O juiz Eduardo Lacerda Trevisan, da 2ª Vara de Direitos Difusos, Coletivos e Individuais Homogêneos, pediu aos interventores que atuam no Consórcio Guaicurus, em Campo Grande, que informem à Justiça os pormenores da real situação apurada na empresa que opera o transporte coletivo na Capital.
Em despacho, Trevisan afirma que a determinação quer garantir a transparência aos atos administrativos. O consórcio está sob intervenção desde o dia 16 de junho — cerca de 10 dias. De lá pra cá, os interventores, chefiados pelo advogado Aléxandro de Oliveira, já constataram o caos nas contas da empresa.
Além disso, Oliveira também confirmou que vai investigar a venda da garagem do Consórcio Guaicurus pela metade do preço de mercado para uma empresa controlada pela própria família dos concessionários.
Agora, o juiz pede para que a Prefeitura de Campo Grande junte relatórios quinzenais nos autos do processo que pediu a intervenção e também informe oficialmente sobre a medida ao juiz e ao MPMS (Ministério Público de Mato Grosso do Sul).
Conforme a legislação, essa comunicação formal da intervenção evita que o procedimento perca a validade. Então, a prefeitura deve comprovar as causas e responsabilidades da interferência no transporte coletivo de Campo Grande.
Caso o procedimento seja anulado, o serviço volta para as mãos do Consórcio Guaicurus imediatamente. Os interventores têm prazo de seis meses para atuar no contrato.

‘Saco sem fundo’ nas contas do Consórcio Guaicurus
Após o decreto de intervenção, a equipe de interventores acessou as contas e um primeiro levantamento pode revelar o ‘saco sem fundo’ na contabilidade da concessionária. Ao Jornal Midiamax, o interventor-chefe revelou o caos financeiro deixado pelos donos do Consórcio Guaicurus.
“A gente já tinha conhecimento dessa situação financeira. Agora, precisamos saber o porquê desse malabarismo, por que chegou a esse ponto?”, diz, demonstrando preocupação sobre como as finanças eram conduzidas pelos gestores — suspensos dos cargos durante os 180 dias da intervenção.
Outro ponto sendo tratado com prioridade é entender por que esse serviço estava sendo feito de forma tão precária nas mãos dos donos do Consórcio Guaicurus. “Temos que entender por que isso vinha acontecendo. São detalhes na operação que podem melhorar situações operacionais que poderiam ser mais adequadas e melhorar o processo. Tudo isso constará no nosso relatório”, concluiu.
No decorrer da comissão, a equipe da prefeitura revelou que, mesmo com R$ 70 milhões em repasses, o Consórcio Guaicurus estaria à beira da falência.
Venda de garagem pela metade do preço
O interventor-chefe também confirmou que vai investigar a venda da garagem do Consórcio Guaicurus. O imóvel teria sido repassado pela metade do preço de mercado para uma empresa controlada pela própria família dos concessionários.
À reportagem, Aléxandro disse que seu relatório sobre a situação do Consórcio Guaicurus vai contemplar o caso. “Isso está na pauta. Temos que analisar a congruência dessas alegações, a natureza dessa negociação, se prejudicou o contrato e o município”, destacou.
A denúncia apresentada à Justiça pelo autor da ação popular do processo de intervenção, Lucas Gabriel de Sousa Queiroz Batista, coloca sob suspeita a venda da principal garagem da concessão, da Viação Cidade Morena.
Conforme os autos, o imóvel localizado na Avenida Gury Marques é onde funciona a sede administrativa do Consórcio Guaicurus e foi vendido pelo valor de R$ 7,7 milhões à Pauma Empreendimentos, empresa do interior de SP que pertence aos mesmos sócios das empresas de ônibus de Campo Grande, todos da família Constantino.
Ocorre que a documentação contábil do Consórcio apontava que o imóvel de 40,5 mil metros quadrados era um ativo imobilizado da empresa no valor de R$ 14,4 milhões — no valor líquido de R$ 11,1 milhões após desconto de depreciação.
Para o autor da ação, trata-se de fraude por simulação de venda, já que a empresa compradora possui o mesmo quadro societário do Consórcio Guaicurus.

Consórcio sob intervenção
No dia 16 de junho, a prefeita Adriane Lopes (PP) decretou a intervenção no Consórcio Guaicurus. A concessionária detém o contrato bilionário para explorar o transporte público de Campo Grande desde 2012 e, de lá para cá, é alvo de reclamações constantes de passageiros.
O Consórcio já havia sido alvo da CPI na Câmara de Campo Grande, em 2025, que recomendou a intervenção.
Então, a equipe de intervenção, chefiada pelo advogado Aléxandro de Oliveira, assumiu a gestão do conglomerado do ônibus de Campo Grande.
Agora, o grupo ficará na gestão do Consórcio por 180 dias. Ao fim, será elaborado um relatório sobre a situação da concessionária e a prefeita irá tomar decisão. Uma das possibilidades é decretar a caducidade da concessão (encerramento do contrato por culpa do Consórcio Guaicurus) e o município reassumir o serviço.
O Jornal Midiamax já revelou que estudo sobre uma possível nova licitação será iniciado pela Prefeitura e prevê exigência de ar-condicionado nos ônibus, além de parte da frota movida a gás e biogás.
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