A organização criminosa liderada por um núcleo familiar e que contava com a participação de agentes públicos no tráfico transnacional de drogas — inclusive em um esquema de desvio de cocaína apreendida em Campo Grande — mantinha uma engrenagem financeira que movimentava milhões de reais usando contas pessoais e empresariais, PIX, depósitos para terceiros, saques em espécie, casas de câmbio, criptomoedas e remessas internacionais. A movimentação financeira superou R$ 500 milhões em aproximadamente dois anos.
A Polícia Federal, em conjunto com a Receita Federal, deflagrou, na quarta-feira (4), a Operação Ifrit para desmantelar o esquema, investigado também por tráfico internacional de armas, lavagem de dinheiro, sequestros, torturas e outros crimes violentos. A PF rastreou como o dinheiro circulava e onde o patrimônio ficava concentrado.
A operação aponta ainda que a organização investigada teria construído uma estrutura financeira e patrimonial destinada, em tese, à movimentação e à ocultação de recursos, com empresas, milhões movimentados em contas, saques em espécie e imóveis ligados ao núcleo familiar.
Engrenagem financeira
De acordo com informações obtidas pelo Jornal Midiamax, a empresa Millenium Indústria Comércio Importação e Exportação de Artefatos de Cimento Ltda. teria sido usada, segundo a investigação, como instrumento para movimentação de recursos. Da empresa, saíram duas transferências no valor de R$ 270 mil, totalizando R$ 540 mil, para uma conta em nome de Maroan Fernandes Haidar Ahmed, apontado pela PF como um dos integrantes da cúpula da organização criminosa e também sócio da empresa.
A empresa atuava no ramo de indústria, comércio, importação e exportação de artefatos de cimento. Para a PF, ela teria sido utilizada na movimentação de recursos e em possível lavagem de dinheiro ligada ao núcleo familiar. De acordo com o registro da empresa, os outros dois sócios eram Michele Daiane Fernandes Carvalho, mãe de Maroan, e Hassan Hussein Haidar Ahmad, pai dele.
Em outra frente, também foram encontrados R$ 167,6 mil depositados em espécie nas contas de Maroan, divididos em 55 operações realizadas entre junho de 2020 e agosto de 2021. Em outra conta analisada, vinculada a uma pessoa próxima ao grupo, houve R$ 1,769 milhão em créditos e R$ 3,303 milhões em débitos, com R$ 701,7 mil retirados em dinheiro vivo. Desse mesmo relacionamento financeiro, R$ 110 mil foram transferidos a Maroan.
Conforme o relatório, Maroan teria recebido ainda R$ 537,9 mil em 14 transferências, além de outras movimentações e vínculos empresariais que, para os investigadores, reforçariam a ligação entre a atividade econômica formal e os recursos sob investigação.
O relatório da Polícia Federal afirma ter identificado o uso majoritário de doleiros para movimentação de recursos, em que intermediários especializados faziam o dinheiro circular fora do fluxo bancário convencional.
O uso de criptomoedas também foi identificado na investigação, envolvendo USDT, uma criptomoeda pareada ao dólar e usada para transferências digitais. A lógica do grupo era usar cripto para movimentar valores entre países, converter recursos e disponibilizar dinheiro aos envolvidos sem depender apenas do sistema bancário tradicional.
Nomes como “Árabe”, “Cleopatra” e “Sapo Token” aparecem em movimentações financeiras ligadas a Maroan. A mulher identificada como “Cleópatra” pede, em um dos diálogos, a remessa de US$ 40 mil para a Bolívia. “Sapo” aparece em outra conversa discutindo como transferir ou disponibilizar US$ 540 mil por meio de empresa no Brasil.
Patrimônio
A Polícia Federal aponta Bassam Hassan Haidar Ahmed como controlador financeiro do núcleo familiar e afirma que ele possuía diversos imóveis e veículos em seu nome, além de participação em seis empresas. A investigação também levanta a suspeita de que os filhos — entre eles, Maroan — e terceiros tenham sido utilizados na ocultação patrimonial.
A investigação encontrou alguns imóveis que, segundo a PF, estariam diretamente associados à logística da organização, inclusive como locais de armazenamento de drogas, abrigo de integrantes e concentração de bens do núcleo familiar.
Um imóvel em Ponta Porã teria sido usado como local de armazenamento de drogas e alojamento de integrantes do grupo. O mesmo endereço aparece relacionado a uma ocorrência de tráfico em que foram apreendidos 52 kg de skunk e 322 kg de maconha.
Operação Ifrit
A Operação Ifrit mirou uma organização criminosa transnacional liderada por um núcleo familiar e associada a facções criminosas, com participação de policiais civis e militares de Mato Grosso do Sul e um PRF (policial rodoviário federal) de outro estado. Entre os 29 alvos da operação no Estado, estão o policial civil Andrey Elesbão Silva; Douglas Tobias; o delegado Hoffman D’Ávila Candido e Sousa; e o clã Haidar: Adel Hassan Haidar e Nasser Haidar, que estão foragidos, e Bassan Hassan Haidar, que está preso.
As investigações apontam que a estrutura de comando era da família Haidar. Irmãos, filhos e outros parentes integravam o primeiro escalão do grupo, dividindo tarefas financeiras e operacionais com operadores nacionais e estrangeiros.
Porém, para garantir a continuidade das atividades e a circulação das cargas, o grupo teria cooptado policiais civis, militares e um policial rodoviário federal.
Participaram da operação 450 policiais federais, 22 auditores fiscais e 7 analistas tributários. Foram cumpridos 76 mandados de busca e apreensão, 25 mandados de prisão preventiva e um mandado de prisão temporária, expedidos pela 3ª Vara Federal de Campo Grande. As ordens judiciais foram executadas simultaneamente em sete estados: Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, São Paulo, Paraná, Rondônia, Goiás e Santa Catarina.
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(Revisão: Dáfini Lisboa)







