Investigada por desvio de R$ 27 milhões em Mato Grosso do Sul, por meio da Editora Avante, Rhayane Souza Fanaia — dona oficial da empresa — ensinou a técnica por trás do esquema para justificar a escolha da firma na licitação em Porto Murtinho.
Conversas de 2023 interceptadas pelo Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado) mostram que Rhayane entrou em contato com o servidor Marcio de Souza para ‘tirar várias dúvidas’ — questionamentos para burlar o certame e fazer a Avante vencedora.
Rhayane é o nome registrado oficialmente na editora, mas ela era uma peoa no esquema do Clã Jafar. Investigações apontam que Rossana Paroschi Jafar era a verdadeira dona do empreendimento e recebia a maior parte dos ‘lucros’ das fraudes.
‘Preciso de uma boa justificativa’
Conforme relatório do Gaeco, Marcio mantinha contato com Felipe Paroschi Jafar (filho mais velho de Rossana), que passou o número do servidor para que Rhayane tirasse as dúvidas.
Marcio questionou sobre a inexigibilidade, dizendo que Felipe havia citado essa modalidade de licitação. “[…] mas, para isso, preciso de uma boa justificativa no estudo técnico”, disse o funcionário da prefeitura.
Então, a laranja da Avante e ex-nora de Rossana envia um extenso documento com a justificativa usada em outras licitações. “Essa aqui é a justificativa; nele tem todo esse detalhamento, explicando certinho. Se você preferir, podemos fazer esse detalhamento para vocês”, oferece.
Marcio questiona sobre o documento e Rhayane diz que ele pode ser usado como base para fazer o estudo técnico — tudo para manipular o certame e alinhar com a empresa, dando ares de legalidade.

Conforme o Portal da Transparência de Porto Murtinho, a Avante fechou contrato de R$ 249.964,55 com a Secretaria de Educação naquele ano. Na época, a gestão já era do prefeito Nelson Cintra (PSDB).
O Jornal Midiamax acionou o prefeito de Porto Murtinho, questionando sobre o servidor e a licitação fechada em 2023. Cintra afirmou que aguarda o “veredito” do Gaeco.
A reportagem não conseguiu contato com Marcio ou a defesa. O espaço segue aberto para manifestação.
Já a advogada Vitória Xavier Barbosa, que representa Rhayane, afirmou, em nota, que a investigada reafirma sua Inocência e garante que isso será demonstrado ao longo do processo.
‘Balcão de negócios’
Grupo criminoso acusado de desviar R$ 27 milhões em recursos públicos utilizava-se da estrutura da saúde pública para forçar a venda de livros em Mato Grosso do Sul. Os envolvidos foram alvo da Operação Gutenberg.
Conforme o Gaeco, empresários cooptavam servidores por meio do pagamento de propina para condicionar a liberação de serviços de saúde, como a realização de exames médicos e até a disponibilização de leitos em hospitais, para obrigar gestores locais a comprarem o material impresso das empresas do grupo.
Para os investigadores, o modus operandi era um verdadeiro “balcão de negócios” na estrutura da saúde, em que os integrantes do grupo usavam a liberação de exames como ‘moeda de troca’. O objetivo do esquema era obrigar o Poder Público a adquirir esses livros impressos.
Devido a essa forma de atuação, o Gaeco cumpriu mandados em diversos endereços, inclusive no Core (Complexo Regulador Estadual), onde as equipes apreenderam malotes.
Caminho do dinheiro
As investigações do Gaeco mostraram que o dinheiro que caía na conta da editora como pagamento das prefeituras era escoado para os demais integrantes do grupo criminoso.
Rhayane obedecia às ordens do clã Jafar — apontado como o líder do esquema de corrupção, tendo como membros a matriarca Rossana Jafar e os filhos, Olívia e Pedro, que estão presos, e Giovanni, ex-marido de Rhayane.
Os saques seriam realizados por Rhayane e distribuídos aos demais membros da organização criminosa a mando do clã Jafar, como destaca trecho do relatório de investigação do Gaeco.
Reportagem do Jornal Midiamax revelou detalhes de como Rhayane, uma estudante, dona de brechó, virou ‘laranja’ da sogra para ficar com cerca de 1% do lucro do esquema de corrupção.

Clã Jafar comandava esquema
O relatório de investigação do Gaeco aponta que, após a morte em 2021 do patriarca da família Jafar, Mirched, por covid, a viúva, Rossana Jafar, e os filhos, Olívia, Giovanni e Felipe, abriram outros CNPJs para continuar com operações de corrupção.
A Gráfica Alvorada, que ainda pertence ao clã, é implicada em lavagem de dinheiro no contexto da Operação Lama Asfáltica. Quebra de sigilo fiscal apontou que o clã recebia diversas transferências, em sua conta pessoal, da Editora Avante, que firmava contratos com os municípios.
Para o Gaeco, a matriarca da família, Rossana, era a verdadeira cabeça por trás do esquema e da Editora Avante — que levava o nome da então esposa de Giovanni, Rhayane Fanaia.
Durante o cumprimento dos mandados, Rossana foi flagrada com munições intactas e também responde pelo crime de posse de arma de fogo. Foram apreendidos mais de R$ 200 mil em espécie e R$ 3 milhões em cheques durante toda a ação.
Operação Gutenberg
O Gaeco cumpriu 16 mandados de prisão e 43 de busca e apreensão, para desmantelar esquema que fazia da Central Estadual de Regulação um ‘balcão de negócios’.
Confira a lista atualizada de presos na operação:
- Rossana Paroschi Jafar – dentista e dona de gráfica;
- Olívia Paroschi Jafar – médica e dona da Clínica Ross, que também foi alvo;
- Felipe Paroschi Jafar – ex-comissionado na Agesul;
- Giovanni Paroschi Jafar – empresário;
- Rhayane Souza Fanaia – estudante e empresária;
- Ed Carlo Britto Burgatt – ex-chefe da regulação de saúde do Estado (Core);
- Jéssyca Duarte Burgatt – filha de Ed e dona da Capital Saúde;
- Joatan Gomes Peixoto – empresário;
- Matheus Oliveira Peixoto – empresário;
- Francisco Anízio dos Santos – empresário;
- Douglas Henrique de Melo – empresário;
- Paulo Rogério de Melo – empresário e pai de Douglas;
- Gabriel Taquino de Paula – advogado;
- Eronivaldo da Silva Vasconcelos Junior, o Junior Vasconcelos – ex-prefeito de Fátima do Sul e escrivão da Polícia Civil.
- Geancarlo Leal de Freitas – advogado e servidor público (prisão revogada).
Segundo o MPGO (Ministério Público de Goiás), em Abadiânia, foram cumpridos 1 mandado de prisão preventiva — de Rhayane — e 1 mandado de busca e apreensão. Apenas Heyber Bartz continua foragido.
A Operação Gutenberg visa combater organização criminosa acusada de fraude em licitações, corrupção ativa, corrupção passiva, além de lavagem de capitais e outros crimes. O grupo agia em Campo Grande e tinha atuação espalhada em outras cidades do Estado.
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(Revisão: Dáfini Lisboa)









