*Atenção: conteúdo sensível. Alerta para discussões sobre depressão, automutilação ou suicídio.
A menina de 13 anos que teve a morte induzida por grupo extremista no Discord foi matriculada em escola de Naviraí, distante 365 quilômetros de Campo Grande (MS), exatamente dois meses antes da morte. Descrita como “quietinha”, “tranquila” e “introvertida”, a garota já tinha feito amigos após chegar da Espanha, onde morava com o pai até maio de 2026. Ela teria voltado ao Brasil para ficar mais perto da mãe, pouco antes da tragédia que comoveu o país.
O comportamento dela não levantou suspeitas entre professores e alunos, porque a violência sofrida era silenciosa. Segundo a polícia, um grupo de adolescentes, com ideologia neonazista e misógina, atraía meninas emocionalmente vulneráveis para submetê-las a dinâmicas de dominação, extremismo e mutilação. Na madrugada de 22 de julho, a adolescente participou de uma transmissão ao vivo no Discord, que terminou com a morte dela.
Férias escolares e isolamento
Ao Jornal Midiamax, colegas da menina contaram que ela era muito gentil, não demonstrava sofrimento e falava pouco sobre si mesma. “Sempre estava com sorriso no rosto, bem alegre”, recorda-se uma estudante da mesma escola. Vale lembrar que ela morreu durante as férias de julho, quando os crimes virtuais contra menores aumentam.
Outra amiga afirma que a garota se enturmou rapidamente, apesar de ser uma pessoa “fechada”. Na escola, o clima é de consternação. “Eu fiquei sentida, bem triste. Familiares e amigos, ficamos muito abalados”, desabafa. Mesmo próxima da jovem, a aluna nem sequer sabia o que era Discord. “Queria dizer para os pais serem mais próximos dos filhos, ter cuidado e ver certinho o celular. É muito perigoso.”


Sofrimento silencioso
O gerente municipal de Educação de Naviraí, André Santana Vieira, diz que a garota não se adaptou na Espanha porque queria ficar mais perto da mãe. Dessa forma, a menina de 13 anos se mudou para a cidade em maio, começou a estudar no dia 22 daquele mês e entrou de férias em 15 de julho. “Até então, não houve nenhum diagnóstico por parte da escola em relação a alguma situação nesse período”, revela Vieira.
Diretor da escola onde a menina estudava, Everton Araujo confirma que a morte da aluna abalou as estruturas da instituição de ensino, mesmo nas férias. “Nós não acreditávamos, porque era uma menina tranquila, apesar de ela ter passado pouco tempo com a gente”, relata. Ele chegou a duvidar da veracidade da notícia quando recebeu o aviso por mensagem. “Não demonstrava nada, nenhum traço que poderia fazer isso.”
O diretor afirma que os professores são preparados para conversar com estudantes que demonstram sinais de depressão ou outras questões de saúde mental, mas lamenta que não tenham percebido sinais de alerta na menina. “Acontece em todas as escolas, às vezes, de crianças se automutilarem. E, quando acontece isso, a gente percebe e os professores já encaminham esse aluno para a gente conversar e falar com a família”, explica.

No retorno, silêncio
O diretor Everton Araujo descreve a adolescente como “uma boa aluna”, “tranquila” e “uma aluna comum” nesse pouco tempo de convivência na escola. “Com os amigos, também nunca comentou nada sobre o assunto; então, infelizmente, foi uma fatalidade que a gente não esperava”, afirma.
A preocupação com os estudantes foi redobrada na volta às aulas após a morte, que ocorreu em 22 de julho. O diretor da escola acredita que os dias de férias ajudaram os estudantes e professores a digerir o que ocorreu. “Deu tempo de processar, porque foi logo no início das férias. Então, não teve muita conversa dentro da sala sobre o assunto”, explica o educador.
No entanto, dois alunos procuraram os professores para falar sobre o caso reservadamente. “O professor aconselhou, falou que infelizmente aconteceu, para eles terem cuidado nessa questão de redes sociais”, conclui. A prefeitura pretende também realizar palestras às crianças e aos professores nesta escola.
Naviraí quer levar palestras às escolas
“Não é uma realidade de Naviraí. É uma realidade que está em praticamente todos os lares do nosso município, do Estado, do país, talvez até mundial”, destaca o gerente municipal de Educação sobre a vulnerabilidade de adolescentes. Depois da morte da menina, a prefeitura estuda realizar uma série de palestras para professores, pais e alunos.



