As investigações do MPMS (Ministério Público do Estado de Mato Grosso do Sul), por meio do Gecoc (Grupo Especial de Combate à Corrupção), que levaram à prisão do núcleo gestor da Santa Casa de Campo Grande revelam que integrantes da cúpula atuaram para burlar mecanismos de fiscalização interna e direcionar contratos na área de tecnologia.
De acordo com relatórios e áudios interceptados pela promotoria, diretores do hospital garantiram a aprovação de serviços e a liberação de pagamentos a empresas de Maurício Aparecido Benites — um dos presos na sexta-feira (11) —, sem a exigência de comprovação da execução dos trabalhos.
A articulação direta entre a diretoria e o setor privado foi conduzida por Jary de Carvalho Castro, ex-vice-presidente da Santa Casa.
Segundo os documentos do MPMS, em um diálogo interceptado sobre a resistência técnica de funcionários do hospital em relação a um dos sistemas contratados, Jary Castro instruiu Maurício Benites a ignorar a oposição, afirmando que “a caneta está com a gente”.

“A expressão utilizada por JARY CASTRO sintetiza o funcionamento e o poder da organização criminosa no âmbito da Santa Casa, uma vez que eventuais resistências técnicas internas não representavam obstáculo porque o poder decisório permanecia concentrado no grupo que comandava a instituição. O diálogo demonstra domínio sobre a estrutura administrativa e segurança de que as decisões necessárias à contratação seriam impostas internamente, independentemente da oposição dos setores técnicos”, destacou o MPMS.
O processo de contratação investigado envolve a empresa Redvalue Tecnologia, Administração e Serviços. O contrato previa o pagamento mensal de R$ 150.000,00 para a digitalização de prontuários médicos. O diretor financeiro adjunto e presidente do Comitê de Contratos da instituição, Paulo Guilherme Gutierrez Mariosa, autorizou o negócio.
De acordo com a investigação, o comitê também aprovou um termo aditivo que reduziu o volume de serviços exigidos da empresa sem diminuir o valor da remuneração, liberando uma programação financeira de R$ 750.000,00 à contratada.
As apurações indicam que Maurício Benites operava um núcleo empresarial formado pela Redvalue, Exbe e Infortech. O MPMS relata que essas empresas não possuíam atuação independente e compartilhavam direção, estrutura, recursos e empregados para simular concorrência e receber os valores dos contratos.
Grupo estava empenhado em aumentar fontes de receita com novos contratos de tecnologia
Além da Redvalue, o grupo organizava novas substituições de softwares na Santa Casa. Áudios registrados em abril e maio de 2025 demonstram Maurício Benites, Jary Castro e o diretor financeiro Rinaldo Hakme Romano planejando a troca do sistema de gestão hospitalar.
O planejamento estabelecia que o novo software seria testado preliminarmente na clínica ProntoMed antes de ser implementado na Santa Casa.
“Nós faríamos na ProntoMed a instalação do sistema, e a ProntoMed vai ser como se ela estivesse comprando o sistema para a Santa Casa e para ela. Aí eu preciso falar com você e com o Rinaldo para chancelar isso. Aí nós já podemos começar a implantação agora, em maio, na ProntoMed. Na ProntoMed, nós vamos passar todos os perrengues, e aí, quando estiver redondinho lá, a gente sobe para a Santa Casa. Foi uma ideia do Danilo, uma estratégia do Danilo, inclusive, que nós aceitamos e aprovamos, só que eu preciso validar com vocês dois. E o Rinaldo não está me atendendo, ele acha que eu vou cobrar. Conversa com ele e me dá um retorno, por favor, para a gente resolver isso”, disse o empresário ao vice-presidente da Santa Casa, que, na sequência, sugeriu apresentar a estratégia para Alir Terra.
Diretoria da Santa Casa teria aprovado contrato de novos sistemas antes de apresentação formal
Pouco mais de um mês após a conversa, Rinaldo informou ao empresário que a contratação de quatro novos sistemas já estava aprovada internamente pelos diretores, antes mesmo da proposta ser apresentada de forma oficial à diretora-presidente da instituição, Alir Terra Lima, que convocou o empresário para reunião com a cúpula.
“Meu irmão, a doutora pediu para vir segunda-feira na diretoria. Como amanhã eles não se reúnem, não dá. Aí ela pediu para vir segunda-feira. A reunião deles começa umas 9, 10 horas. Mas já está aprovado os quatro sistemas, tá? Eu consegui falar e aí já está aprovado, tá bom? Mas aí ela quer que venha e apresente, você fala. Eu falei que a questão, isso aqui é dado, é nosso, é tudo, já está bem tranquilo. E aí aproveitar e falar do seu sistema já, que eu falei que está pronto, que já dá para trocar MV e tudo também”, afirmou Rinaldo ao empresário.
A reportagem acionou os advogados de Alir e Maurício para posicionamento. Jary Castro e Rinaldo não tiveram suas defesas identificadas até o momento. Ligações ao escritório de engenharia atribuído ao CNPJ de Jary não foram atendidas. Ele não foi preso na sexta-feira (11), durante a Operação Antidotum.
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(Revisão: Nichole Munaro)








