Dados divulgados pela SES-MS (Secretaria de Estado de Saúde de Mato Grosso do Sul), no Boletim Epidemiológico de Mortalidade Materna, Fetal e Infantil, referente ao ano de 2025, chamam a atenção de especialistas para a importância de identificar possíveis complicações durante e após a gestação, principalmente a partir do pré-natal.
Conforme o boletim, no ano passado, 21 mães morreram ao dar à luz. A principal causa da mortalidade materna foi a pressão alta, seguida de hemorragia. A hipertensão foi responsável por 38,09% (8) dos óbitos maternos no Estado. Já a hemorragia matou 33,33% (7) das mães. Duas delas (9,52%) morreram de tuberculose, e outras quatro (19,04%) de causas não especificadas no informativo. Ainda conforme o boletim, 47,6% das vítimas tinham entre 30 e 39 anos.
Campo Grande liderou o ranking estadual de mortalidade materna, com seis óbitos. Depois, Nova Alvorada do Sul e Dourados registram duas mortes cada. Por fim, houve uma morte materna em Aparecida do Taboado, Batayporã, Cassilândia, Chapadão do Sul, Coronel Sapucaia, Coxim, Japorã, Nova Andradina, Paranhos, Sidrolândia e Terenos.
Importância do pré-natal
Diante do cenário, a médica obstetra Vanessa Chaves reforça que o pré-natal é indispensável, pois permite acompanhar a evolução da gestação, identificar fatores de risco e antecipar cuidados específicos, quando necessário.
No entanto, o acompanhamento não se resume apenas à quantidade de consultas e à frequência com que a gestante procura o médico. Para que o acompanhamento cumpra seu papel, é preciso que, de fato, os riscos sejam reconhecidos, classificados e encaminhados adequadamente ao longo da assistência.
Para isso, é necessário observar o que acontece durante as consultas e depois que um risco é identificado. “O grande desafio é avaliar a qualidade das consultas. Em tese, o número de consultas seria suficiente para identificar riscos. O que vemos, porém, é que muitas vezes esse risco não é classificado e, quando é, existe uma demora para que essa paciente chegue ao serviço terciário, de alto risco.”
Vanessa acrescenta que o cuidado vai além das consultas, pois, além da possibilidade de surgimento ou agravamento durante a gestação, as complicações podem ocorrer durante o parto e no período posterior. Por esse motivo, o cuidado exige que a própria mulher, a família e as equipes de saúde consigam reconhecer mudanças importantes e agir rapidamente.
Você conhece o conceito das ‘quatro demoras’?
Ao investigar as mortes maternas, Vanessa explica que as causas podem estar interligadas a diferentes pontos em que a assistência pode demorar para agir. Esse conceito é chamado de “quatro demoras” pela médica.
A primeira acontece quando a mulher ou a família não reconhece que determinado sintoma pode indicar uma complicação, enquanto a segunda ocorre quando a gestante procura uma unidade de saúde, mas o problema não é identificado pela equipe.
Já a terceira demora acontece no intervalo entre o diagnóstico ou a suspeita de uma complicação e a chegada da gestante ao serviço de referência. Por fim, a quarta acontece já dentro do hospital, quando há demora no diagnóstico ou na definição da conduta.
“Essas demoras ajudam a entender onde a assistência pode falhar. A paciente precisa reconhecer que alguma coisa está diferente, a equipe precisa identificar o risco e, quando necessário, garantir que ela chegue ao serviço adequado”, frisa Vanessa.
A médica destaca que o pré-natal é uma das etapas desse percurso, mas não funciona de forma isolada. A efetividade do acompanhamento também depende da continuidade do cuidado e da capacidade da rede de responder quando surge uma alteração importante.
Quais sinais merecem atenção?
Entre as principais causas de mortalidade materna citadas pela obstetra, estão as doenças hipertensivas, as hemorragias e a sepse.
No caso da hipertensão, os sinais de atenção incluem: dor de cabeça, inchaço desproporcional, ganho rápido de peso, tontura e alterações na visão. Vanessa ressalta que esses sintomas não devem ser naturalizados durante a gestação e precisam ser avaliados por profissionais de saúde.
Outro ponto a ser avaliado é o histórico da mulher — ou seja, se a gestante já teve hipertensão ou possui histórico familiar da doença. Isso deve ser prontamente informado à equipe médica.
Já o risco de hemorragia é avaliado com base no histórico de sangramento em parto anterior, múltiplas cesarianas ou vários partos anteriores. “Cada patologia tem seus fatores de risco e seus sinais. A paciente e a família precisam receber informação para perceber quando alguma coisa está diferente e levar essas informações para a equipe de saúde.”
Quando o risco vira emergência?
Segundo a médica obstetra Vanessa Chaves, mesmo seguindo o acompanhamento da forma adequada, podem ocorrer situações em que uma complicação evolui e exige atendimento imediato. Diante dessas ocorrências, o tempo de resposta e a preparação da equipe podem ser decisivos para a gestante e o bebê.
A médica destaca, ainda, que o reconhecimento de uma emergência obstétrica não depende apenas do médico, visto que a paciente passa por diferentes profissionais ao longo do atendimento, e cada um deles pode identificar uma mudança importante e contribuir para uma intervenção mais eficaz.
“É o enfermeiro que faz a classificação de risco, é o técnico de enfermagem que afere a pressão, e são vários profissionais acompanhando essa paciente. Essa avaliação precisa acontecer várias vezes ao longo do atendimento, não apenas na admissão”, expressa a médica.
Para que a equipe esteja preparada para identificar os sinais e agir, é necessário investir em qualificação contínua. A mortalidade materna e o preparo das equipes, inclusive, são temas de discussão em debate promovido pela Sogomat (Sociedade de Ginecologia e Obstetrícia de Mato Grosso do Sul), que está sendo realizado em Campo Grande durante os dias 24 e 26 de setembro.
Preparo das equipes é fundamental
Segundo Vanessa, a proposta é levar atualização científica aos obstetras e aproximar o debate da realidade encontrada na assistência. “A sociedade tem esse papel de levar conhecimento científico e atualização aos obstetras, além de mostrar como os treinamentos e a educação continuada podem fazer diferença na assistência.”
Vanessa cita como exemplo o OBCODE, curso oferecido pela CoreHelp para capacitar equipes no atendimento a emergências obstétricas. A formação aborda o reconhecimento rápido dos quadros, a organização da assistência e a atuação integrada dos profissionais em situações que exigem resposta imediata.
Segundo o instrutor do curso, Denis Corrêa, treinar previamente as equipes permite que os profissionais estejam mais preparados para lidar com situações críticas. “Em uma emergência obstétrica, cada profissional precisa saber reconhecer a gravidade da situação, entender seu papel e atuar de forma coordenada. O treinamento permite que a equipe pratique essa resposta antes de enfrentar um caso real.”
Por fim, Vanessa ressalta que a necessidade de treinar e instruir as equipes para darem uma resposta rápida às emergências vale tanto para os serviços públicos quanto para os privados, visto que casos de morte materna e de “near miss” — quando a mulher enfrenta uma condição grave, mas sobrevive — ocorrem em ambos os serviços.
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(Revisão: Nichole Munaro)






