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Polícia

‘Socorro’: Diário revela pedido de ajuda de fisioterapeuta assassinada por cardiologista

Fabiola Marcotti foi assassinada com um tiro na cabeça no dia 18 de maio
Layane Costa -
‘Socorro’: Diário revela pedido de ajuda de fisioterapeuta assassinada por cardiologista
Diário escrito a próprio punho de Fabiola. (Reprodução)

Textos escritos a próprio punho em folhas de caderno, que com o tempo acabaram se tornando um diário, com caneta nas cores azul e preta, descrevem a dor e a violência silenciosa que a fisioterapeuta Fabiola Marcotti, de 51 anos, viveu ao lado do seu então companheiro, o médico João Jazbik Neto, de 78 anos. O cardiologista foi denunciado pelo crime de feminicídio ocorrido no dia 18 de maio, na Estrada EW-01, no bairro Chácara dos Poderes, em .

Era em folhas brancas de uma caderneta que Fabiola descrevia a violência psicológica sofrida rotineiramente no casamento. Os textos começaram a ser escritos em 2022; inclusive, em um deles, a fisioterapeuta chegou a mencionar que o caderno teria se tornado verdadeiramente um diário.

Conforme a polícia, o caderno de capa verde que se tornou diário virou um documento com a voz dela. “Não é mero papel, mas a voz escrita de Fabiola, o registro de sua dor, de seu medo e da violência silenciosa que a consumiu antes do golpe fatal“, diz trecho do documento.

Fabiola Marcotti durante uma viagem a Roma, em 2012. (Reprodução, Arquivo Pessoal)

E era justamente nele, que desde 2022, a mulher registrava parte do seu dia a dia ao lado do cardiologista. O último texto foi escrito no dia 16 de maio deste ano, dias antes da sua morte.

Nele, Fabiola Marcotti registrava seu sofrimento psicológico, medo e a realidade do relacionamento abusivo que vivia com João Jazbik Neto“, menciona a polícia.

‘Socorro’

Conforme a polícia, Fabiola não podia olhar para ninguém, nem ter amigos do sexo masculino. Ele controlava os horários e ficava o tempo todo perguntando onde ela estava ou com quem estava. A desculpa era simples: “porque a amava”.

O feminicídio de Fabiola foi antecedido por inúmeros pedidos de socorro silenciosos: “SOCORRO, SOCORRO, SOCORRO”.

Para a polícia, a violência psicológica, descrita por Fabíola, não é um crime menor ou acessório. Foi a base sobre a qual o feminicídio foi construído. “O agressor não matou Fabiola apenas com um golpe e um tiro: ele a matou lentamente, dia após dia”, é citado.

“A Fabiola expõe a violência psicológica em sua forma mais insidiosa: a punição através do silêncio e da indiferença, que a fazia sentir-se anulada, sem vontade própria, vivendo em constante estado de alerta para não desagradar o agressor. A frieza e o silêncio eram armas de tortura psicológica”, frisa o documento.

Confira trechos:

(Reprodução)
(Reprodução)

Mês de maio

No dia 4 de maio deste ano, Fabiola chegou a mencionar que estava com saudades da sua mãe. Isso porque, no dia 10 daquele mês completaria seis anos do seu falecimento. Além disso, escreveu que a situação financeira do casal estava em crise, mas ela orava pelo cardiologista.

Isso foi um dos pontos apresentados pela polícia. “A vítima, apensar de reconhecer o sofrimento, ainda se referia ao agressor como “o homem que eu amo” e a “pessoa que acreditei ser o amor da minha vida”. Essa contradição revela o ciclo da violência doméstica: a alternância entre momentos de tensão, agressão e “lua de mel”, que mantém a viva presa à relação pela esperança de mudança e pela dependência emocional construída pelo agressor”, diz trecho do documento.

Dois dias antes de ser vítima de feminicídio, ou seja, no dia 16 de maio, Fabiola escreveu que estava indo para o lugar dela e ficaria ao lado da mãe. Em tom de despedida, ela mencionou o amor eterno por ele.

Apesar de a última folha naquele caderno ter sido uma mensagem de despedida. O inquérito da Deam, após a perícia técnica, descartou a hipótese de suicídio. Assim, João foi denunciado por feminicídio.

Confira os últimos textos de Fabiola:

(Reprodução)

Relembre

Fabíola foi encontrada morta com um tiro na cabeça em sua casa, uma propriedade na Chácara dos Poderes, em Campo Grande. A mulher morava com o marido quando foi encontrada sem vida no dia 18 de maio deste ano. Na ocasião, o médico chegou a acionar a polícia e alegou que a esposa teria cometido suicídio.

