica alertando, falando pra eles, porque não é fácil”, lamenta.

A tragédia também chocou o aposentado Luiz de Santos Rodrigues, que é acostumado com a vida pacata na cidade. “Pra mim, foi chocante um negócio desse. Eu achava que só acontecia fora, mas aconteceu em Naviraí. A gente nunca pensa que pode acontecer perto da gente. Acha que acontece só na cidade grande, mas aqui também acontece. O negócio de joguinho, de jogo da internet. A pessoa tem que saber onde é que mexe nessas coisas de celular; senão, se dá mal”, observa.

Acadêmica de Agronomia, Edna Moreira morava perto da adolescente e lembra de ver a menina brincando na rua. “Ela morava na rua de baixo. Eu a via andando de patins pela rua, não conhecia. Foi um impacto que a gente não esperava. A gente espera que isso aconteça longe, a gente não espera que aconteça na rua de casa. Tão nova e morrer da forma que aconteceu”, comenta.
“Acho que, com tudo isso, fica uma mensagem: protejam os adolescentes; principalmente, vejam as redes sociais, as telas, porque é muito perigoso, é um lugar vazio, que pode se transformar num perigo a qualquer pessoa”, conclui.

Morte da adolescente
A adolescente, de 13 anos, foi encontrada morta na varanda da casa onde morava em Naviraí, no dia 22 de julho. As investigações indicam que a vítima participava de um grupo na plataforma Discord, no qual teria sido induzida a tirar a própria vida. A morte teria sido comemorada em grupos na internet.
Prints de supostas mensagens atribuídas ao grupo passaram a circular nas redes sociais. “Tropinha, isso é oq acontece quando demora tanto pra fazer a p**** de um lulz, o próximo será possivelmente um homicídio…”, descreve uma das mensagens.
Investigações comandadas por equipes da DEPCA (Delegacia Especializada de Proteção à Criança e ao Adolescente) constataram que um grupo criminoso utilizava diversas plataformas para localizar adolescentes em situação de vulnerabilidade emocional, aproximando-se das vítimas e exercendo controle psicológico progressivo.
Durante a ação, foram cumpridos seis mandados de busca e apreensão e um mandado de prisão preventiva contra um suspeito, de 18 anos, no Pará. Um adolescente de Aquidauana foi alvo de mandado de internação.
(Revisão: Dáfini Lisboa)
Onde buscar ajuda?
Em Mato Grosso do Sul, o GAV (Grupo Amor Vida) oferece apoio emocional imediato para pessoas que estão precisando de ajuda por não se sentirem bem e por estarem em crise. O GAV é uma associação civil sem fins lucrativos, fundada no ano de 2001 e com sede em Campo Grande.
A pessoa que está mal e com pensamentos suicidas pode entrar em contato pelo telefone do GAV: 0800 750 5554.
Do outro lado da linha, voluntários estarão em regime de plantão, das 7h às 23h, inclusive sábados, domingos e feriados, para oferecer o apoio.
O GAV garante o anonimato, o sigilo e a não discriminação das pessoas que ligam pedindo ajuda, inclusive a identificação de chamadas está desativada nas operadoras de telefonia.
No nível nacional, outro grupo que oferece apoio é o CVV (Centro de Valorização da Vida), que realiza apoio emocional e prevenção do suicídio, atendendo voluntária e gratuitamente todas as pessoas que querem e precisam conversar.
O CVV disponibiliza canais de atendimento diversos:
- Telefone: disque 188;
- Chat (clique aqui);
- E-mail (clique aqui).









