A violência contra as mulheres em Mato Grosso do Sul continua sendo registrada nas fichas policiais do Estado. Em sete meses, foram 16 mulheres mortas, seja por companheiros ou até mesmo familiares. O caso mais recente aconteceu na tarde de segunda-feira (27), na Vila Bandeirantes, em Campo Grande, e terminou com Terezinha Nantes morta a facadas pelo companheiro, que tirou a própria vida após o crime.
De acordo com o painel de estatísticas da Sejusp (Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública), casos de feminicídio foram registrados no Estado em todos os meses de 2026. O mês mais violento até o momento foi março, quando quatro mulheres foram assassinadas.
Somente em março, o número de feminicídios em Mato Grosso do Sul aumentou em 100% na comparação com o mesmo período de 2025. Se no ano passado o Estado registrou duas mortes em março, em 2026 o total saltou para quatro vítimas.
No primeiro trimestre, MS contabilizou oito vidas ceifadas. Todas elas residiam em cidades do interior. O mês que deveria celebrar as mulheres terminou com famílias enlutadas nas cidades de Ponta Porã, Anastácio, Paranhos e Selvíria.
Em grande parte das ocorrências, o crime se torna o desfecho de um ciclo violento em que as mulheres vivem com ameaças, abusos psicológicos e agressões físicas, que se estendem no silêncio do convívio familiar.
Avanço nas estatísticas
Mato Grosso do Sul ocupa o 4º lugar no ranking de casos de feminicídio no Brasil. Os dados são do Anuário da Violência Pública, divulgados na última quinta-feira (23), com base nas ocorrências de 2025.
O avanço nas estatísticas reforça um padrão de violência. Isso porque as agressões que terminam em morte acontecem no contexto de violência doméstica e familiar, com motivações de desprezo e até mesmo discriminação por ser mulher.
Quando o cenário nacional é analisado, os números de casos chegam a 1.571 feminicídios em 2025 — um aumento de 4% em relação ao ano de 2024.
Ao analisar o cenário sul-mato-grossense, o aumento no Estado chegou a 10,5%, com 39 casos em 2025 contra 34 registros em 2024.
Entre os casos de maior repercussão registrados em Mato Grosso do Sul, está o feminicídio da jornalista Vanessa Ricarte, ocorrido em fevereiro de 2025, em Campo Grande. A jornalista tinha 42 anos quando foi esfaqueada três vezes dentro da própria casa por Caio do Nascimento Pereira — na época, noivo dela.
Feminicídios em 2026
Josefa dos Santos foi morta no dia 16 de janeiro, em Bela Vista, e foi a primeira vítima de feminicídio de MS em 2026. A mulher foi baleada pelo próprio companheiro, Fernando Veiga, que em seguida tirou a própria vida.
Segundo informações, na época, uma discussão teria antecedido a violência que terminou com Josefa morta.
Rosana Candia Ohara, de 62 anos, foi morta a pauladas na noite de 24 de janeiro, em Corumbá. O autor do crime é o ex-companheiro da vítima, identificado como Antônio Lima, que foi preso em flagrante.
Um vizinho testemunhou as agressões e afirmou que acionaria a PM. Em resposta, o autor sorriu e continuou as agressões. Depois, tentou fugir, mas foi capturado.
Quase um mês depois, no dia 22 de fevereiro, Nilza de Almeida Lima, de 50 anos, foi morta a facada dentro de casa, em Coxim. Na época, o filho e o ex-companheiro de Nilza foram presos por suspeita de envolvimento no crime.
Contudo, o filho da vítima teria presenciado o crime e não participado da violência, segundo as investigações policiais.
Beatriz Benevides tinha 18 anos quando foi asfixiada pelo então namorado. A jovem foi morta no dia 25 de fevereiro dentro de um apartamento, em Três Lagoas. O suspeito segue preso.
Liliane de Souza Bonfim Duarte
Liliane de Souza Bonfim Duarte, de 52 anos, foi a primeira vítima do mês de março. Ela foi agredida com golpes de marreta pelo marido, um subtenente do Corpo de Bombeiros, em Ponta Porã.
