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Polícia

Resíduos de tiro nas mãos de Jazbik ajudaram a derrubar tese de suicídio de Fabiola Marcotti

Perícia testou diferentes dinâmicas para o disparo e concluiu que a fisioterapeuta foi vítima de feminicídio
Lethycia Anjos -
Caso Fabíola Marcotti
Fabíola Marcotti,(Reprodução)

Resíduos de disparo de arma de fogo encontrados na mão do médico João Jazbik Neto, de 78 anos, indiciado por feminicídio, foram um dos elementos que ajudaram a PCMS (Polícia Civil de Mato Grosso do Sul) a derrubar a tese de suicídio apresentada pela defesa do réu. O laudo soma às páginas do diário onde a vítima, a fisioterapeuta Fabiola Marcotti, 51, narrou uma rotina de medo e violência que antecederam o crime.

Ao longo da investigação, os policiais reuniram análises das armas apreendidas na residência, o confronto balístico de um projétil encontrado no imóvel e os vestígios registrados na cena do crime. Conforme o laudo elaborado pelo Instituto de Criminalística, a combinação dessas provas levou a Polícia Civil a concluir que Fabiola foi vítima de feminicídio no dia 18 de maio.

Um dos exames realizados durante a pela perícia buscou identificar partículas microscópicas associadas ao disparo de arma de fogo nas mãos das pessoas envolvidas no caso.

A análise, feita por MEV (Microscopia Eletrônica de Varredura), identificou vestígios na mão direita de João Jazbik, resultado que indica que ele havia efetuado um disparo ou manuseado uma arma de fogo. Já nas mãos de Fabiola, a perícia identificou apenas chumbo, elemento que, isoladamente, não indica o disparo de arma de fogo. O resultado ajudou a investigação a contestar a versão inicial de que ela teria atirado contra si mesma.

Dois funcionários do casal, Elodir Hofmann e Geovane Garcia Abbegg, também tiveram amostras coletadas e analisadas, mas nenhum resíduo foi identificado.

Como o exame identifica o autor de um tiro?

A técnica utilizada é considerada uma das mais precisas para a identificação desse tipo de vestígio. Segundo o pesquisador da UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul) Guilherme Cioccia Neves, autor do artigo ‘Elaboração de protocolo para identificação de resíduos de disparo por arma de fogo’, o MEV é considerado o “padrão-ouro” para esse tipo de identificação, por apresentar alta precisão e uma taxa mínima de falsos positivos.

O método permite analisar o formato característico das partículas residuais. Ele explica que, associado ao espectrômetro de energia dispersiva (EDS), equipamento capaz de identificar a composição química do material, o exame também confirma a presença de elementos como chumbo, bário e antimônio.

“Trata-se de um método pericial extremamente rigoroso que, aliado a características química de um disparo por arma de fogo, torna praticamente impossível que não seja encontrado nenhum resíduo na mão de quem de fato realizou o disparo”, afirma o pesquisador.

A presença de resíduos na mão do médico, somada à ausência dessas partículas nas mãos da vítima, passou a integrar o conjunto de elementos técnicos usados pela investigação para reconstruir a dinâmica da morte.

Revólver e projétil ajudaram a reconstruir disparos

Entre os materiais examinados estava o revólver Smith & Wesson calibre .357 encontrado na cena onde Fabiola foi localizada. A arma passou por perícia, assim como outras armas e munições apreendidas na residência.

Durante a análise do imóvel, os peritos também encontraram um projétil alojado atrás de um quadro. O material foi submetido a confronto balístico, que apontou que ele havia sido disparado pelo mesmo revólver calibre .357 apreendido na cena.

A análise genética confirmou ainda que o projétil continha vestígios biológicos de Fabiola, demonstrando que a bala atravessou o corpo antes de atingir a parede. Já a trajetória do disparo também foi reconstruída manualmente e por meio de um scanner tridimensional. Os dois métodos indicaram que o tiro partiu de uma região à frente do sofá.

Perícia testou três possibilidades para a cena

Caso Fabíola Marcotti
Quadro atingido por tiro (Reprodução, Laudo do IC)

Para verificar se Fabiola poderia ter efetuado o disparo e terminado na posição em que o corpo foi encontrado, os peritos reconstruíram três possíveis dinâmicas para a cena.

Um dos principais pontos foi a trajetória da bala. A análise mostrou que o projétil seguiu de baixo para cima e da esquerda para a direita, partindo de uma região em frente ao sofá.

Com cálculos e um scanner 3D, os peritos estimaram o ângulo do disparo entre 31,6 e 47,8 graus. Mesmo na maior inclinação, a arma estaria a cerca de 40 centímetros do chão se estivesse próxima à posição final da cabeça de Fabiola.

Para a perícia, essa dinâmica não era compatível com a vítima sentada, em pé ou sentada no sofá com a arma apontada para a própria cabeça.

As três simulações também apresentaram inconsistências. Em uma delas, por exemplo, Fabiola estaria em pé, faria o disparo, deixaria a arma cair e cairia sobre ela. A possibilidade não correspondeu à trajetória da bala, à altura do impacto no quadro e às manchas de sangue encontradas no local.

Nas demais reconstruções, a posição do corpo, das mãos e da arma também não coincidiu com todos os vestígios da cena. Ao final, nenhuma das três possibilidades conseguiu reproduzir integralmente a dinâmica encontrada no quarto.

Vestígios indicaram que corpo pode ter sido movido

Caso Fabíola Marcotti
Trajetória do disparo (Reprodução, Laudo do IC)

A perícia encontrou ainda manchas de sangue na face e no pescoço de Fabiola que indicavam uma mudança na posição do corpo após o sangue ter sido projetado. Segundo a análise, o padrão de escorrimento mostrava que, em algum momento, a parte superior do corpo ficou mais baixa que a inferior, levando a perícia a concluir que o corpo havia sido movido após o crime.

Também foram encontradas manchas de sangue nas paredes que, conforme o laudo pericial, indicavam a ocorrência de múltiplos golpes na cabeça causados por objeto contundente.

Os ferimentos analisados foram outro ponto que chamou a atenção. No documento, a perícia destacou que eles não apresentavam características esperadas em disparos feitos com a arma encostada ou próxima ao corpo. Ainda foi identificado um afundamento na lateral esquerda do rosto, considerado incompatível com um disparo provocado pela própria vítima.

A arma encontrada sob o corpo também passou por análise. Além de fios de cabelo na extremidade do cano, os peritos encontraram cabelos presos no tambor, situação considerada incomum e que, segundo a análise, indicava uma manipulação atípica da arma.

Embora a defesa do acusado conteste as investigações, os elementos encontrados na cena levaram a polícia a apontar indícios de que o local teria sido modificado para sustentar a versão de suicídio. Por causa dessa suspeita, João Jazbik Neto também foi indiciado por fraude processual. Ele está preso e responderá por crime de feminicídio, violência psicológica e posse irregular de armas.

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