Ao chegarem ao local, os militares encontraram o marido da vítima e equipes do Corpo de Bombeiros, que já haviam constatado o óbito. Aos policiais, o médico disse que a esposa fez atividades de rotina matinal e, em determinado momento, foi para o andar superior da casa, onde fica o quarto do casal.

Na ocasião, o médico contou ter estranhado a demora de Fabíola e decidiu subir para verificar a situação. Quando chegou, alegou ter encontrado a porta do quarto fechada. Ele bateu à porta, mas não foi respondido.

Em seguida, o cardiologista desceu até a cozinha e ligou para Fabíola, mas ela não atendeu. Pouco tempo depois, ele disse ter ouvido um disparo de arma de fogo e retornou ao andar superior, momento em que viu a porta do quarto aberta e a companheira caída ao chão. Ele não soube precisar o horário exato.

Segundo o registro policial, o médico acionou seu ex-caseiro, que chegou ao imóvel pelos fundos. Logo, ele e os atuais caseiros foram até o quarto e acionaram o 190.

A 1ª Deam (Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher) instaurou inquérito para investigar o caso.

O cardiologista também foi preso, no dia da morte de Fabíola, por posse irregular de arma de fogo, após a polícia encontrar armamento sem documentação na casa.

Para os familiares da vítima, a decisão judicial assegura que os laudos periciais e os depoimentos das testemunhas sejam concluídos com “rigor técnico”. O caso segue sendo investigado.

Local onde a mulher foi encontrada morta. (Foto: Marcos Ermínio, Midiamax)

Laudo apontou feminicídio

O laudo necroscópico concluiu que a causa da morte de Fabíola foi traumatismo crânioencefálico por ação perfuro-contundente, enquanto o laudo pericial no local do crime concluiu que houve feminicídio. “Ressalta-se que o feminicídio em relação à vítima Fabíola ocorreu em razão da condição do gênero feminino, consistente em violência doméstica e familiar”, diz a denúncia.

“O denunciado praticou o crime mediante recurso que dificultou a defesa da vítima, pois, segundo a dinâmica reconstruída a partir dos vestígios periciais, a vítima foi inicialmente atingida por golpe que a fez cair de joelhos; vindo a cair ao solo, em seguida, sofreu novo golpe, que lhe reduziu significativamente a capacidade de reação. Posteriormente, já caída, teve a cabeça levantada e foi atingida pelo disparo fatal”, fala trecho da denúncia. 

O médico foi denunciado por feminicídio com agravante que dificultou a defesa da vítima, fraude processual e posse de arma de fogo de uso restrito.

A família de Fabíola sempre negou que ela tenha atentado contra a própria vida. 

📍 Onde buscar ajuda em MS

Em Campo Grande, a Casa da Mulher Brasileira está localizada na Rua Brasília, s/n, no Jardim Imá, 24 horas por dia, inclusive aos fins de semana.

Além da Deam, funcionam na Casa da Mulher Brasileira a Defensoria Pública; o Ministério Público; a Vara Judicial de Medidas Protetivas; atendimento social e psicológico; alojamento; espaço de cuidado das crianças – brinquedoteca; Patrulha Maria da Penha; e Guarda Municipal. É possível ligar para 153.

☎️ Existem ainda dois números para contato: 180, que garante o anonimato de quem liga, e o 190. Importante lembrar que a Central de Atendimento à Mulher – 180 é um canal de atendimento telefônico, com foco no acolhimento, na orientação e no encaminhamento para os diversos serviços da rede de enfrentamento à violência contra as mulheres em todo o Brasil, mas não serve para emergências.

As ligações para o número 180 podem ser feitas por telefone móvel ou fixo, particular ou público. O serviço funciona 24 horas por dia, 7 dias por semana, inclusive durante os fins de semana e feriados, já que a violência contra a mulher é um problema sério no Brasil.

Já no Promuse, o número de telefone para ligações e mensagens via WhatsApp é o (67) 99180-0542.

📍 Confira a localização das DAMs, no interior, clicando aqui. Elas estão localizadas nos municípios de Aquidauana, Bataguassu, Corumbá, Coxim, Dourados, Fátima do Sul, Jardim, Naviraí, Nova Andradina, Paranaíba, Ponta Porã e Três Lagoas.

⚠️ Quando a Polícia Civil atua com negligência, má vontade ou comete erros, é possível denunciar diretamente na Corregedoria da Polícia Civil de MS pelo telefone: (67) 3314-1896 ou no Gacep (Grupo de Atuação Especial de Controle Externo da Atividade Policial), do MPMS, pelos telefones (67) 3316-2836, (67) 3316-2837 e (67) 9321-3931.

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