“Nós temos uma professora que tem especialização na educação parental, que estudou para isso e consegue conversar diretamente com as famílias. Então, uma das palestras já está certa. Nós vamos organizar esse trabalho em todas as escolas da rede do nosso município, do ensino fundamental”, diz André Santana Vieira.
A Secretaria de Educação também pretende levar às escolas um especialista para ensinar formas adequadas de monitoramento dos filhos, controle de tempo de tela e plataformas. “O importante é o responsável entender que a ação dele é monitorar esses acessos nessas plataformas digitais e controlar esse acesso.” No entanto, esse palestrante de perfil técnico, com experiência em plataformas digitais, ainda não foi definido.
Profissionais da educação podem ser aliados na identificação de vulnerabilidades emocionais e sociais em crianças e adolescentes. “Eu acredito que somente a escola não vai conseguir, infelizmente, evitar novos casos. Mas um conjunto de ações, de políticas públicas e ações mais rígidas de controle nas plataformas pode reduzir os índices”, conclui André Santana Vieira.


Aliciamento, vulnerabilidade e rituais de violência
Em coletiva de imprensa, a Polícia Civil revelou que, para ganhar “respeito” na hierarquia do grupo e fama nas redes, as vítimas eram submetidas a rituais de violência e auto violação. Entre as tarefas dadas, elas tinham de se automutilar e deixar os nomes dos ‘donos’ no próprio corpo.
As apurações apontam que o grupo utilizava plataformas como Discord e Telegram para disseminar discurso de ódio e exigências de maus-tratos a animais e abusos mentais. A adolescente também teria sido induzida a tirar a vida de quatro gatos; no entanto, não teria conseguido.
Tempos depois, o mesmo grupo criminoso, já em outra chamada, fez com que a adolescente tirasse a própria vida. Inclusive, os integrantes teriam comemorado a morte entre eles. O servidor teria sido derrubado após denúncias do Carpe Diem — grupo de hackers éticos que ajuda a polícia.
Seis mandados de busca e apreensão foram cumpridos em vários estados, sendo cinco adolescentes apreendidos e um maior, de 18 anos, que foi preso. Um adolescente de Aquidauana fazia parte do grupo. As investigações continuam, e o grupo responderá por organização criminosa, lesão corporal, homicídio por coação e maus-tratos a animais.

Discord admite falhas
A plataforma Discord admitiu falha no sistema de proteção, que demorou cerca de duas horas para derrubar a live que causou a morte de menina em Naviraí.
Entre o início da transmissão, à 1h20, e a morte da jovem, foram quase duas horas em que a plataforma poderia tê-la tirado do ar. Segundo o Discord, o primeiro aviso de risco foi às 2h50 e a retirada foi às 3h15.
A ANPD (Agência Nacional de Proteção de Dados) determinou que as transmissões ao vivo sejam suspensas pelo Discord. O aplicativo respondeu que classificou a decisão como “prematura”.
Em relatório, o Discord também afirmou que os criadores do servidor podem ter “mascarado” a intenção, por meio de nomes e comunicações em texto. Segundo ele, uma mudança poderia comprometer a atuação automatizada.
A AGU (Advocacia-Geral da União) declarou que recebeu proposta com as medidas do Discord, nesta terça-feira (11). O relatório apontou falhas na proteção de menores de idade nos mecanismos da plataforma.
Onde buscar ajuda?
Em Mato Grosso do Sul, o GAV (Grupo Amor Vida) oferece apoio emocional imediato para pessoas que estão precisando de ajuda por não se sentirem bem e por estarem em crise. O GAV é uma associação civil sem fins lucrativos, fundada no ano de 2001 e com sede em Campo Grande.
A pessoa que está mal e com pensamentos suicidas pode entrar em contato pelo telefone do GAV: 0800 750 5554.
Do outro lado da linha, voluntários estarão em regime de plantão, das 7h às 23h, inclusive sábados, domingos e feriados, para oferecer o apoio.
O GAV garante o anonimato, o sigilo e a não discriminação das pessoas que ligam pedindo ajuda, inclusive a identificação de chamadas está desativada nas operadoras de telefonia.
No nível nacional, outro grupo que oferece apoio é o CVV (Centro de Valorização da Vida), que realiza apoio emocional e prevenção do suicídio, atendendo voluntária e gratuitamente todas as pessoas que querem e precisam conversar.
O CVV disponibiliza canais de atendimento diversos:
- Telefone: disque 188;
- Chat (clique aqui);
- E-mail (clique aqui).
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(Revisão: Dáfini Lisboa)