A vítima ficou internada por dias, mas teve a morte encefálica confirmada no dia 6 de março. O autor foi preso em flagrante após ser visto correndo pelas ruas com duas facas. Os filhos do casal presenciaram a agressão e pediram socorro na rua.
O suspeito fugiu do presídio de Campo Grande no dia 12 de junho e foi recapturado 14 dias depois.
No mesmo dia, em Anastácio, Leise Aparecida Cruz foi encontrada morta dentro da própria residência. O marido, de 51 anos, alegou inicialmente que a esposa havia cometido suicídio devido a uma depressão. No entanto, as investigações avançaram e ele confessou o crime no dia seguinte, afirmando ter asfixiado a vítima.
Já no dia 8 de março, data em que se celebra o Dia Internacional da Mulher, a indígena Kaiowá Ereni Benites, de 44 anos, foi encontrada carbonizada em Paranhos. O corpo estava dentro da Aldeia Tekoha Paraguassu. O ex-marido dela, de 52 anos, foi preso em flagrante pela Polícia Civil.
O último caso registrado em março aconteceu em Selvíria, no dia 23. Fátima Aparecida da Silva, de 58 anos, foi assassinada, e o principal suspeito é o próprio sobrinho, conhecido como “Maurição”. Ele foi localizado pela Polícia Militar sujo de sangue, próximo a um córrego, onde tentava se lavar.
Marlene de Brito Rodrigues, subtenente da PMMS (Polícia Militar de Mato Grosso do Sul), foi encontrada morta a tiro na manhã do dia 6 de abril, no bairro Estrela Dalva, em Campo Grande.
O então companheiro da vítima, Gilberto Jarson, de 50 anos, foi preso e se tornou réu pelo crime. No dia do feminicídio, um vizinho o encontrou com uma arma em mãos.
No dia 12 de abril, Vera Lúcia foi morta a tiros pelo ex-companheiro Valdecir Caetano, de quem estava separada há 8 meses. A filha do casal presenciou a mãe sendo atacada pelo próprio pai. O caso aconteceu em Eldorado, e o autor tirou a própria vida após matar Vera.
Após ser sepultada, o túmulo de Vera foi revirado e a vítima foi alvo de necrofilia. Três homens foram identificados como suspeitos, sendo um preso.
Zelita Rodrigues de Souza, de 74 anos, foi encontrada morta em casa na noite de 30 de abril de 2026, com sinais de agressões e escalpelamento, no Porto Isabel, em Mundo Novo, cidade na região sul de Mato Grosso do Sul. O Corpo de Bombeiros foi acionado, porém, a vítima já estava em óbito. Logo depois, as polícias Militar e Civil foram ao local do crime.
Vicente Asuncion Vidal Gonzalez, de 41 anos, marido de Zelita, foi preso em flagrante. O corpo dela apresentava lesões na cabeça, sangramento e lesões no rosto, além de escalpelamento na região da nuca.
A fisioterapeuta Fabíola Marcotti, de 51 anos, foi encontrada morta com perfuração de tiro na região da cabeça no dia 18 de maio. O caso segue sendo investigado e não foi confirmado se a morte da profissional foi de fato feminicídio. O então companheiro de Fabiola chegou a ser preso, mas foi liberado.
A família, no entanto, contesta a versão de suicídio. O inquérito policial ainda não foi concluído e o MPE (Ministério Público Estadual) concedeu um prazo de mais 60 dias para a investigação.
Maria do Carmo de Souza, de 66 anos, foi encontrada morta dentro de casa, com sinais de violência, na área rural de Naviraí, cidade a 375 quilômetros de Campo Grande, no dia 28 de junho. Um borracheiro, que estaria se relacionando com a vítima, é apontado como o principal suspeito do crime e está preso.
