“Seu pedido saiu para entrega”, diz a mensagem preferida de quem é adepto às compras on-line. No entanto, esse aviso esconde uma “maratona” de procedimentos que precisam acontecer antes que a compra chegue à casa do consumidor. As condições de trabalho impostas a motoristas que realizam essas entregas pela plataforma Shopee são alvo de denúncia feita ao Jornal Midiamax.
A reportagem ouviu relatos de três trabalhadores que realizam o serviço terceirizado. Eles procuraram a equipe de reportagem para expor uma realidade que inclui rotina de trabalho com início às 3h da manhã e falta de reajuste dos valores pagos por rota há cerca de três anos.
Por medo de sofrerem represálias e perderem a fonte de renda, os trabalhadores não serão identificados.
“Às vezes eles combinam o horário da gente estar lá [no Centro de Distribuição] às 5h da manhã, só que a gente sai de lá às 8h, 9h da manhã, esperando pela demora da logística. Mas não somos CLT [funcionários de carteira assinada], né? Eles não avisam quando tem atraso e, quando avisam, é em cima da hora, para fazer as pessoas estarem lá e terem que esperar”, conta um dos motoristas.
Rotina exaustiva
Outro trabalhador relata que a rotina imposta é insustentável, já que eles têm das 3h às 4h da manhã para aceitar ou não, via aplicativo da empresa, a rota que farão no dia. Depois disso, precisam comparecer às 5h no CD (Centro de Distribuição) para aguardar o recebimento das mercadorias a serem entregues.
“A gente tem uma hora pra aceitar a rota, ou seja, eles disparam às 3h da madrugada e aí a gente tem até às 4h para aceitar. Se a gente não aceitar, a rota vai passar para outra pessoa”, detalha o motorista.
“Se uma pessoa acordar às 3h da madrugada e vir que não recebeu rota, ela precisa acordar de novo às 4h da madrugada e esperar que um dos analistas envie uma rota para ela, ou seja, ela tem que ficar acordada ou deixar o celular fora do mudo para que ouça na hora que receber a mensagem, acordar e aceitar a rota”, completa.
Os entregadores afirmam que essa situação gera grandes prejuízos ao descanso e ao sono dos trabalhadores, já que eles passam o dia inteiro realizando entregas. Dormir cedo não é uma opção para a maioria deles, que têm família, estudos e outras demandas para lidar.
Restrição na circulação
Outro problema é uma exigência destinada aos motoentregadores, que precisam empurrar o veículo carregado de mercadorias dentro do CD.
Conforme os relatos, os motoentregadores precisam entrar com os veículos no galpão onde ficam os produtos. O espaço é muito grande e comporta a circulação de veículos, no entanto, essa circulação não pode ser feita com os motociclistas montados nas motos, mas sim empurrando as motocicletas.
A eles, a empresa alega que é uma questão de segurança. No entanto, empurrar as motos por vários metros, principalmente carregadas de entregas, representa risco de quedas e acidentes — afinal, eles manobram um veículo pesado.
“Quando a gente entra dentro do galpão da Shopee, eles obrigam a gente a desligar a moto, descer dela, tirar o capacete e colocar o capacete onde for, e ir empurrando a moto até a mesa onde a gente vai carregar. Depois que você carregou, guardou todos os seus pacotes no baú, a gente tem que empurrar a moto por cerca de 50 metros pra poder chegar na rampa de descida [do galpão] e, só então, depois da rampa, a gente pode subir na moto, ligar e sair”, detalha o motoentregador.
Confira abaixo todas as questões apontadas pelos motoristas entregadores da empresa de compras on-line.
Problemas apontados pelos motoristas
1 – Falta de respeito ao tempo de descanso dos trabalhadores, que precisam aceitar a rota de entregas às 3h da manhã, com início real da jornada por volta das 5h da manhã.
2 – Atraso na saída para entregas devido ao tempo de espera pelas mercadorias no Centro de Distribuição, já que os motoristas chegam ao local às 5h, mas muitas vezes são liberados entre as 8h e 9h da manhã.
3 – Falta de reajuste no valor pago pelas rotas e pela entrega de pacotes há cerca de 3 anos.
4 – Exigência de empurrar a moto carregada dentro do galpão do Centro de Distribuição, gerando desgastes físicos desnecessários e sob o risco constante de quedas e acidentes.
5 – O canal de suporte não apresenta respostas objetivas nem solução para as dúvidas sobre alocação dos terceirizados.
O que disse a Shopee
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(Revisão: Nichole Munaro)







