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Em 75 anos, empresas do Consórcio Guaicurus viraram ‘terror’ no transporte de Campo Grande

Concessionária participou da concepção de integração do sistema para derrocada do serviço histórico
Adriel Mattos -
Prefeitura decretou a intervenção no Consórcio Guaicurus. (Léo de França, Jornal Midiamax)

As empresas do Consórcio Guaicurus, concessionária que operava até segunda-feira (15) o sistema de transporte coletivo de , chegaram ao ponto mais crítico da trajetória de 75 anos ao sofrer intervenção da Prefeitura na terça-feira (16). Elas remontam ao início do serviço e circulavam desde 1951.

Uma possível má gestão de recursos, somada à dependência de dinheiro público, a atrasos e à qualidade ruim da frota, levou o município a afastar a diretoria. Até mesmo uma pioneira do Consórcio, a Viação São Francisco, praticamente deixou o grupo ao fechar as portas em 2024. A Cidade Morena, líder do consórcio, foi fundada em 1951.

Mas o que pode ter levado esse grupo, que é vinculado ao Grupo Comporte — associado a diversas empresas de transporte, incluindo a Gol Linhas Aéreas —, a essa derrocada? Entenda como as decisões da direção impactaram o serviço e, principalmente, a saúde financeira da concessionária.

Empresas do Consórcio Guaicurus ajudaram a fundar sistema de transporte

O transporte público de Campo Grande existe desde a década de 1930, quando as primeiras empresas passaram a operar. Uma das principais integrantes do Consórcio, a Viação Cidade Morena, foi fundada em 1951. Na época, operava com o nome Empresa de Transporte Coletivo . Só em 1964 ganhou o nome atual.

De lá para cá, mudou de mão várias vezes, mantendo a nomenclatura de Cidade Morena. Na mesma época, em 1960, surgiu a Viação São Francisco.

O nome da empresa é o mesmo do bairro São Francisco. Anos antes, ele era conhecido como Cascudo. A linha do bairro, inclusive, manteve o nome mais popular, que ainda era Cascudo.

As duas acompanharam o crescimento da cidade, enquanto concorrentes ficaram para trás. Nesse meio tempo, nasceu outra associada: a Jaguar Transportes Urbanos, em 1975. Ela focou a atividade na região sul da cidade.

Ônibus da Viação São Francisco nos anos 1960. (Foto: Reprodução, Redes Sociais)

Sistema integrado nasce na década de 1990 e empresas se unem

Até a década de 1990, os ônibus rodavam de ponto a ponto. Não havia terminais e todas as linhas iam de um bairro a outro. Com isso, o custo por conta da tarifa poderia ser “salgado”.

Logo no início dos anos 90, a Prefeitura já estudava a integração do transporte coletivo. Por isso, em 1991, a São Francisco, a Cidade Morena, a Jaguar e a Serrana Transporte Urbano formaram a Assetur (Associação das Empresas de Transporte Coletivo Urbano de Campo Grande).

A Serrana foi criada em 1978, mas, por conta de dificuldades financeiras, nem sequer entrou no Consórcio Guaicurus e fechou as portas em 2012, antes da última licitação do serviço.

Ainda em 1991, surgiram os primeiros terminais da Capital — o General Osório e o . Em 1992, foram inaugurados o Morenão e o Júlio de Castilho.

A partir de 1993, o então prefeito de Campo Grande, Juvêncio da Fonseca, começou um projeto de unificar o transporte e criou o SIT (Sistema Integrado de Transporte), que existe até hoje. Entre 2000 e 2001, os terminais Nova Bahia, Aero Rancho, Guaicurus e Moreninhas entraram em operação.

Através do SIT, foi criado o sistema de cores das linhas: azul para aquelas que iam do bairro ao terminal, vermelho para terminal a terminal passando pelo Centro, verde para terminal a terminal sem passar pelo Centro e amarelo para bairro ao Centro. É daí que surgem termos populares, como o “verdão”.

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Empresas passam por crise e serviço é licitado

A criação do SIT também marca a revolução digital dos últimos anos. As fichas e os passes de papel, que foram usados por décadas, tiveram de ser abandonados. Os cartões magnéticos passam a ser usados e continuam até hoje.

Foi ainda na virada dos anos 2000 que os ônibus articulados chegaram para ampliar a capacidade do serviço. Mas a crise da Serrana e a dispensa dos cobradores colocaram a Assetur no escrutínio público.

Ônibus do transporte público nos anos 2000, conhecido popularmente como “verdão”. (Foto: Reprodução, Redes Sociais)

A crescente cobrança por mudanças, principalmente dos contratos renovados nos últimos anos, obrigou a Prefeitura a licitar o serviço. Em 2012, o município rompeu com a Assetur e abriu o certame.