Paula de Souza Conceição, de 29 anos, morreu na noite de sábado, 11 de julho, após ser esfaqueada pelo então companheiro. O crime aconteceu na casa da vítima, no bairro Jardim Pioneiro, em Fátima do Sul, e o homem foi preso por feminicídio.
A vítima foi encaminhada para o Hospital da Vida em Dourados. Ela morreu horas depois, após passar por cirurgias e sofrer paradas cardiorrespiratórias.
Rosenilda de Oliveira Candelario
Rosenilda de Oliveira Candelario, de 48 anos, conhecida como “Rose”, foi encontrada morta com tiros na cabeça na noite de 17 de julho, na Colônia Conceição, em Nioaque, a 185 km de Campo Grande. O suspeito pelo feminicídio é o esposo da mulher. Ele também é apontado por assassinar a facadas Reginaldo Messias Bispo, de 58 anos.
O suspeito se entregou dois dias após o crime na delegacia de Nioaque.
Terezinha Nanes de Arruda e Joel Escócia Carvalho, de 59 anos, foram encontrados mortos pelo próprio filho, na tarde de segunda-feira, 27 de julho, na Vila Bandeirante, em Campo Grande.
Conforme informações apuradas, o casal estaria em processo de separação após 30 anos juntos.
Promuse
A Polícia Militar do Estado tem ações de prevenção à violência doméstica. O Promuse (Programa Mulher Segura) foi criado em 2014, com o objetivo de fortalecer a segurança das mulheres.
O programa é voltado ao enfrentamento da violência doméstica, por meio de ações de prevenção, promovendo a segurança pública e os direitos humanos, realizando intervenções familiares com vítimas e agressores e encaminhando-os aos demais órgãos que compõem a rede de apoio e proteção.
De acordo com a entidade, em 2025, foram realizadas ao menos 20.049 fiscalizações de medidas protetivas de urgência. Além disso, foram registradas 1.343 ocorrências de descumprimento dessas determinações.
O Promuse está operante em 39 municípios dos 79 em Mato Grosso do Sul.
📍 Onde buscar ajuda em MS
Em Campo Grande, a Casa da Mulher Brasileira está localizada na Rua Brasília, s/n, no Jardim Imá, 24 horas por dia, inclusive aos fins de semana.
Além da Deam, funcionam na Casa da Mulher Brasileira a Defensoria Pública; o Ministério Público; a Vara Judicial de Medidas Protetivas; atendimento social e psicológico; alojamento; espaço de cuidado das crianças – brinquedoteca; Patrulha Maria da Penha; e Guarda Municipal. É possível ligar para 153.
☎️ Existem ainda dois números para contato: 180, que garante o anonimato de quem liga, e o 190. Importante lembrar que a Central de Atendimento à Mulher – 180 é um canal de atendimento telefônico, com foco no acolhimento, na orientação e no encaminhamento para os diversos serviços da rede de enfrentamento à violência contra as mulheres em todo o Brasil, mas não serve para emergências.
As ligações para o número 180 podem ser feitas por telefone móvel ou fixo, particular ou público. O serviço funciona 24 horas por dia, 7 dias por semana, inclusive durante os fins de semana e feriados, já que a violência contra a mulher é um problema sério no Brasil.
Já no Promuse, o número de telefone para ligações e mensagens via WhatsApp é o (67) 99180-0542.
📍 Confira a localização das DAMs, no interior, clicando aqui. Elas estão localizadas nos municípios de Aquidauana, Bataguassu, Corumbá, Coxim, Dourados, Fátima do Sul, Jardim, Naviraí, Nova Andradina, Paranaíba, Ponta Porã e Três Lagoas.
⚠️ Quando a Polícia Civil atua com negligência, má vontade ou comete erros, é possível denunciar diretamente na Corregedoria da Polícia Civil de MS pelo telefone: (67) 3314-1896 ou no Gacep (Grupo de Atuação Especial de Controle Externo da Atividade Policial), do MPMS, pelos telefones (67) 3316-2836, (67) 3316-2837 e (67) 9321-3931.
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(Revisão: Nichole Munaro)








