O pessimismo, a decepção e a desconfiança em relação à classe política foram predominantes em contato com a população de Sidrolândia, após a operação do Gecoc (Grupo Especial de Combate à Corrupção) e do Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado) deflagrada na cidade, implicando vereadores, a vice-prefeita Cristina Fiúza (MDB), gestores da saúde e empresários.
O Jornal Midiamax visitou o município nesta segunda-feira, 24 de novembro, para ouvir a opinião dos moradores e buscar contato com autoridades locais. O sentimento geral é de frustração e ceticismo sobre a integridade e a eficácia dos agentes públicos.
As manifestações dos sidrolandenses apontam para uma crença de que a rotatividade de líderes não tem resultado em melhorias substanciais para a cidade.

Osmídio José da Silva, residente há 25 anos, questionou a eficácia da troca de gestores: “Trocar o quê? Trocar seis por meia dúzia? Não resolve nada. Toda a vida tem problema, mas cada um maior que o outro”.
O sidrolandense também expressou grande pessimismo ao ser questionado sobre a possibilidade de surgir novas lideranças políticas livres do histórico de corrupção. “Vai ser difícil. Tá pra nascer”, disse em tom de desabafo.

Na mesma linha de crítica à continuidade de problemas, o morador Roberto Silva utilizou uma analogia para descrever o cenário: “Só troca o cachorro, que a coleira sempre é a mesma”.
Ele ressaltou o sentimento de desapontamento de quem confia no processo eleitoral, afirmando que erros seguem sendo cometidos eleição após eleição. “A gente vota confiando que vai melhorar e piora”, lamentou.
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O foco das críticas não se restringiu apenas aos eleitos, mas também a servidores e membros do alto escalão do governo municipal. O sidrolandense Paulo Henrique sugeriu que o problema não está somente na figura do prefeito, mas na permanência de pessoas do governo anterior no mandato atual.
“Tem que tirar todos. Pessoal do hospital, alguns secretários, alguns braços direitos de alguns vereadores. Só assim pra começar tudo de novo”, declarou.
Diante do cenário de investigação, Paulo defendeu o afastamento dos envolvidos. “Onde tem fumaça, tem fogo. Então, no mínimo [tem que ser] afastado”, disse.

Com 81 anos de idade, Geraldo de Oliveira apresenta visão cética baseada em sua experiência de vida, alegando que o interesse de muitos políticos está em benefício próprio ou em futuras eleições, e não prioritariamente no bem-estar da população.
“O prefeito, quando entra na cidade — não são todos, mas alguns deles —, se interessa em arrumar a cidade para ganhar na outra eleição”, observou.
Geraldo, que se descreveu como um trabalhador que não espera nada de políticos, fez um apelo para que os gestores municipais pensem mais nos cidadãos que confiam o voto a eles.
“Com o governo bom, o povo se alegra, mas o governo mau, o povo geme”, afirmou, citando versículo bíblico para expressar sua visão sobre o momento crítico na política de Sidrolândia.
Efeitos no emocional coletivo
A manifestação da população de Sidrolândia é bastante semelhante ao que têm vivido os moradores de Terenos. Há poucas semanas, o Jornal Midiamax entrevistou o psicólogo João Pedro Nowak, que defendeu que o abalo na confiança de figuras públicas atinge o ‘vínculo emocional que sustenta a vida coletiva’.
Operações policiais de grande porte em cidades pequenas, como as ocorridas em Terenos e Sidrolândia, podem causar impactos importantes na condição psicossocial da comunidade.
Segundo Nowak, em cidades menores, figuras como prefeitos e vereadores se apresentam de modo muito próximo ao cotidiano da população. “Quando essas figuras são investigadas, o que se abala é a confiança simbólica que organiza o cotidiano”, analisa.
O psicólogo pontua que, a partir disso, precipita-se um ‘sentimento de vulnerabilidade compartilhada’. “É como se a lei e a palavra perdessem o seu valor e revelassem o seu sentido frágil, a sua instabilidade”, detalha.
‘Pix sujo’
Conforme a investigação, foi constatado o desvio de R$ 5,4 milhões em recursos públicos destinados ao Hospital Dona Elmíria Silvério Barbosa. O valor teria sido repassado pelo Governo do Estado à Prefeitura de Sidrolândia para a compra de um aparelho de ressonância magnética e um autoclave hospitalar.
No entanto, percentual importante da verba foi desviado pela direção do hospital e pela empresa fornecedora, a Pharbox Distribuidora Farmacêutica de Medicamentos (CNPJ 20.820.379/0001-93). A empresa ainda teria pagado vantagens indevidas a vereadores.
Os pagamentos eram feitos por meio de transferências Pix diretamente, ou por meio de terceiros, aos parlamentares e ao presidente do hospital, Jacob Breure.
Foram alvos da operação:
- Cristina Fiúza (MDB), vice-prefeita de Sidrolândia;
- Enelvo Felini Júnior, secretário municipal de Desenvolvimento Econômico e Meio Ambiente;
- Izaqueu Diniz, o Gabriel Autocar (PSD), vereador;
- Cledinaldo Cotócio (PSDB), vereador;
- Adavilton Brandão (MDB), vereador;
- Jacob Meeuwis Breure, presidente do Hospital Dona Elmíria Silvério Barbosa;
- Elieu Vaz (PSB), ex-vereador;
- José Ademir Gabardo (Republicanos), ex-vereador;
- Júlia Carla Nascimento;
- Júlio César Alves da Silva;
- Comercial Gabardo (CNPJ 08.217.980/0001-90);
- Gabriel Auto Car (CNPJ 19.409.298/0001-16);
- Farma Medical Distribuidora de Medicamentos e Correlatos (CNPJ 40.273.753/0001-95);
- Pharbox Distribuidora Farmacêutica de Medicamentos (CNPJ 20.820.379/0001-93).
“Dirty Pix”, termo que dá nome à operação, traduz-se da língua inglesa como “Pix sujo”, e faz alusão à natureza ilícita das transferências financeiras utilizadas para viabilizar o esquema.
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(Revisão: Dáfini Lisboa)




