Empresária campo-grandense de 33 anos resolveu compartilhar nas redes um episódio marcante de sua vida. Por escolhas tomadas na juventude, ela foi alvo de mandado de prisão, em 2020, por associação ao tráfico de drogas e ao crime organizado. Ciente da ordem judicial, a mulher ficou foragida por 11 meses, quando resolveu se entregar à polícia de Campo Grande (MS) em maio deste ano por amor à filha.
“Para evitar o trauma de uma eventual prisão na presença da minha filha, tomei a iniciativa de enfrentar a situação e assumir a responsabilidade pelas minhas ações”, relembra a empresária em entrevista ao Jornal Midiamax. À época, sua filha era recém-nascida, com apenas quatro dias de vida.
Quando a bomba estourou, a campo-grandense trabalhava como técnica de enfermagem e ficou sob custódia durante dois dias. A curta estadia na prisão foi respaldada pela Lei nº 13.769, que estabelece prisão domiciliar para mulher gestante ou responsável por crianças dependentes. Após quatro anos, com o uso de tornozeleira durante quase dois deles, ela relata que a consciência de seus atos começou a vir à tona.
“Esse capítulo da minha vida mudou completamente a minha forma de enxergar tudo. Antes eu achava que algumas coisas ficavam no passado, mas eu aprendi que, dependendo do tipo de escolha que a gente fizer na nossa vida, com certeza vai ter consequência por muitos anos. Mas, depois de tudo isso, eu passei a valorizar coisas simples que antes eu não valorizava tanto, como estar na minha casa, poder trabalhar, olhar o céu, andar na rua. Estar perto da minha família e da minha filhinha, né? A liberdade, ela não tem preço que pague”, observou.
Em 2025, no entanto, decisão judicial a sentenciou à pena de cinco anos em regime fechado pelo crime de associação ao tráfico de drogas e a inocentou da acusação de associação ao crime organizado. Quando soube da sentença, a empresária fugiu, período em que ficou foragida por 11 meses. Para ela, a pena já havia sido cumprida.
“Eu fugi e entrei em contato com a minha advogada, porque essa pena já se encontrava paga. Eu já havia cumprido 1 ano e 8 meses de tornozeleira e eu já havia cumprido outras medidas diversas da prisão que também contam como a pena em si”, contou.
Nesse tempo, a evadida ficou na expectativa de que algum juiz revogasse a sentença, o que não aconteceu. Diante de tais circunstâncias e do modo como estava vivendo, privada de sua liberdade, além do impacto que a história poderia causar à sua filha, ela resolveu se entregar.
“Eu vivia em constante temor, sem paz ou tranquilidade. Com a virada do ano, comecei a me preparar psicologicamente e a organizar a rotina familiar para enfrentar a realidade. Decidi encerrar a fuga, principalmente em consideração à minha filha pequena, que depende de mim”, frisou.
Atualmente, a empresária cumpre pena em liberdade condicional.
A história nas redes
A decisão de relatar o ocorrido no TikTok surgiu com o objetivo de conscientizar os seguidores e discutir o estigma que ex-detentos sofrem.
“Eu decidi compartilhar minha história porque eu percebi que ela poderia servir de alerta para outras pessoas. Eu vivi as consequências dos meus erros e eu quero usar essa experiência para falar sobre arrependimento, família, liberdade e recomeço também”, explicou.
Após tornar pública sua experiência, a campo-grandense confessa ter ficado surpresa com a repercussão.
“Muitas pessoas começaram a se identificar com o que eu tinha postado, por causa de familiares presos, ou alguns estavam com saudade da mãe por causa disso e outros, por recomeço, por ser sobre pessoas que também erraram e mudaram de vida”, detalhou.
Mas a empresária acrescenta que o preconceito veio à tona e, com ele, os julgamentos. Contudo, ela preferiu focar em quem se identificou com o conteúdo. A detenta também revela que recebeu total apoio dos familiares quando souberam que ela criaria um perfil na internet para contar sua história.
“Minha família ofereceu um apoio fundamental, especialmente minha mãe, que me acolheu sem qualquer julgamento. Quanto à internet, eu estava ciente de que críticas surgiriam, dado o preconceito enraizado em torno do sistema prisional”, afirmou.
Sobre o impacto de seu passado em sua filha, atualmente com cinco anos, ela revela que tem sido uma experiência marcada por muita conversa e, atualmente, a criança tem uma boa relação com o passado da mãe.
“A minha filha é uma criança muito inteligente. Então eu expliquei que, quando a gente comete alguma coisa errada, mesmo que seja lá atrás, existe consequência quando a gente se torna adulto. Se a gente não faz as coisas certas, a gente é penalizado. Em relação à rede social, ela acha tudo muito engraçado e gosta”, acrescentou.
Atualmente, a empresária tem um perfil no TikTok com mais de 7 mil seguidores. A conta, criada em 2020, foi transformada em um “diário” relatando sua trajetória neste mês. Desde então, os seguidores têm reagido expressivamente às suas postagens, que foram de 13 mil visualizações para mais de 700 mil.
“Minha intenção ao contar essa história não é romantizar a prisão nem me fazer de vítima. É falar sobre consequências, recomeço e como uma escolha errada pode mudar a vida de uma pessoa e da família”, finalizou.
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(Revisão: Nichole Munaro)










