Por André Borges, advogado e professor de direito constitucional
O cenário jurídico de Mato Grosso do Sul testemunha um movimento singular com o anúncio do pedido voluntário de exoneração de Ary Raghiant Neto do cargo de desembargador do Tribunal de Justiça Estadual. Após um período de intensa entrega à magistratura sul-mato-grossense, Raghiant optou por encerrar seu ciclo naquela Corte para retornar à sua gênese profissional: a advocacia. Essa transição, embora rara em cargos de tamanha magnitude, revela a inquietude de um espírito forjado no debate e na defesa de direitos fundamentais, reafirmando que a vocação, quando fala mais alto, não conhece fronteiras institucionais.
Sua passagem pelo Tribunal de Justiça, ainda que em um recorte temporal que muitos desejariam ver estendido, foi marcada por uma dignidade exemplar e uma produtividade que impôs um novo ritmo de trabalho. Ary Raghiant honrou a toga e a instituição enquanto por lá esteve, demonstrando que a experiência acumulada em décadas de labuta no fórum é um ativo valiosíssimo para a entrega de uma prestação jurisdicional equilibrada. Ele não foi apenas um julgador; foi um magistrado que compreendeu a urgência do tempo do jurisdicionado, trabalhando incansavelmente para que os processos sob sua relatoria não fossem meros números, mas respostas sociais efetivas.
A qualidade de suas decisões tornou-se uma marca registrada, unindo o rigor técnico à sensibilidade prática de quem conhece as agruras do direito aplicado. Raghiant trouxe para o gabinete a visão multidimensional de quem entende que uma sentença repercute muito além dos autos, influenciando a segurança jurídica e a estabilidade das relações sociais. Suas fundamentações, robustas e claras, elevaram o nível dos debates no Tribunal, deixando um legado de jurisprudência moderna e alinhada aos anseios de uma sociedade que clama por justiça ágil e coerente.
Um ponto de destaque inafastável em sua trajetória na magistratura foi o olhar atento e respeitoso dispensado aos honorários advocatícios. Compreendendo a natureza alimentar dessa verba e a importância de parâmetros legais claros, Raghiant atuou como um guardião da dignidade profissional, observando com rigor o que preceitua a legislação processual. Ao evitar o aviltamento dos honorários, ele não apenas aplicou a lei, mas reconheceu o valor social do advogado, fortalecendo a ideia de que um Judiciário forte só existe com uma advocacia valorizada e respeitada em suas prerrogativas fundamentais.
É preciso registrar que Ary Raghiant Neto é, acima de tudo, um advogado querido e respeitado pelos seus pares. Sua saída do tribunal e o consequente retorno à Ordem dos Advogados do Brasil são recebidos com entusiasmo por uma classe que sempre viu nele um interlocutor ético, acessível e profundamente humano. O carinho demonstrado pelos colegas de profissão não é fruto do acaso, mas de uma vida inteira dedicada ao bom convívio e à defesa intransigente dos valores que regem a comunidade jurídica, mantendo a humildade mesmo quando investido de alto poder estatal.
O retorno à advocacia deve ser celebrado como o regresso de um protagonista a um palco que lhe é familiar e onde sua voz ressoa com autoridade. Trata-se de uma profissão que exige coragem diária, dedicação absoluta e um volume de trabalho que consome os dias e as noites daqueles que se propõem a ser a voz de quem não pode falar por si. Raghiant demonstra uma bravura notável ao abdicar do prestígio e das garantias da magistratura para retomar o combate na planície, onde o direito é disputado palmo a palmo, exigindo resiliência e um amor incondicional pela justiça.
A advocacia sul-mato-grossense ganha um reforço de enorme peso. Ao reintegrar as fileiras dos advogados, Ary traz consigo a experiência privilegiada de ter visto o processo por todos os ângulos, o que certamente enriquecerá sua atuação estratégica. Essa passagem profissional – ser um advogado que se tornou juiz e agora volta a ser advogado – confere a ele uma compreensão abrangente do sistema de justiça, permitindo que suas futuras peças processuais e sustentações orais sejam mais precisas e persuasivas.
Neste momento de transição, é imperativo reconhecer que o Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul perde um de seus membros mais operosos, mas o Estado ganha um defensor da legalidade ainda mais revigorado. A trajetória de Raghiant prova que é possível transitar pelas mais altas esferas do poder sem perder a essência, mantendo o compromisso com o trabalho árduo e com a retidão de caráter. Seu exemplo serve de inspiração para jovens profissionais que buscam no direito uma forma de transformar a realidade social através do esforço contínuo e do estudo sério.
Comemoramos, portanto, este novo capítulo na vida deste ilustre causídico. Que a beca, agora novamente seu traje oficial, seja o símbolo de novas vitórias e de uma atuação pautada pelo mesmo brilhantismo que marcou sua vida pública. O retorno de Ary Raghiant à advocacia é um lembrete de que o verdadeiro jurista não se define pelo cargo que ocupa, mas pela dedicação com que serve à causa da justiça, independentemente do lado da bancada em que se encontre.
Desejamos que este recomeço seja trilhado com o sucesso habitual, sob a égide da coragem que sempre lhe foi peculiar. Mato Grosso do Sul assiste ao retorno de um de seus filhos mais dedicados à arena do direito, certo de que sua contribuição continuará sendo fundamental para o fortalecimento da democracia e do império da lei. Seja bem-vindo de volta ao lar da advocacia, prezado Ary Raghiant Neto; sua coragem é o combustível que mantém viva a chama da nossa profissão.