Licitação polêmica entrega serviço ao Consórcio Guaicurus

No fim de 2012, as empresas da Assetur se juntaram para formar o Consórcio Guaicurus. A Serrana já havia deixado o grupo.

A licitação foi marcada por polêmicas. Uma delas foi revelada em um acordo de delação premiada do advogado Sacha Rech ao MPPR (Ministério Público do Estado do Paraná).

Sacha atuou como advogado da Assetur, assim como fez em várias cidades, para aproximar os empresários dos políticos. Assim, o Consórcio Guaicurus venceu a licitação e entrou em operação em 2013.

Em 13 anos, Consórcio foi do ápice à queda

O Consórcio Guaicurus viveu os primeiros anos de concessão em relativa tranquilidade. Mas o avanço da frota de motocicletas e a chegada das plataformas de carona paga, como a Uber, a partir de 2016, impactaram as empresas.

Sem investimento no conforto do usuário, que há anos pedia ar-condicionado e menos superlotação, o número de passageiros foi diminuindo. Hoje, apenas 161 mil usuários circulam todos os dias. Esse número passava de 200 mil no início da concessão.

Como se não bastasse, o Consórcio deixou de investir também na frota. O contrato fixa idade média da frota de cinco anos, índice que deixou de ser cumprido. Hoje, 235 dos 440 veículos estão vencidos, número que deve passar de 300 nos próximos seis meses.

Em 2017, uma primeira tentativa de CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) foi feita na Câmara Municipal. Porém, o pedido não prosperou.

A falta de qualidade do serviço foi se agravando, com ônibus quebrados e atrasados. A pandemia de covid-19, a partir de 2020, piorou a situação.

Em 2022, para evitar uma greve de motoristas, a Prefeitura firmou um acordo para financiar a concessionária. Nesses quatro anos, os repasses chegaram a R$ 70 milhões e incluíram até aporte do Governo do Estado.

Três anos depois, a Câmara finalmente instalou uma CPI. Os vereadores concluíram o que a população já via: o Consórcio perdeu as condições de atuar e deveria sofrer intervenção.

Intervenção no Consórcio Guaicurus

Em 16 de junho de 2026, a prefeita de Campo Grande, Adriane Lopes (PP), decretou intervenção na concessão do transporte coletivo. Foi nomeada uma junta interventora no lugar da diretoria do Consórcio Guaicurus.

A intervenção só começa, na prática, a partir da abertura de procedimento administrativo por parte da Prefeitura, o que deverá acontecer em no máximo 30 dias.

A equipe de interventores é comandada pelo advogado Aléxandro Adriano Lisandro de Oliveira e terá como membros Rodolfo Bahiense Fernandes (administrativo-financeiro), Alexandre Souza Moreira (jurídico) e Robson Tadeu Pereira (operacional). Os interventores receberão salário baseado na remuneração dos executivos do Consórcio Guaicurus.

Essa junta irá administrar a concessão durante o período de intervenção e poderá praticar atos como:

  • Assumir a gestão administrativa, jurídica, operacional e financeira da concessão;
  • Nomear equipe técnica de apoio e expedir ordens de serviço;
  • Requisitar registros contábeis, ter acesso aos bens vinculados à prestação do serviço, como garagens, oficinas e terminais;
  • Determinar auditorias e inspeções, adotar medidas urgentes para garantir a continuidade dos serviços;
  • Rever procedimentos operacionais e de manutenção da frota; e
  • Apresentar plano de ação para sanar as irregularidades identificadas.

O município vinha cobrando melhorias da concessionária diante de diversos problemas, desde ônibus velhos até atrasos nas linhas. Em setembro de 2025, a Câmara Municipal concluiu a CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) do Transporte recomendando a intervenção.

Uma ação popular foi protocolada em 26 de novembro de 2025, pedindo a intervenção imediata. No dia 17 de dezembro, o juiz Eduardo Lacerda Trevisan, da 2ª Vara de Direitos Difusos, Coletivos e Individuais Homogêneos, determinou que a Prefeitura decretasse a medida em 30 dias.

A Prefeitura contestou a decisão, alegando que deveria haver uma etapa de apuração antes da intervenção. O magistrado concordou e, em 6 de março de 2026, a Prefeitura criou um grupo de trabalho para avaliar a situação do Consórcio Guaicurus.

Três meses depois, em 8 de junho de 2026, a comissão recomendou a intervenção. Oito dias depois, a prefeita Adriane Lopes decretou o afastamento da diretoria do Consórcio e nomeou uma junta interventora vinculada ao município para operar diretamente o serviço e apurar as irregularidades apontadas pelo grupo de trabalho.

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(Revisão: Nichole Munaro)

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