Nos últimos anos, crescem eventos da cultura geek em Campo Grande. Quem está envolvido nesse universo de animes, cosplay e jogos sabe que o lazer exige um alto investimento e também dá trabalho. O que para alguns pode parecer mero entretenimento é um hobby sério para os cosplayers, que chegam a desembolsar mais de R$ 5 mil para caracterizar-se de um personagem favorito.
Em Mato Grosso do Sul, fazer cosplay pode significar importar tecidos, encomendar acessórios de outros estados, ajustar roupas, estilizar perucas, confeccionar sapatos e, principalmente, investir tempo, dinheiro e criatividade para transformar um personagem em realidade.
Preferindo se identificar como Tadare, de 18 anos, começou no cosplay há oito anos, além de crescer em contato com animes e jogos por influência da família e da internet. Tadare resume que cosplay é identidade, expressão e paixão por quem pratica.
Universo geek
Tadare conta que seu cosplay mais recente foi Miyabi, de Zenless Zone Zero, personagem que escolheu por ser querida. Mas nem todos os trabalhos são tão simples. A caracterização de Cyrene, de Honkai: Star Rail, por exemplo, envolveu um vestido enorme, além de arco e flecha gigantescos.
Contudo, quanto maior a complexidade do traje do personagem, maior também o investimento. Os cosplayers ainda enfrentam baixos produtos à disposição no Estado. Logo, a maioria adere às compras on-line e à importação.
“[Sobre o gasto], depende da complexidade do traje e de como ele chegará até mim. Eu mesmo participo de grupos de desapego e, geralmente, há uma faixa mais acessível, entre R$ 450 e R$ 700. Mas, em um novo ou importado, pode-se estimar que será gasto mais de R$ 1,1 mil, dependendo do projeto. Parei uma vez para calcular e, sinceramente, às vezes, nem gosto de pensar sobre isso. Foi muito investimento, cosplay é um hobby caro”, descreve

Murilo Antônio Correia Bacelar, de 18 anos, também conhece bem essa realidade. Cosplayer desde 2021, ele escolheu Zhongli, de Genshin Impact, para uma de suas caracterizações. No jogo, o personagem é o deus do elemento pedra, mas esconde sua identidade enquanto trabalha como dono de uma funerária. A escolha, segundo Murilo, veio da identificação com a história e o design do personagem.
Customização
O traje, porém, não saiu pronto para vestir. Embora tenha comprado a roupa já confeccionada, foi necessário fazer ajustes para conseguir um caimento mais fiel e adequado ao corpo. Como muitos trajes são importados da China e produzidos em massa, as medidas nem sempre correspondem às do cosplayer. Também foi preciso estilizar a peruca e confeccionar os sapatos.
Hoje, Murilo estima que um cosplay custe entre R$ 500 e R$ 1 mil. Se a opção for importar da China, o valor pode dobrar e chegar a R$ 2 mil. Somando todos os personagens que já produziu desde o início, ele afirma que o investimento já passou facilmente dos R$ 5 mil.
“Me sinto uma pessoa totalmente diferente quando visto o traje. Sou uma pessoa extremamente introvertida, porém, sinto que o cosplay tira um pouco disso. Adoro interpretar os personagens que faço, inclusive, me identifico com eles e me sinto gratificado quando me param nos eventos para tirar fotos e prestigiar meu trabalho. Me encanta bastante a arte de poder se vestir do personagem que gosta e poder interagir com pessoas que gostam e apreciam a obra também”.
“Os principais eventos que eu frequento são a Parada Nerd, o festival do Japão e a BGS [Brasil Game Show]. Acho que um evento que me marcou até hoje foi a Parada Nerd de 2023, que foi a primeira edição em que eu fui caracterizado”.

Não é fantasia
Embora o termo “fantasia” não esteja tecnicamente errado, existem diferenças culturais e de dedicação que explicam a preferência por usar a palavra cosplay. No passado, a comunidade sofria julgamentos de que o hobby era “coisa de criança”. O termo “cosplay” ajuda a validar a atividade como arte e cultura pop.
“O termo é justamente ‘cos’ (costume/fantasia) ‘play’ (brincar/interpretar). Mas acho que a falta de conhecimento atinge muito os cosplayers. Já vi diversos vídeos e postagens em redes sociais fazendo chacota e falando de cosplayers como se fossem totalmente esquisitos ou como se tivessem fazendo coisas super erradas, sendo que é uma expressão artística, é cultura e, além de tudo, é um hobby cuja intenção é, acima de tudo, homenagear a obra e o personagem”, relata Murilo.
Entusiasmo
Luiz Neves Correa Horn, também de 18 anos, decidiu fazer diferente com Johnny Joestar, protagonista de uma das partes de JoJo’s Bizarre Adventure. O personagem foi escolhido pela identificação, mas também porque o traje seria um projeto menor diante de outros trabalhos que pretende realizar.
Segundo Luiz, importar um traje pronto pode pesar ainda mais no bolso. Ele próprio confeccionou o cosplay de Johnny à mão e encontrou dificuldades para comprar os tecidos que queria em Campo Grande.
O problema não está apenas na roupa. Existe toda uma cadeia de profissionais e materiais envolvidos na produção de um cosplay. São wigmakers, responsáveis pela estilização das perucas; propmakers, que produzem acessórios e armas; e cosmakers, que confeccionam as roupas.
“Eu nunca parei pra calcular exatamente, mas eu acho que já foram mais de R$ 5 mil facilmente investidos nesse hobby. Para mim, a maior satisfação de estar completamente caracterizado é ver meus projetos ficando como eu idealizei e as pessoas nos eventos, que sempre param e pedem pra tirar foto ou pra elogiar.”

Hobby sério
Pipoca, de 15 anos, que prefere ser chamado pelo nome de seu cosplay, também percebe essa diferença. Começou a se vestir de personagens ainda criança, em 2015, mas só passou a chamar aquilo de cosplay aos 12 anos, quando ganhou de aniversário o traje de Hu Tao, de Genshin Impact.
De lá para cá, já foram vários personagens, entre eles Chopper, de One Piece; Mark, de ‘O Mundo de Greg’; Mima, de ‘Perfect Blue’; Aizawa, de ‘My Hero Academia’; Hu Tao, de Genshin; e personagens de JoJo’s Bizarre Adventure.
“Geralmente costumo ir a eventos de cultura geek da minha cidade, como Parada Nerd, Campão Geek, Sesc Geek, Festival do Japão, Festival Okinawa, Expogeek, entre outros, porém, quando não tem evento durante o mês, eu e minhas amizades do meio cosplay marcamos de passear de cosplay só pra descontrair e criar o nosso evento”, pontua.
Aos poucos, o que começou com roupas compradas prontas virou também prazer em construir. Pipoca foi percebendo o prazer de construir os adereços e montar as peças aos poucos.
“A sensação de subir no palco e de receber aplausos é muito marcante, principalmente quando o motivo dos aplausos não é o quão elaborado é o cosplay, mas sim o quão conhecido e amado é o personagem. Ver pessoas do meu convívio cotidiano verem e admirarem meu cosplay no evento, mas não reconhecerem no dia a dia, é muito engraçado também”, conclui.

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(Revisão: Nichole Munaro)









