Investigação do Ministério Público revelou como quase R$ 10 milhões repassados pelo Hospital Municipal de Sidrolândia para duas empresas foram parar nas mãos de políticos, servidores públicos e diretores da instituição.
Tudo consta no relatório do Gaeco sobre a Operação Dirty Pix, que levou três pessoas para a cadeia: o presidente do Hospital Municipal Beneficente Elmíria Silvério Barbosa, Jacob Breure, a policial civil Cristina Rosa Gomes de Carvalho e o ex-assessor político Júlio César Alves da Silva.
Foram afastados dos cargos os secretários municipais Enelvo Júnior (Desenvolvimento Econômico) e Cleyton Teixeira (Agricultura), além dos vereadores Cledinaldo Cotócio (PSDB), Adavilton Brandão (MDB) e Izaqueu Diniz (PSD).
Os relatórios periciais mostram que as empresas Farma Medical e NSR Comércio (Pharbox), ambas com sede em Manaus, serviram como ponte para a distribuição de propina e lavagem de dinheiro no final de 2022.
O dinheiro é proveniente de convênios públicos que foram utilizados pelo hospital para obras de reforma e compras de suprimentos médicos. No entanto, o MP aponta que o grupo criou uma ‘gordura’ para desviar a maior parte desses recursos.
O caminho do Pix passava por empresas de Manaus

Entre outubro e dezembro de 2022, a Farma Medical — sediada em Manaus — recebeu R$ 3.562.878,43 da Sociedade Beneficente Dona Elmíria Silvério Barbosa, responsável pelo hospital. Nesse mesmo período, a empresa repassou R$ 625 mil diretamente para investigados.
Os investigadores frisaram que os pagamentos de propinas coincidiam com os valores depositados pelo hospital à empresa: “Numa simetria temporal que coincide com o montante considerável de recursos que ela — a Farma Medical — recebeu de hospitais e fundos de saúde vinculados a órgãos públicos, principalmente no Hospital de Sidrolândia. Não restando dúvidas de que os repasses para esses investigados se realizaram apenas e tão somente em razão do pagamento que o hospital de Sidrolândia fez para a empresa Farma Medical”.
Entre os beneficiados pelos repasses da Farma Medical, estão Júlio Cesar Alves da Silva, que recebeu R$ 390 mil; Julia Carla Nascimento, apontada como intermediadora na distribuição de dinheiro a vereadores, com R$ 100 mil; a servidora municipal Adriele Nogueira Trelha (diretora administrativa), com R$ 90 mil; além do vereador Cledinaldo (R$ 25 mil) e o secretário Cleyton (R$ 20 mil).
A segunda empresa utilizada no esquema, a Pharbox, recebeu R$ 6.223.591,70 do hospital. Desse valor, repassou R$ 257,5 mil para Júlio Cesar Alves da Silva e R$ 100 mil para Adriele Nogueira Trelha. A perícia identificou a fragmentação constante dos pagamentos, com múltiplos saques e transferências via Pix sem identificação de remetente ou destino, técnica utilizada para dificultar o rastreamento do dinheiro pelos órgãos de fiscalização.
Renda baixa, movimentação milionária
Os dados bancários apontam forte desproporção entre a renda declarada dos investigados e os valores movimentados. Julio Cesar Alves da Silva exercia o cargo de assessor político com salário de R$ 4,1 mil mensais, mas movimentou R$ 2,4 milhões entre 1º de setembro de 2022 e 31 de janeiro de 2023.
Do total recebido, R$ 390 mil vieram da Farma Medical, R$ 257,5 mil da Pharbox, R$ 100 mil de transferências próprias, além de R$ 12,9 mil de Julia Carla, R$ 10 mil de Adriele, R$ 3,5 mil de Cledinaldo e R$ 1 mil de outro investigado no esquema. Ele ainda repassou R$ 303 mil para outros investigados do grupo.
Já Adriele Nogueira Trelha mantinha o cargo de diretora administrativa municipal com salário de R$ 1,5 mil, mas movimentou R$ 1,4 milhão no mesmo período de cinco meses. Os extratos mostram transações sucessivas entre a servidora, empresas fornecedoras do hospital e outros investigados.
No topo do fluxo financeiro, o então presidente do hospital, Jacob Meeuwis Breure, movimentou R$ 42.856.122,83 entre setembro de 2022 e janeiro de 2023, sendo R$ 20,9 milhões em entradas e R$ 21,9 milhões em saídas.
As análises confirmam que Jacob recebeu R$ 70 mil diretamente da conta de Adriele, integrando a rede de repasses fracionados mantida com recursos da saúde do município.
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(Revisão: Dáfini Lisboa)








