Um paraplégico, de 28 anos, relata ter sido agredido durante uma abordagem truculenta da PM (Polícia Militar) no final de setembro na Avenida Afonso Pena, próximo à Praça Ary Coelho, na região central de Campo Grande. Ele chegou a ser conduzido para a Depac (Delegacia de Pronto Atendimento Comunitário) Cepol na época dos fatos.
O caso ocorreu na madrugada do dia 20 de setembro. Ao Jornal Midiamax, o rapaz, que não será identificado, informou que seguia em seu carro, acompanhado da namorada, pela Avenida Afonso Pena, quando, em um cruzamento próximo à Praça Ary Coelho, teria se envolvido em um acidente; contudo, não teria provocado maiores danos.
Assim, o condutor do outro veículo, também envolvido na batida, teria acionado uma equipe policial, mas acabou deixando o local do acidente. Quando então os militares chegaram, teriam demonstrado comportamento agressivo durante a abordagem inicial.
“Já veio falando alto comigo para eu descer do carro. Pediram documento do veículo, eu entreguei e aí eu informei que era cadeirante. De começo não acreditaram muito; eu pedi para a minha namorada retirar a cadeira de rodas do porta-malas. Eu desci e eles foram falar com ela”, relatou.
Os policiais pediram para o rapaz realizar teste de bafômetro, no entanto, ele teria se recusado e, a partir disso, começaram a sequência de agressão, que incluiu até o uso de spray de pimenta.
“Pediram para eu fazer o teste de bafômetro e eu recusei, e falaram que eu estava bêbado. Já ficaram mais alterados comigo; eu liguei para o meu advogado e estava com ele na linha. Nisso, veio um por trás e me deu um tapa; meu celular caiu, eu peguei. Veio todo mundo tentar arrancar o celular da minha mão. Já me algemaram com muita violência, usaram spray de pimenta. Me derrubaram da cadeira, me arrastaram um pouco pelo chão e me jogaram na viatura”, contou.
Para a reportagem, ainda, o rapaz afirmou ter ouvido os militares falando sobre as alegações que seriam imputadas a ele no registro do boletim de ocorrência. “No ‘B.O.’ eles falaram que eu estava em zigue-zague na pista, que eu colidi com vários veículos, aumentaram um monte. Falando que resisti, falando que falei que ia ‘sair no soco’ com ele, relatou.
Encaminhado para atendimento médico
Por ser uma pessoa paraplégica, o rapaz precisa de atenção especial, principalmente quando se trata das necessidades fisiológicas. Enquanto aguardava os trâmites necessários na Depac Cepol, ele relata que acabou passando mal e precisou ser encaminhado para atendimento na UPA (Unidade de Pronto Atendimento Médico) do Coronel Antonino, pois os militares não teriam deixado ele ir ao banheiro passar uma sonda.
“Eu avisei que precisava ir ao banheiro; não deixaram e eu comecei a passar muito mal. Minha namorada falou que eu estava passando mal e eles começaram a tirar sarro. Eu comecei a chorar de dor e desacordar, porque estava doendo muito. Eles foram deixar quando eu comecei a gritar de dor. Falaram que ligaram [para o socorro], mas nem ligaram. Chegou o Corpo de Bombeiros e me encaminhou para a UPA do Coronel Antonino. O médico veio, fez acesso e me medicou”, disse.
Após a alta médica, o rapaz voltou para a Depac Cepol. “Deu uns 10 minutos, o policial veio informar da audiência, me levou até o Tribunal de Justiça, onde fiquei aguardando no Fórum. O juiz me liberou e me deu alvará, e falou que iria entrar na Corregedoria contra os policiais. Quando eu consegui pegar meu carro, fui para a Corregedoria, fui encaminhado ao IMOL para fazer o corpo de delito”, finalizou.
Boletim de ocorrência
Em contrapartida, as informações que constam no boletim de ocorrência, formulado pelos militares que atenderam a ocorrência, vão contra as versões apresentadas pelo abordado. Isso porque no registro policial é mencionado que, durante o cumprimento da Operação Sentinela, pela Avenida Afonso Pena, a guarnição foi acionada por populares, os quais informaram que o veículo Fiat/Punto havia colidido com outros veículos e estava transitando em zigue-zague pela via. Momento em que procederam à abordagem.
Assim, durante a entrevista, constatou-se que o condutor apresentava sinais de embriaguez. Sendo questionado acerca do consumo de bebida alcoólica, tendo respondido afirmativamente. Inclusive, os militares solicitaram auxílio de outras guarnições.
Enquanto aguardava a chegada, conforme é relatado, o rapaz teria desacatado a guarnição policial, proferindo as seguintes palavras: “Tira a farda e vem para a porrada. Pode vir seus soldados de merda”. Na sequência, eles mencionam que pediram para que entregassem seu aparelho celular, porém este se recusou a fazê-lo e passou novamente a desafiar a guarnição, dizendo para que os policiais trocassem socos com ele.
Diante da desobediência às ordens emanadas pelos policiais militares, foi dada voz de prisão a ele. No momento da prisão, este ofereceu resistência à ação policial, sendo necessário o emprego de instrumento de menor potencial ofensivo. No veículo foram encontradas uma garrafa de uísque e duas de cerveja, no entanto, não foi informado se os itens estavam cheios ou vazios.
O que diz a PMMS?
Apesar de o rapaz ter informado que procurou a Corregedoria-Geral da PMMS para denunciar os fatos, a corporação informou que:
“A Polícia Militar de Mato Grosso do Sul (PMMS) esclarece que a atuação de suas equipes segue rigorosamente procedimentos operacionais padronizados e a legislação vigente. O uso da força é estritamente proporcional, técnico e escalonado conforme a dinâmica de cada ocorrência, priorizando a segurança de todos os cidadãos.
Pautada pela transparência e pelo respeito à sociedade sul-mato-grossense, a Corporação informa que eventuais denúncias ou pedidos de apuração sobre condutas policiais podem ser formalizados diretamente junto à Corregedoria-Geral da PMMS, canal competente para a instauração de procedimentos e apuração técnica.”
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