Com o recente anúncio da saída do Consórcio Guaicurus, após 14 anos de operação do transporte coletivo de Campo Grande, os empresários do conglomerado rebateram o que o Jornal Midiamax tem mostrado há anos: o sucateamento do serviço e a situação caótica a que os passageiros campo-grandenses são expostos diariamente.
Em reportagem publicada na terça-feira (21), o Jornal Midiamax relembrou o histórico conturbado do serviço de ônibus da Capital nos anos em que o Consórcio Guaicurus o administrou — desde 2012 —, culminando na intervenção pela Prefeitura, uma medida de última instância para afastar a diretoria da concessionária e evitar o colapso do transporte público.
Em nota divulgada na tarde desta quarta-feira (22), a empresa rebateu as informações apontadas na reportagem e em outras feitas ao longo dos anos, que têm como fontes documentos oficiais, declarações de entes públicos e a própria população, que utiliza o serviço diariamente.
O Consórcio Guaiucus isentou-se ao negar que tenha descumprido o contrato com a Prefeitura de forma reiterada, mas sim que o Poder Concedente — a Prefeitura de Campo Grande — não cumpriu o que estava estabelecido no contrato, como implantação de corredores, construção de mais terminais e revisão contratual.
No entanto, as empresas de ônibus descumprem cláusula que determina a contratação de seguro de responsabilidade civil, geral e de veículos desde 2020. De lá para cá, o Consórcio Guaicurus vem ‘enrolando’ para pagar uma multa de R$ 12 milhões.
Atualmente, a Prefeitura cobra a troca de metade de toda a frota do Consórcio Guaicurus. São 235 veículos de um total de 460 que ultrapassaram — e muito — o limite de idade estipulado em contrato. Foram anos de cobrança do Poder Público e dos passageiros, que chegam a usar guarda-chuva dentro dos ônibus.
A revisão contratual, inclusive, seria o principal entrave para a renovação da frota de ônibus. Isso porque, segundo os empresários, a falta da revisão em 2019 e 2026 teria sido determinante para “comprometer a saúde financeira da concessão”. Apesar disso, perícia homologada pela Justiça revelou que os donos do Consórcio Guaicurus tiveram R$ 68 milhões de lucro nos sete primeiros anos de concessão.
Aliás, nesta semana, parecer do Ministério Público reforçou que não há necessidade, por exemplo, de aumentar a tarifa técnica, dentro de um processo judicial em que os empresários de ônibus tentam receber mais dinheiro público.
Além disso, a empresa admite que deixou de fazer manutenções preventivas — o que é visível diante dos muitos casos de ônibus quebrando e até pegando fogo em Campo Grande —, mas que a falta de recursos alegada nunca prejudicou as corretivas (aquelas após o veículo apresentar defeito).
“Isso foi possível graças aos aportes dos sócios na concessão, informação completamente ignorada pelo veículo de comunicação”, diz a nota, equivocando-se, já que há cinco dias o Jornal Midiamax publicou material que versava sobre os aportes dos empresários para manter a operação.
Segundo auditado pela equipe interventora, os então donos do conglomerado injetaram R$ 3,4 milhões no último aporte realizado — antes de negarem novos valores por conta da intervenção.

Custos da operação
No texto, encaminhado para a redação do Jornal Midiamax, o Consórcio Guaicurus nega que tenha recebido quantias vultosas da Prefeitura e alega que os valores repassados não cobriam os custos da operação do transporte coletivo de Campo Grande.
Apesar disso, neste ano, a Prefeitura publicou leis que garantem R$ 28 milhões de subvenção e R$ 10,5 milhões de isenção do ISSQN (Imposto sobre Serviços de Qualquer Natureza).
Além disso, o grupo ainda recebe repasse que custeia a diferença na tarifa. O público paga R$ 4,95, enquanto o Consórcio recebe R$ 6,57. Até novembro de 2025, quando a tarifa técnica era de R$ 6,17, o valor estimado era de R$ 34,1 milhões/ano.
Isso representa R$ 72,7 milhões de repasses totais do município. Esse valor ainda não conta o repasse do Governo do Estado para o passe do estudante da rede estadual, que gira em torno de R$ 7 milhões.
Entretanto, os empresários do transporte alegam que a situação financeira piorou com a criação das tarifas distintas.
Renovação da frota de ônibus
Os donos do Consórcio ainda se justificam sobre a falta de renovação da frota de ônibus e admitem que a idade média não cumpre o que prevê o contrato, que é de 5 anos. Ou seja, a média da idade dos veículos não deve ultrapassar esse número.
Segundo eles, a média da frota é de 8,9 anos — diferente do que aponta a Agereg (Agência Municipal de Regulação dos Serviços Públicos). Em janeiro deste ano, a Prefeitura de Campo Grande mandou o Consórcio Guaicurus trocar pelo menos 197 ônibus das ruas da Capital.
Segundo a prefeita Adriane Lopes (PP), esse número já chega a 235 veículos. Novamente, a empresa atribuiu a responsabilidade pela falta de renovação da frota à Prefeitura, afirmando que alertou o Poder Público sobre a revisão contratual para o reequilíbrio econômico-financeiro, algo que não foi confirmado em processo judicial.
A própria nota se contradiz ao dizer que a reportagem ignorou a saúde financeira da concessionária. Ao fim do texto, cita trecho da publicação de quarta-feira em que o material traz informação que o próprio Consórcio Guaicurus reitera diversas vezes: a de que passa por crise financeira. Inclusive, já foram noticiadas outras vezes as alegações dos empresários de problemas financeiros por parte da empresa. Inclusive, uma reportagem aponta que o Consórcio Guaicurus estaria à beira da falência.

