A Copa do Mundo de 2026 começou na última quinta-feira (11) e estabeleceu o marco de ser a maior edição do torneio, com 48 seleções. Realizada no México, nos Estados Unidos e no Canadá, a competição reúne quatro países estreantes, sendo eles Cabo Verde, Curaçao, Jordânia e Uzbequistão. Um deles chama a atenção por um fato inusitado: apenas um dos 26 convocados de Curaçao nasceu no país.
Os outros 25 jogadores chamados para integrar o elenco do país nasceram na Holanda, o que equivale a 96% do time. O único a nascer em solo curaçauense é o atacante Tahith Chong, de 26 anos, que atua no Sheffield United, da Inglaterra. A história dos dois territórios é interligada e teve início no século 16, período de colonização dos países europeus sobre as nações das Américas.
História do país
Curaçao é um país localizado nas Pequenas Antilhas, no sul do mar do Caribe, na América Central. A seleção do país se classificou para sua primeira Copa do Mundo pelas Eliminatórias da Concacaf após liderar o Grupo B, com Jamaica, Trinidad e Tobago e Bermudas.
O professor de História Ian Rari explica que a relação entre Curaçao e Holanda começou durante a expansão comercial do país europeu, que tomou o país da Espanha. “Curaçao, inicialmente, era uma colônia da Espanha. Por volta do século 16, século 17, a Holanda começa a ter uma expansão muito grande no [âmbito] comercial; Holanda e Inglaterra viram as grandes potências do mercantilismo, e a Holanda toma esse território da Espanha.”
Assim como a relação entre Portugal e Brasil, a colonização holandesa deixou marcas na cultura e nos costumes de Curaçao. “É a mesma relação que a gente verifica entre Brasil e Portugal; você não perde nunca esse laço colonial. A dominação se faz também nesse sincretismo. Então, existe toda uma influência de arquitetura na capital de Curaçao, em Willemstad, até tem relação com o nome, em holandês, tudo muito colorido, parecido com Amsterdã. Tem influência na língua, nas tradições do direito de Curaçao”, afirma Ian.
Colônia ou independente?
Apesar de ainda manter laços com a Holanda, Curaçao conquistou sua independência em 2010. O professor explica que o país possui autonomia em determinados aspectos, como governo, constituição e moeda próprias, mas integra o Reino Unido dos Países Baixos.
“É semelhante à situação, por exemplo, de Escócia, Irlanda do Norte e Gales com a Inglaterra. Cada um desses países tem governo próprio, tem as suas particularidades, a sua parcial autonomia, mas eles vinculam em alguns pontos em comum”, explica. Por isso, o chefe de Estado de Curaçao é o rei da Holanda, Guilherme Alexandre, assim como as questões de política externa e de defesa nacional curaçauense são regulamentadas pela Holanda.
Devido ao vínculo, todo cidadão nascido em Curaçao possui cidadania holandesa. Com isso, os nativos possuem passaporte para a União Europeia e têm mais facilidade em migrar para a Holanda. A situação se assemelha à Guiana Francesa e à França, por exemplo.
“Isso facilita demais esse intercâmbio. O cara que nasce na Holanda e não tem, talvez, nenhum espaço na seleção, é um jogador de segunda, terceira categoria, uma possibilidade dele defender uma seleção nacional é Curaçao. É uma abertura muito interessante, explorada também no âmbito do esporte”, completa o professor.
Reforço das origens ou afastamento da identidade?
A convocação de quase todos os jogadores nascidos em outro país abre margem para um debate sobre a representatividade da nação na Copa. O professor de História opina que há argumentos tanto para reforço das origens dos jogadores como para o afastamento da identidade curaçauense. No entanto, ‘colocar o país no mapa’ tem um peso maior, ainda mais pela participação no principal torneio de futebol do mundo.
“Eu acho que acaba sendo um reforço da identidade, porque, por mais que o cara seja holandês, ele está representando a bandeira de Curaçao, e nós estamos aqui falando de Curaçao nesse momento. Com isso, a gente acaba querendo estudar um pouquinho da cultura do país, por exemplo”, argumenta Ian.
O fato se torna uma espécie de “imperialismo reverso”, quando o holandês vai representar a bandeira de Curaçao, mas “o mundo não vai estar falando da Holanda em especial, mas de Curaçao”.
Incentivo de um ídolo
A seleção de Curaçao também contou, em 2015, com uma breve passagem de Patrick Kluivert, ídolo holandês, como treinador da equipe. O ex-atacante da seleção holandesa abriu portas para o time no período pós-independência, apesar de não ter tido muito sucesso.
Filho de mãe curaçauense, ele ficou à frente do país por oito jogos e depois virou técnico do time Sub-19 do Ajax, da Holanda. Kluivert comemorou a classificação de Curaçao à Copa e disse que está “muito orgulhoso dos jogadores”.
Menor nação da história
Antes mesmo de estrear na Copa do Mundo de 2026, neste domingo (14), contra a Alemanha, Curaçao já alcançou um marco histórico. O país será o menor em população, com cerca de 185 mil habitantes a disputar a competição. A seleção está presente no Grupo E, que ainda conta com Costa do Marfim e Equador.
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(Revisão: Nichole Munaro)






