O ex-policial civil Augusto Torres Galvão Florindo desviou drogas em uma apreensão feita em outubro de 2025, no Jardim Los Angeles, em Campo Grande, um mês antes de ser preso em um esquema de desvio de contrabando e pagamento de propina. Na última quinta-feira (24), Augusto foi alvo da Operação Infiltrados, deflagrada pelo Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado), que descobriu um esquema de desvio de cocaína, envolvendo o delegado Hoffman D’Ávila Cândido e Sousa, policiais civis e militares.
Augusto foi preso em flagrante em novembro do ano passado, quando confessou ter recebido dinheiro do contrabando. Ele foi absolvido na Justiça Federal e demitido da Sejusp-MS (Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública de Mato Grosso do Sul) no último dia 9.
Um mês antes de ser preso por envolvimento no esquema de desvio de contrabando e pagamento de propina, Augusto teria desviado parte da droga apreendida em uma residência no Jardim Los Angeles, juntamente com o policial Marcos André Santos Chaves. Na ocasião, um dos traficantes afirmou que haveria entre 40 e 60 quilos de drogas armazenados na casa, mas os policiais civis registraram na ocorrência que foram apreendidos somente 3 quilos.
Com o afastamento do sigilo telemático de Lucas da Silva dos Santos, o ‘LK’, foi descoberta pelo Gaeco uma conversa, na noite de 4 de outubro, entre ele e Kayon Lucas Leodoro da Silva — responsáveis por repassar aos policiais o endereço do imóvel. Inclusive, Kayon orientou ‘LK’ sobre o melhor momento para a abordagem dos policiais, já que conhecia a rotina dos moradores.
Após a apreensão da droga e prisão em flagrante de um rapaz no imóvel no dia 5 de outubro, os policiais registraram o endereço que havia sido fornecido por ‘LK’. O que chamou a atenção foi que o preso residia na rua citada no registro policial, mas em um número diferente do informado no boletim de ocorrência. Com essa divergência, o Gaeco conclui que Augusto e Marcos nem “sequer se preocuparam em registrar corretamente o número da casa na ocorrência, limitando-se a produzir as informações repassadas por Lucas da Silva dos Santos (LK)”.

Com detalhes, o Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado destaca que Kayon afirmou que haveria entre 40 e 60 quilos de “verde”, ou seja, maconha, no imóvel. Contudo, Augusto e Marcos André apresentaram como drogas encontradas na residência somente três quilos. “A maioria do entorpecente armazenado no imóvel (ao menos 37 kg) foi desviada pelos policiais civis e partilhada com Lucas da Silva dos Santos (LK)”, descreve o relatório das investigações.
Outro ponto que chamou atenção da equipe que investigou o esquema criminoso é que a atuação de Augusto e Marcos André destoa do padrão operacional do Garras, unidade especializada em repressão a roubos a banco, assaltos, sequestros e crimes correlatos. Isso confirma que a diligência em outubro de 2025 naquela casa, no Jardim Los Angeles, teve como “motivação real o desvio de drogas”.
Também se destaca o fato de os policiais terem ido ao imóvel com efetivo reduzido, fora do padrão operacional do Garras, que costuma atuar com quatro servidores em entradas e cumprimento de mandados em imóveis.

No relatório do Gaeco, é pontuado que os policiais não fizeram diligências preliminares para apurar a verossimilhança da “denúncia anônima” que justificasse uma busca domiciliar (medida extremamente invasiva). Eles tinham certeza de que na residência havia drogas, já que quem passou a informação era um comparsa, o ‘LK’, “que somente assim agiu para obter parte da maconha que estava lá armazenada”.

O Gaeco apontou que o esquema de desvio de drogas na Denar (Delegacia Especializada de Repressão ao Narcotráfico) era comandado pelo delegado Hoffman D’Ávila Cândido e Sousa. Inclusive, ele era mencionado por meio do apelido ‘Careca’. Hoffman está preso desde a tarde de quinta-feira (24), quando se entregou na Corregedoria-Geral da Polícia Civil.

Operação Infiltrados
A Operação Infiltrados, do Gaeco, investiga um esquema de desvio de drogas apreendidas por agentes de segurança, principalmente cocaína. Segundo o MPMS, parte dos entorpecentes seria omitida dos registros ou retirada de depósitos policiais e depois repassada a traficantes para retornar ao mercado ilegal. A investigação começou em outubro de 2025.
A operação cumpriu 24 mandados de prisão preventiva, dois mandados de prisão temporária e 38 de busca e apreensão nas cidades de Campo Grande, Dourados e Terenos.
As investigações foram iniciadas em outubro de 2025, a partir de provas descobertas nas operações Traquetos e Blindspot, que revelaram, segundo o MPMS, a participação de vários policiais em um esquema de desvio de drogas, especialmente cocaína.
Segundo o MPMS, o modus operandi adotado pela organização criminosa consistia no desvio de drogas apreendidas em ocorrências policiais, seja por meio da omissão — nos registros formais — de parte da droga efetivamente arrecadada, seja pela subtração de entorpecentes diretamente do depósito da delegacia.
A droga desviada seria repassada para traficantes ligados à organização criminosa, que seriam responsáveis por reintroduzir a droga no mercado ilícito.
Segundo a investigação, os policiais suspeitos de integrar a organização criminosa se valiam de suas funções públicas exercidas no combate à criminalidade para atuar como fornecedores para o tráfico.
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(Revisão: Dáfini Lisboa)





