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Transparência

Manobra do MPMS deixa ‘farra dos penduricalhos’ fora do radar que expõe supersalários

Ministério parou de informar dados quando atingiu quase meio bilhão em benefícios
Dândara Genelhú -
MPMS banco de dados judiciário
Ministério Público de MS não publica dados completos há mais de dois anos. (Madu Livramento, Midiamax)

Nos últimos dois anos e seis meses, o MPMS (Ministério Público de Mato Grosso do Sul) deixou de publicar dados claros sobre os pagamentos feitos aos servidores públicos. O ‘apagão de dados’ começou quando o MP atingiu quase meio bilhão de reais em benefícios pagos aos membros. Ou seja, desde 2023, o órgão dificulta a visualização dos salários pagos com dinheiro dos contribuintes.

A constatação é do maior banco de informações sobre remunerações do Poder Judiciário do país, o Dados JusBR. Nos últimos dias, um projeto independente deixou ainda mais evidente a falta de transparência no órgão judiciário de Mato Grosso do Sul.

Plataforma chamada ‘ExtraTeto’ reúne dados sobre os ‘penduricalhos’ pagos ao Judiciário ao longo dos últimos três anos. Assim, o MPMS ficou de fora do ‘limpa’ que expõe remunerações milionárias infladas com as verbas remuneratórias e indenizatórias.

Extrateto mensal é bilionário

Apenas em janeiro de 2026, são R$ 6,7 bilhões em pagamentos acima do teto constitucional. O registro soma valores de 11.759 membros do Judiciário de todo o país.

Desde 2025, o teto constitucional é de R$46.366,19 mensais. O valor corresponde ao salário de ministro do STF (Supremo Tribunal Federal), conforme a Lei nº 14.520/2023. Assim, no primeiro mês de 2026, a média brasileira de valores pagos acima do limite constitucional foi de R$ 51 mil.

Valores nacionais do Judiciário de 2025 dariam para construir quase 200 hospitais. (Reprodução, Extra Teto)

Os valores citados são compilados pela interface gráfica pública com base nos dados do Dados JusBR. Entre os benefícios listados, para membros de Ministérios Públicos, estão:

  • Abono de Permanência
  • Abono Pecuniário de Férias
  • Ajuda de Custo
  • Assistência Médico-Social
  • Auxílio Pré-Escolar (APE)
  • Auxílio-Alimentação
  • Auxílio-Moradia
  • Auxílio-Transporte
  • Compensação de Plantão
  • Contribuição Previdenciária
  • Cumulação Acervo Processual/Procedimental, exercício de ofício, função administrativa ou função relevante singular
  • Cumulações Férias (constitucional)
  • Férias Indenizadas
  • Função de Confiança ou Cargo em Comissão
  • Gratificação Natalina
  • Indenização de Substituição
  • Licença Compensatória Indenizada
  • Licença-Prêmio

Dados incompletos

Apesar de exposto nos últimos dias como um dos oito Ministérios Públicos Estaduais que não atualizam os dados de pagamentos, o MPMS teve a falta de transparência pontuada anteriormente pelo Midiamax. Isso porque o Núcleo de Transparência do Jornal registra a dificuldade na raspagem dos dados há pelo menos dois anos.

O órgão estadual de MS burocratizou a identificação do subsídio de membros. A medida foi adotada após o CNMP (Conselho Nacional do Ministério Público) aprovar resolução que permite identificar interessados na remuneração dos membros.

(Fonte: Dados JusBR)

Enquanto dificulta a visualização dos dados, o MPMS se orgulha de prêmios por transparência. O Selo Ouro em transparência pública chegou no mesmo ano em que o órgão não informou dados por dois meses.

Vale recapitular que foi em 2023, ano referente ao índice que gerou a premiação, que o MP deixou de publicar informações completas sobre as remunerações.

O Jornal Midiamax questionou o MPMS sobre a falta de dados públicos completos, com os nomes dos membros. Contudo, não houve resposta até a publicação desta matéria. O espaço segue aberto para manifestação e esclarecimentos da parte.

‘Na unha’

Desde a adoção de medidas que dificultam a raspagem de dados, o Jornal Midiamax faz uma espécie de análise ‘na unha’. Ou seja, usamos o cruzamento de dados para ‘desvendar’ de quem é a remuneração.

Para identificar os membros que receberam a ‘bolada extrateto’, a reportagem considera o cargo em questão. Logo, busca pela lotação no portal institucional do MPMS. Em seguida, descobre o receptor do pagamento vultoso.

Foi assim que o Midiamax constatou que, apenas em 2025, o MPMS pagou mais de R$ 153 milhões de penduricalhos aos membros do órgão.

População é afetada

Porém, a burocratização da divulgação dos dados atinge parcela interessada no uso do dinheiro público: os contribuintes. Então, o que resta aos cidadãos são as matérias jornalísticas ou o esforço para descobrir os destinatários das remunerações.

A LAI (Lei de Acesso à Informação), nº 12.527/2011, impõe a obrigatoriedade da divulgação dos dados de gastos públicos. Contudo, não existe um padrão estabelecido. Então, projetos como o Dados JusBR visam dar clareza aos registros de publicações pelos órgãos do Judiciário.

Como o MPMS não divulga dados suficientes para raspagem da plataforma pública, o Dados JusBR orienta aos cidadãos o registro de pedidos das informações. Assim, estes podem ser feitos por meio da Ouvidoria do MPMS.

STF adiou julgamento dos penduricalhos

O STF (Supremo Tribunal Federal) adiou para o dia 25 de março o julgamento sobre a suspensão dos chamados “penduricalhos” — verbas remuneratórias que elevam salários do alto escalão acima do teto constitucional.

Durante o próximo mês, uma comissão técnica composta pelos Três Poderes buscará uma proposta de regra transitória para o tema, mantendo-se, enquanto isso, as decisões de suspensão vigentes.

O debate central é a necessidade de regulamentação para conter gastos bilionários. Em Mato Grosso do Sul, o impacto financeiro é expressivo. Somente em 2025, o MPMS gastou R$ 153 milhões com esses benefícios, permitindo que alguns salários atingissem mais de R$ 300 mil mensais, superando o limite legal de R$ 46,3 mil.

Associações de classe defendem as verbas alegando falta de estrutura básica de trabalho, como auxílio-combustível e alimentação.

Como usar o ExtraTeto

A interface gráfica pública expõe remunerações acima do teto constitucional no sistema de Justiça brasileiro. No entanto, para acessar, é preciso fazer uso de algumas linhas de código de programação.

O painel de controle é público e consta no GitHub. (Clique aqui para acessar)

Assim, basta acessar os documentos e seguir os passos do arquivo README.md.

Para ‘rodar os códigos’ é necessária uma plataforma de programação. Opções on-line podem ser utilizadas: é o caso do FireBase Studio, do Google.

Falta de dados de alguns órgãos, como do MPMS, prejudicam panorama nacional de dados. (Reprodução, Extra Teto)

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(Revisão: Nichole Munaro)

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