O primeiro relatório preliminar da intervenção no Consórcio Guaicurus constatou que a diretoria da concessionária que operava o sistema de transporte público de Campo Grande centralizava decisões e acumulava problemas. A gestão da frota e da escala e a liberação dos ônibus eram feitas de forma manual.
Os interventores apontaram no documento que tudo era feito por meio de planilhas, e-mails e até grupos de WhatsApp. Para a junta interventora, o controle dessa rotina de forma integrada é essencial “para que a programação prevista seja convertida em viagens efetivamente realizadas”.
Com a fragmentação das comunicações, além da falta de padronização, a operação diária ficava mais difícil e mais suscetível a falhas. Por isso, essa rotina está sendo digitalizada em um sistema que o Consórcio já adotava em outras áreas.
Intervenção encontra menos ônibus nas garagens
Ao assumir a concessão, em junho de 2026, a equipe de intervenção constatou o real tamanho da frota. Diferente dos 460 veículos informados pela diretoria, foram encontrados 446 ônibus nas garagens.
Antes disso, entre 439 e 442 rodavam todos os dias. A junta interventora colocou todos os ônibus nas ruas após assumir a gestão do Consórcio. A idade média da frota, que até 2023 era de 6,73 anos, é de 10,4 anos em 2026.
Contratualmente, o limite é de cinco anos. Dos 446 veículos, 45,7% têm mais de dez anos de uso.
Com tantos problemas, a equipe de intervenção tem preferido corrigir falhas muito evidentes para manter a operação do sistema de transporte mais saudável. A discussão sobre o contrato ficará para o último período da intervenção.
“A prioridade da intervenção tem sido estabilizar a operação, restabelecer controles essenciais, corrigir fragilidades passíveis de tratamento imediato e estruturar informações e processos que permitam a continuidade da recuperação posteriormente”, diz o relatório.
Primeiro relatório da intervenção
A Câmara Municipal de Campo Grande recebeu, em 22 de setembro de 2026, o relatório sobre os primeiros 90 dias de trabalho da equipe de intervenção do Consórcio Guaicurus.
O documento com 177 páginas foi entregue ao vereador Lívio Leite (União), presidente da Comissão de Transportes do Legislativo municipal.
Como mostrou o Jornal Midiamax, o documento contém uma série de falhas e irregularidades cometidas pelos empresários do ônibus desde o início da concessão, em 2012.
À reportagem, o interventor-chefe, Alex Oliveira, adiantou que o documento derruba a tese dos sócios da concessionária de desequilíbrio do contrato e de necessidades constantes de mais repasses públicos, além de aumentos na tarifa aos passageiros. “Tinha sucateamento [da frota] e muitas decisões erradas. Quem paga essa conta é o cidadão. Encontramos grandes problemas em como eles [sócios do Consórcio Guaicurus] conduziram o contrato nesse período”, completou.
Os empresários dos ônibus deixaram as contas do Consórcio com os limites bancários ‘estourados’, com o limite de crédito utilizado de R$ 12.964.826,44, de um total de R$ 13.130.000 disponibilizados pelos bancos Bradesco e Santander.
Além disso, havia apenas R$ 415.198,44 disponíveis nas contas das empresas de ônibus, nas vésperas do pagamento do adiantamento salarial, que totaliza R$ 1.035.784,72 e é pago todo dia 20 de cada mês.
O cenário foi considerado pela intervenção como “um quadro de extrema fragilidade financeira e operacional”.
O que diz o Consórcio Guaicurus?
Após a divulgação do relatório preliminar, o Consórcio Guaicurus emitiu comunicado para contestar os principais trechos do documento. Leia a nota na íntegra.
“O Consórcio Guaicurus reitera que operou o Sistema Integrado de Transporte Público de Campo Grande sob uma conhecida situação de desequilíbrio econômico-financeiro do contrato de concessão 330/2012. Esse cenário foi gerado pela falta de revisão contratual em 2019 e 2026, bem como pelo atraso e não pagamento integral do subsídio tarifário previsto no quarto termo aditivo de 2022.
Portanto, as falhas, supostamente trazidas no relatório parcial, não decorreram da atuação do Consórcio Guaicurus, operador que durante anos geriu o serviço sem as condições necessárias para sua administração, mas sim da postura da Prefeitura de Campo Grande, que jamais cumpriu o contrato conforme previsto. As dívidas indicadas no relatório parcial da Comissão de Intervenção revelam, justamente, o desequilíbrio que o Consórcio sempre apontou existir.
O Consórcio Guaicurus já apresentou sua posição sobre o tema a diversas autoridades em oportunidades anteriores, e continuará a fazê-lo ao manifestar seus argumentos nos autos do processo administrativo. Independentemente do anúncio de relatórios que só revelam o que sempre dissemos, a concessionária segue empenhada em buscar uma solução para o Sistema de Transporte Público de Campo Grande.”
Intervenção no Consórcio Guaicurus
Em 16 de junho de 2026, a prefeita de Campo Grande, Adriane Lopes (PP), decretou intervenção na concessão do transporte coletivo. Foi nomeada uma junta interventora no lugar da diretoria do Consórcio Guaicurus.
A equipe de interventores é comandada pelo advogado Aléxandro Adriano Lisandro de Oliveira e tem como membros Rodolfo Bahiense Fernandes (administrativo-financeiro), Alexandre Souza Moreira (jurídico) e Robson Tadeu Pereira (operacional). Os interventores recebem salário baseado na remuneração dos executivos do Consórcio Guaicurus.
Essa junta administra a concessão durante o período de intervenção e pode praticar atos como:
- Assumir a gestão administrativa, jurídica, operacional e financeira da concessão;
- Nomear equipe técnica de apoio e expedir ordens de serviço;
- Requisitar registros contábeis, ter acesso aos bens vinculados à prestação do serviço, como garagens, oficinas e terminais;
- Determinar auditorias e inspeções, adotar medidas urgentes para garantir a continuidade dos serviços;
- Rever procedimentos operacionais e de manutenção da frota; e
- Apresentar plano de ação para sanar as irregularidades identificadas.
O município vinha cobrando melhorias da concessionária diante de diversos problemas, desde ônibus velhos até atrasos nas linhas. Em setembro de 2025, a Câmara Municipal concluiu a CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) do Transporte recomendando a intervenção.
Uma ação popular foi protocolada em 26 de novembro de 2025, pedindo a intervenção imediata. No dia 17 de dezembro, o juiz Eduardo Lacerda Trevisan, da 2ª Vara de Direitos Difusos, Coletivos e Individuais Homogêneos, determinou que a Prefeitura decretasse a medida em 30 dias.
A Prefeitura contestou a decisão, alegando que deveria haver uma etapa de apuração antes da intervenção. O magistrado concordou e, em 6 de março de 2026, a Prefeitura criou um grupo de trabalho para avaliar a situação do Consórcio Guaicurus.
Três meses depois, em 8 de junho de 2026, a comissão recomendou a intervenção. Oito dias depois, a prefeita Adriane Lopes decretou o afastamento da diretoria do Consórcio e nomeou uma junta interventora vinculada ao município para operar diretamente o serviço e apurar as irregularidades apontadas pelo grupo de trabalho.
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(Revisão: Nichole Munaro)