Isenções fiscais milionárias
Na nota, o Consórcio Guaicurus ainda afirma que a informação sobre as “isenções fiscais e subsídios milionários” é falsa. Entretanto, em março deste ano, a Câmara Municipal isentou o conglomerado de impostos e de subvenção econômica.
Duas leis foram publicadas pela Prefeitura de Campo Grande: a Lei Complementar nº 561/2026 dispõe sobre subvenção econômica ao transporte público na Capital. Assim, o valor fixado na lei é de até R$ 28.016.252,00, com parcelas mensais de até R$ 2.546.932,00.
Conforme a legislação, os valores são para garantir a gratuidade das passagens para estudantes, inscritos para o Enem e demais vestibulares (nas datas das provas), idosos, PcD (pessoas com deficiência) e demais beneficiários.
Já a Lei Complementar nº 562/2026 oficializa os R$ 10.541.152,00 de isenção do ISSQN (Imposto sobre Serviços de Qualquer Natureza). O Consórcio teve esse benefício negado pela Câmara em 2025.
Contudo, a matéria voltou para a Casa de Leis no início deste ano legislativo. Então, com aprovação da Casa em regime de urgência, o município oficializou o benefício de forma retroativa. Ou seja, terá efeito de isenção válido a partir de 1º de janeiro.
Apesar disso, os sócios do Consórcio alegam desequilíbrio financeiro e afirmam que a inviabilidade econômica impede a contratação de um financiamento para a compra de novos ônibus.
Atrasos e inspeções reprovadas
Relatório que fez a Prefeitura decretar a intervenção levou em conta, entre outros motivos, as mais de 15 mil ocorrências por descumprimento de horário e por omissões de viagens, conforme registros da Agetran (Agência de Transporte e Trânsito de Campo Grande).
Segundo a nota da empresa, as 21,9 mil multas aplicadas pela Agetran entre 2021 e 2025 “tiveram diversos motivos”. A empresa ainda minimiza as autuações, que, na prática, prejudicam o dia a dia da população de Campo Grande.
“[…] tais multas deveriam ser confrontadas com a quantidade de viagens realizadas no período, que foram 11.399.414. Isso mostra que as inconformidades apontadas representaram apenas 0,2% da operação global do período”, diz o texto.
A empresa ressalta ainda que vistorias apontaram 299 inconformidades, que foram ajustadas, possibilitando o retorno dos veículos às ruas da Capital. Entretanto, usa dados de mais de 10 anos atrás para afirmar que o índice de aprovação é alto.

“As mesmas vistorias, feitas entre 2012 e 2015, mostraram que o índice de aprovação está próximo de 90%. É importante considerar a idade da frota, que não pôde ser trocada em razão dos problemas contratuais”, ressalta.
Apesar disso, entre as 31 páginas de exposição, a comissão criada em março pela Prefeitura também elenca como agravante o índice de reprovação nas inspeções de segurança veicular. Segundo o apontado, os dados mais recentes evidenciaram o agravamento da situação, passando de 5,4% em 2020 a 18,6% em 2025.
“[…] no agregado do período (agosto de 2020 a março de 2026), das 2.771 inspeções realizadas, 299 resultaram em reprovação por não conformidades técnicas. A conjugação do envelhecimento da frota com o aumento das reprovações revela a deterioração progressiva das condições mínimas operacionais”, traz o documento.
Lucros
O Consórcio Guaicurus ainda diz que as informações sobre os lucros líquidos são falsas. “O sistema operou ao longo de todos esses anos com déficit de recursos, conforme informações prestadas a diversas instâncias do poder público”, traz.
Entretanto, os dados são de perícia contratada pelos próprios empresários do transporte, por R$ 272 mil, e apresentada em juízo.
Perícia do Ibec Brasil (Instituto Brasileiro de Estudos Científicos Ltda.) revelou que o Consórcio Guaicurus teve receita total de R$ 1,8 bilhão de 2013 a dezembro de 2024. Esse é o valor que entrou no caixa das empresas durante o período.
Ainda, o levantamento apontou que, apesar da queda da receita durante a pandemia, o Consórcio Guaicurus conseguiu manter lucro líquido, ou seja, pagar todas as despesas e ainda sobrar dinheiro em caixa. O valor do lucro líquido do Consórcio Guaicurus de 2013 a 2024 foi de R$ 27.283.132,78.
Vale ressaltar que um primeiro laudo — já homologado pela Justiça — havia derrubado a tese do Consórcio Guaicurus de desequilíbrio econômico, revelando lucro de R$ 68 milhões até 2019, acima do projetado para os seis primeiros anos de concessão e aumento patrimonial.
Tarifa técnica x tarifa pública
O Consórcio Guaicurus ainda diz que o valor pago pela população pelas passagens não banca o sistema e que a Prefeitura deveria identificar o custo real para completar o valor. Por isso, pede a revisão contratual da concessão milionária.
O documento cita que a concessionária utiliza ameaça de colapso para forçar o aumento da tarifa técnica e que exige reajustes do Executivo municipal — correção financeira essa que o próprio Consórcio Guaicurus cita no começo da nota enviada.
Vale ressaltar que, seguindo os princípios da imparcialidade no jornalismo, antes de divulgar informações a respeito da empresa, o Jornal Midiamax sempre aciona o Consórcio Guaicurus para ouvir a versão dos empresários.
Entretanto, a concessionária, por várias vezes, retorna com a resposta apenas após a publicação do material. Após a nota divulgada nesta quarta, o Jornal Midiamax vai tomar as medidas cabíveis diante da situação.
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(Revisão: Nichole Munaro)




