A 1ª Delegacia de Polícia Civil de Campo Grande investiga se a causa das mortes de pacientes renais foi “descaso da clínica” de hemodiálise DaVita, localizada na Rua 13 de Maio, no bairro São Francisco, em Campo Grande. A polícia identificou indícios de remédios vencidos e falta de higiene na unidade de saúde.
Além de inquérito aberto pelo MPMS (Ministério Público de Mato Grosso do Sul) e de processo administrativo sanitário em julgamento na SES-MS (Secretaria Estadual de Saúde de MS), a DaVita Campo Grande é alvo de investigação policial que busca identificar quem é responsável pelos incidentes na clínica.
“[Queremos saber] se a responsabilidade pela morte foi um descaso da clínica, uma má limpeza dos aparelhos, do próprio ambiente onde eram feitas as hemodiálises, se o pessoal teve treinamento adequado”, detalha Danilo Mansur, delegado responsável pelo caso, ao Jornal Midiamax.
As investigações começaram depois que, no dia 27 de abril, pacientes precisaram de socorro médico ao mesmo tempo durante sessão de hemodiálise, e alguns foram internados. Um morador de Aquidauana, de 62 anos, morreu no dia 30, internado na Capital. A causa da morte foi registrada como “septicemia bacteriana e pneumonia”. Outra paciente morreu no dia 18 de maio, após internação.
‘Remédios vencidos e falta de protocolos’
A polícia investiga se houve crime de perigo para a vida ou saúde de outrem, além de falsificação, corrupção, adulteração ou alteração de produto destinado a fins terapêuticos ou medicinais.
“Parece que tinha produtos vencidos ali, remédios vencidos. Os próprios capilares que eram utilizados durante a hemodiálise não seguiam o protocolo, que deve ser seguido para evitar contaminação. Tem uma série de questões que pode, sim, ter ocasionado uma contaminação”, diz o delegado responsável pela investigação.
Pacientes já foram ouvidos pela polícia e há mais procedimentos previstos. “A gente depende dos resultados de exames periciais. Vão vir oitivas de pacientes, parentes das vítimas que faleceram, gestores, médicos e enfermeiros. É uma investigação longa”, diz o delegado.

Nos depoimentos já realizados, a polícia ouviu relatos de falta de higiene, com relação à limpeza de aparelhos de hemodiálise, além de alta rotatividade de pessoal. “Eles não mantêm equipe fixa, e isso causa alternância dos enfermeiros e médicos, que, muitas vezes, não têm preparo para lidar com aquelas máquinas”, detalha Danilo Massur.
Além das mortes, foram identificados pacientes com lesões na pele, que seriam sequelas da possível contaminação. Ainda conforme a autoridade policial, indícios preliminares da investigação apontam que a qualidade do atendimento caiu depois que empresa multinacional assumiu os serviços, privilegiando o lucro.
No entanto, o delegado Danilo Mansur pondera que é necessário aguardar laudos do Instituto Médico Legal e da perícia para obter elementos e definir se a clínica é responsável pelas mortes ou não. “A gente está fazendo com muito cuidado para não responsabilizar ninguém antes do tempo e ser o mais justo, mais imparcial possível.”
Abertura de inquérito
O MPMS (Ministério Público de Mato Grosso do Sul) instaurou inquérito para apurar irregularidades na clínica de hemodiálise DaVita Campo Grande. A investigação encontrou 12 falhas sanitárias relacionadas à segurança dos pacientes, à higienização de equipamentos, ao controle da qualidade da água, aos registros assistenciais e à comunicação de eventos adversos.
O inquérito civil foi instaurado em 29 de julho e oficialmente aberto no dia seguinte. O procedimento permanece em tramitação até a conclusão das investigações e a adoção das medidas cabíveis.
Agora, a clínica deverá apresentar, no prazo de 20 dias, comprovação de providências adotadas para corrigir as 12 irregularidades encontradas pelos fiscais. A Vigilância Sanitária do Estado deve informar se as exigências foram cumpridas, se houve novas inspeções e qual o resultado do processo administrativo sanitário aberto em maio. Já a Polícia Civil deverá informar à Promotoria o andamento do inquérito policial que apura os fatos relacionados à clínica.
Ao Jornal Midiamax, a SES-MS informou que “o serviço de hemodiálise da clínica DaVita Campo Grande permanece sob monitoramento. O processo administrativo sanitário instaurado para apuração dos fatos ainda não foi concluído e encontra-se em fase de julgamento pelas instâncias superiores, conforme o rito previsto na legislação sanitária”.
Reúso de capilares
Pacientes e ex-funcionários da clínica informaram à reportagem que era comum os capilares arrebentarem durante o uso, o que causava transtornos no tratamento. Além disso, segundo os relatos, os capilares só eram reutilizados em pacientes do SUS (Sistema Único de Saúde). A clínica DaVita nega.
Há dois anos, uma pessoa alertou a clínica DaVita sobre o assunto, em avaliação no Google. “Penso que precisam se preocupar mais com o risco de infecções, lavagens de capilares, desinfecção no local da fístula. Estão ocorrendo sempre infecções em corrente sanguínea, por favor, vejam isso mais de perto”, escreveu.
A Vigilância Sanitária Estadual informa que a reutilização de capilares até 20 vezes para o mesmo paciente não é proibida, “desde que mantenha processos rigorosos de limpeza e desinfecção” e “caso o capilar esteja íntegro e em pleno funcionamento”.

3ª maior clínica de hemodiálise do SUS em MS
A clínica DaVita, no bairro São Francisco, em Campo Grande, é a terceira maior de Mato Grosso do Sul em atendimentos pelo SUS (Sistema Único de Saúde). A unidade possui 57 aparelhos de hemodiálise e atende 273 pessoas, com uso exclusivo do sistema público.
A segunda unidade da DaVita, na Rua Antônio Maria Coelho, é a segunda maior. A clínica destina 50 aparelhos de hemodiálise ao SUS, com 300 pacientes.
Inclusive, pacientes do interior de Mato Grosso do Sul recebem atendimento nessas unidades de saúde. Outra publicação expõe que, além de moradores da Capital, pessoas de outras 16 cidades do Estado são encaminhadas para hemodiálise na DaVita. Pelo menos duas pessoas que passaram mal eram do interior.
A DaVita possui convênio para receber incentivo financeiro público para a Atenção Especializada em Doença Renal Crônica, o que inclui custeio das sessões de hemodiálise e ampliação do acesso à diálise peritoneal para pacientes crônicos no SUS.
O que diz a DaVita?
“A DaVita Tratamento Renal não comenta investigações ou procedimentos em andamento, respondendo a eles nas devidas instâncias. A empresa permanece à disposição das autoridades para prestar todos os esclarecimentos necessários, colaborando integralmente com as apurações e atendendo às solicitações recebidas.“
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(Revisão: Nichole Munaro)








