Como artistas de diferentes partes do Brasil enxergavam Mato Grosso do Sul pouco depois de sua criação? A resposta está em 92 hinos que passaram quase cinco décadas longe dos olhos do público. As composições, reprovadas no Concurso Nacional de Símbolos do Estado, realizado em 1978, agora estão reunidas em uma exposição no Memorial de Cultura, em Campo Grande.
Intitulada “Muito Além do Acorde Final – Ensaios e Versos do Hino Sul-Mato-Grossense”, a mostra apresenta documentos inéditos encontrados pelo Arquivo Público Estadual. As letras e partituras revelam diferentes olhares sobre o território que acabava de nascer, com versos que exaltam as riquezas naturais, os rios, a fauna, a flora e as paisagens sul-mato-grossenses.
A visão de Mato Grosso do Sul expressa nos trabalhos também pode ser comparada à letra do hino oficial, composto por Radamés Gnattali, Jorge Antonio Siffi e Otávio Gonçalves Gomes.
“Os celeiros de fartura
Sob um céu de puro azul,
Reforjaram em Mato Grosso do Sul
Uma gente audaz.Tuas matas e teus campos,
O esplendor do Pantanal,
E teus rios são tão ricos
Que não há igual”.
Entre os trabalhos encontrados, está a partitura de Elisa Wanda Seelinger, do Rio de Janeiro (RJ). Nos versos, ela descreve os rios como caminhos que cortam o território e conduzem à riqueza natural.
“Nossos rios são estradas que conduzem, cortam a terra roxa promissora, rica fauna e flora que seduzem, são belezas da pátria encantadora.”
Outro documento, escrito à caneta por Aureli Caires Bonfim, servidor público de Belo Horizonte (MG), também integra a exposição. A composição traz uma declaração de afeto ao novo Estado: “Feliz estou. Quando olho estas serras, penso em ti. Jamais esperas que eu trabalhe sem valor”.
A maior parte das composições aposta na descrição das riquezas naturais e das formações geológicas. Vilma Correa Marra, de São Paulo (SP), por exemplo, escreveu: “A riqueza da fauna e flora. Rola no solo fecundo se aflora. Nas vegetações e mananciais, Santuário orgulho do Pantanal”.

Por que os hinos não foram escolhidos?
A descoberta dos documentos também trouxe perguntas sobre os critérios que levaram à escolha do hino oficial e o destino das demais composições.
Segundo o professor e pesquisador Douglas Alves da Silva, o relatório da Funarte (Fundação Nacional de Artes), responsável por uma das etapas de avaliação, registra que apenas sete trabalhos foram selecionados previamente para uma análise mais aprofundada. No entanto, todos foram recusados.
“Eles começam o relatório falando que foram previamente selecionados sete trabalhos, que foram avaliados mais profundamente pela Funarte, e esses sete trabalhos foram recusados. Mas e os outros trabalhos?”, questiona.
Para os demais, ainda não há uma explicação definitiva. Douglas aponta algumas hipóteses levantadas a partir da análise dos documentos, como o descumprimento das regras do concurso, a identificação dos autores em trabalhos que deveriam ser apresentados sob pseudônimo e o possível envio fora do prazo.
“Às vezes, a pessoa tinha que escrever com pseudônimo. Algumas pessoas colocaram um nome nos documentos. Outras pessoas colocaram até o número de RGs. […] Às vezes, chegou depois do prazo. Às vezes, estava fora dos padrões do concurso”, explica.
O pesquisador também considera a possibilidade de uma comissão preliminar ter feito uma seleção antes da avaliação da Funarte. Até o momento, porém, a equipe não encontrou informações suficientes para confirmar como essa etapa funcionava.
Realizado em 1978, o concurso recebeu trabalhos de diferentes regiões do país. Naquela época, as propostas chegavam pelos serviços postais, o que também pode ter influenciado os prazos de entrega.
Um resgate construído a várias mãos
A reunião dos trabalhos começou a partir de uma demanda de pesquisadores interessados na história do concurso nacional dos símbolos de Mato Grosso do Sul. Em 2024, a equipe do Arquivo Público Estadual iniciou novas buscas em seu próprio acervo e em outras instituições, como o Instituto Histórico e Geográfico e a UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul).
O volume de documentos encontrados surpreendeu os pesquisadores. E o trabalho de resgate não terminou com a descoberta: a divulgação do material despertou o interesse de outras pessoas, que começaram a procurar o Arquivo para compartilhar documentos relacionados à criação do Estado.
“É interessante que um espaço como um museu, como um arquivo, uma biblioteca, depende muito de atender à sociedade, atender à população. Às vezes, a população ainda tem alguma coisa guardada, que passou de pai para filho, de mãe para filha, ao longo das gerações”, conta Douglas.
O professor também faz um alerta sobre a importância de preservar documentos históricos, que muitas vezes acabam descartados sem que as famílias reconheçam seu valor.
“Se você tem algo interessante que fala sobre a criação do Estado de Mato Grosso do Sul, sobre os processos da nossa história, da nossa memória, procure o Arquivo Público do Estado de Mato Grosso do Sul. Vocês podem ajudar a construir a história do nosso Estado”, convida.
Vale a pena visitar
A exposição “Muito Além do Acorde Final – Ensaios e Versos do Hino Sul-Mato-Grossense” fica aberta ao público até janeiro de 2027, no segundo andar do Memorial da Cultura e Cidadania Apolônio de Carvalho.
O espaço está localizado na Avenida Fernando Corrêa da Costa, 559, na Vila Carvalho. A visitação é gratuita e ocorre de segunda a sexta-feira, das 8h às 11h30 e das 13h30 às 17h30, e aos sábados, das 13h às 16h.
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(Revisão: Dáfini Lisboa)












