Com tornozeleira eletrônica, o despachante David Clocky Hoffaman Chita pediu à Justiça para derrubar as medidas cautelares que estariam atrapalhando sua rotina de trabalho e vida pessoal. Chita é pivô de diversos escândalos no Detran-MS (Departamento Estadual de Trânsito) e responde a processos por fraude no órgão.
Ele alega que mantém uma padaria e uma oficina mecânica e precisa alterar a categoria da CNH — mas não pode se aproximar das agências do órgão por conta das cautelares. David foi preso em dezembro de 2025, mas conseguiu a liberdade monitorada com as medidas cautelares em maio deste ano.
Além disso, Chita alega que a proibição de contato com seu ex-sogro e corréu no processo, o também despachante Edilson Cunha, tem atrapalhado as relações familiares, já que Edilson é avô do seu filho.
Justiça disse não
As justificativas elencadas pelo despachante não foram suficientes, e a Justiça negou os pedidos. O juiz lembrou que David ficou foragido por mais de 1 ano e meio entre 2024 e 2025.
“Nesse contexto, entendo que a alegada necessidade de alteração da categoria da Carteira Nacional de Habilitação, em razão das atividades empresariais desempenhadas pelo réu David, não constitui motivo suficiente a justificar a flexibilização ou revogação das medidas cautelares impostas, tendo em vista que a instrução processual ainda se encontra em andamento”, diz.
A Justiça alega que os trâmites para alteração da CNH podem ser feitos por meio de procuração à pessoa de confiança do despachante. Já quanto ao pedido para voltar a conviver com o ex-sogro, a Justiça diz que não há elementos para permitir a aproximação, já que David não mantém mais um relacionamento com a filha de Edilson.
“[…] os acusados respondem pelos crimes de organização criminosa, falsidade ideológica e corrupção passiva, supostamente praticados em unidade de desígnios, circunstância que recomenda a preservação da medida restritiva, uma vez que o contato entre os corréus pode influenciar a colheita da prova, especialmente considerando que a fase instrutória ainda não foi encerrada”, traz a decisão judicial.
Além disso, o juiz deixou um recado claro para David: “Consigno que eventual descumprimento das medidas impostas poderá ensejar a sua substituição por medidas mais gravosas, inclusive com a decretação da prisão preventiva”.
Fraudes no Detran-MS
Conforme investigação do Dracco (Departamento de Repressão à Corrupção e ao Crime Organizado), David teria conseguido liberar documentações de veículos com restrições. Yasmin recebia propina para, clandestinamente, dar baixas em caminhões com restrições, em fraude cometida em conjunto com o despachante David Cloky Hoffaman Chita.
De acordo com o relatório de investigação policial, que está em sigilo, ao qual o Jornal Midiamax teve acesso, David pagava Yasmin pelos serviços. Foi apurado que ela ganhou um iPhone 15 Pro Max — que foi entregue a ela em uma cesta dentro do Detran-MS —, joia e eletrônicos, como ar-condicionado e televisão, além de valores em dinheiro no Pix.
David tentou delação para acusar Beto Pereira de chefiar esquema

Em entrevista exclusiva ao Jornal Midiamax no ano passado, David Chita apontou o deputado federal Beto Pereira (Republicanos) como chefe do esquema de corrupção no Detran-MS. Beto Pereira sempre negou as acusações.
O despachante afirmou que tinha como provar todas as acusações e que a possível delação poderia derrubar suposta quadrilha com servidores do órgão, empresários, delegados de polícia, assessores e políticos.
Chita é velho conhecido do grupo político do qual Beto Pereira participa e é citado em diversas investigações por fraudes no Detran-MS.
Além disso, o esquema de propinas e fraude no sistema de cadastro do Detran-MS não é novo e foi denunciado antecipadamente em reportagem do Núcleo de Jornalismo Investigativo do Jornal Midiamax, em 2020. A Operação Gravame confirmou as denúncias e até chegou a alguns servidores, mas a suposta blindagem de políticos na atuação do MPMS manteve o grupo a salvo.
A delação foi oficialmente apresentada ao MPMS — inclusive, o Jornal Midiamax colaborou com as investigações, entregando pen drive com a entrevista completa de David. No entanto, por envolver deputado federal, a denúncia foi remetida à PGR (Procuradoria-Geral da República), em Brasília, que arquivou o caso. A justificativa foi por “ausência de elementos”.
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(Revisão: Nichole Munaro)








