O Poder Judiciário de Mato Grosso do Sul manteve a prisão do advogado Amilton Ferreira de Almeida durante audiência de custódia nesta quarta-feira (30), em Campo Grande. Amilton está preso desde terça (29), quando foi alvo de mandado de prisão temporário do Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado) por suspeita de vazar informações sobre a Operação Infiltrados, deflagrada na semana passada.
A defesa de Amilton, representada pelas advogadas Damares Machado e Larissa Almeida Tobaru, já havia informado que entrou com pedido de liberdade. No entanto, o pedido não foi acatado pela Justiça durante audiência de custódia.
“Nós fizemos o pedido de liberdade, fizemos o pedido de relaxamento, o juiz não conheceu do pedido. Ele fundamentou, entendeu que ele não seria competente para apreciar o pedido, alegando que a audiência de custódia seria tão somente para verificar a legalidade da prisão, como ele foi tratado por parte da polícia. Enfim, ele não conheceu o pedido e agora entraremos com o HC (Habeas Corpus)”, explicou Damares ao Jornal Midiamax.
Agora, a defesa entrará com um habeas corpus na Justiça para tentar a liberdade do advogado Amilton. Após a audiência de custódia, ele será encaminhado novamente ao PME (Presídio Militar Estadual).

Manifestação de advogados no fórum
Um grupo composto por cerca de 30 advogados criminalistas se reuniu no Fórum Heitor Medeiros na manhã desta quarta-feira (30) para manifestar apoio ao colega de profissão. Ao Jornal Midiamax, o advogado André Arinos disse que se sente desacatado.
“Primeiramente, eu não estou aqui apenas porque sou amigo, estou aqui porque, como advogado, eu me sinto também desacatado. Porque, afinal de contas, o que está acontecendo com ele hoje pode ser só com ele, mas a justiça de um é uma ameaça para todos. Então, eu acredito que a nossa OAB e todos os advogados têm que, nesse momento, se indignar com isso. Porque eu, como advogado, estou indignado”, falou o advogado.
André Arinos acrescentou que a prisão de Amilton por suspeita de vazamento de informações “fere as prerrogativas”. Isso porque o advogado defende que há uma lei federal que garante o direito ao sigilo profissional.
“É um direito e um dever. Então, a gente não pode, jamais, se eximir dessa responsabilidade de guardar sigilo entre as conversas nossas com nossos clientes. E, por outro lado, também, o doutor Amilton, eu tenho certeza de que ele não fez nada do que o pessoal está dizendo. Mesmo que tivesse feito, ele estaria no exercício da profissão dele, seria um exercício regular o direito dele”, opinou o advogado.
Durante o ato em apoio ao colega de profissão, o advogado Cristiano Alves falou em “criminalização da advocacia criminal”. Ele acrescentou que a situação acontece em todo o Brasil e também gera indignação.
“A advocacia sul-mato-grossense e brasileira está indignada com essa prisão porque eles vêm tentando criminalizar o advogado criminal, não só no Mato Grosso do Sul, mas em todo o Brasil. Nós estamos percebendo hoje que está tendo uma violação do sigilo profissional entre cliente e advogado”, pontuou Cristiano Alves.
Prisão de advogado
O advogado Amilton Ferreira representava a defesa do delegado Hoffman D’Ávila Candido e Souza, apontado como chefe do esquema de desvio de drogas apreendidas pela Denar (Delegacia Especializada de Repressão ao Narcotráfico).
Hoffman se apresentou na quinta-feira, acompanhado de Amilton. Já o advogado foi preso durante a Operação Obstructio, um desdobramento da Operação Infiltrados, que investiga a suspeita de vazamento de informações sigilosas durante o cumprimento de mandados na semana passada.
A defesa de Amilton disse que não há provas do suposto vazamento de informações e entrou com um pedido de liberdade. “Tivemos acesso aos autos ontem à tarde e, como havíamos previsto, não há provas concretas que fundamentem a prisão, não há prova nenhuma do suposto vazamento de informações”, afirmou a advogada Damares Machado.
Segundo informações do Ministério Público Estadual de Mato Grosso do Sul, além da prisão temporária do advogado, equipes do Gaeco cumpriram dois mandados de busca e apreensão.
“Há evidências já materializadas de que ocorreu a comunicação criminosa da ação policial, o que acabou por embaraçar diretamente a investigação do Gaeco sobre a atuação da organização criminosa”, ressalta.
Após a prisão, a OAB-MS (Ordem dos Advogados do Brasil de Mato Grosso do Sul) disse que irá adotar medidas cabíveis ao caso e que um procedimento disciplinar será instaurado.
Operação Infiltrados
A Operação Infiltrados, do Gaeco, investiga um esquema de desvio de drogas apreendidas por agentes de segurança, principalmente cocaína. Segundo o MPMS, parte dos entorpecentes seria omitida dos registros ou retirada de depósitos policiais e depois repassada a traficantes para retornar ao mercado ilegal. A investigação começou em outubro de 2025.
Conforme o documento, as evidências encontradas indicam que, ao menos entre 2021 e 2026, em Mato Grosso do Sul, um grupo de policiais civis vinha se valendo de suas funções públicas para desviar drogas apreendidas e reinseri-las no mercado ilegal.
Eles desviavam as drogas apreendidas, seja por meio da omissão — nos registros formais da ocorrência — de parte da droga efetivamente arrecadada, fazendo com que esse montante não fosse oficialmente contabilizado como apreendido, seja pela subtração de entorpecentes diretamente do depósito da delegacia, com posterior repasse ao traficante Lucas da Silva dos Santos, o ‘LK’, que usava uma construtora para legalizar os recebimentos obtidos por meio do crime.
A operação cumpriu 24 mandados de prisão preventiva, dois mandados de prisão temporária e 38 de busca e apreensão nas cidades de Campo Grande, Dourados e Terenos.
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